Posts com Tag ‘Liv Ullmann’

Duas Vidas

Publicado: dezembro 15, 2014 em Cinema
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duasvidasZwei Leben (2012 – ALE) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Durante a Segunda Guerra Mundial, a Noruega foi ocupada pelos alemães. Algumas mulheres norueguesas tiveram relacionamentos com os soldados, algumas crianças nasceram, e foram levadas à Alemanha por serem arianos legítimos. Katrine (Juliane Koehler) é uma dessas crianças que reencontrou sua mãe norueguesa (Liv Ullmann). Com a queda do Muro de Berlim, em 1990, o assunto volta a tona em tribunais europeus.

O diretor George Maas parte para o suspense, cheio de flashbacks o filme dá sinais de que Katrine tem segredos em seu passado que a trama tenta (mas não consegue) revelar só nos minutos finais. Efetivamente, apenas Katrine é a personagem mais desenvolvida, os demais (incluindo Liv) são coadjuvantes que servem para trazer o e peso do drama familiar, enquanto isso aparece a Stasi e seus métodos pouco ortodoxos. Resumindo, uma salada que tenta ser como thriller americano, tenta resgatar crimes de guerra, dramas familiares, mas só tem algum impacto quando a verdade sobre a fugitiva do orfanato é revelada.

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Liv & Ingmar (2012 – NOR)

Chamar de chapa branca é pouco, o documentário baseado nos relatos de Liv Ulmann sobre sua relação de amor e amizade, com Ingmar Begman, mostra uma senhora adocicada e carregada de nostalgia. Mesmo nas críticas, ela só consegue elencar a genialidade do mestre, enquanto o diretor Dheeraj Akolkar abusa da trilha sonora sentimentalóide e imagens de praias. Uma triste tolice que precisa resgatar muitas cenas dos filmes da dupla para preencher o material do documentário, e nos oferece poucas histórias íntimas-interessantes de Liv e Bergman.

The Serpent’s Egg (1977 – ALE/EUA)

Transcorrido em 1923, na Alemanha em reconstrução entre as duas grandes guerras mundias, enxergando o surgimento de um nacionalismo inflamado na população (que se personificaria na figura de Hitler) Ingmar Bergman toca num assunto nebuloso, um capítulo vergonhoso da história da humanidade.

Tudo começa com a situação política, desemprego, fome, a Alemanha vivendo o caos da super-inflação. Um homem se suicida, sua esposa e o irmão dele passam a “se ajudar” a enfrentar a crise financeira. O cineasta aposta na irregularidade dos personagens e do ambiente, torna seu filme tão ou mais irregular, por mais que se reconheça Bergman na densidade dramática, nos temas como sexo e a presença da religião, ainda assim há algo bagunçado naquela estrutura. Parece que todo aquele drama típico de seu cinema estaria, dessa vez, trabalhando em prol de um tema maior, e por isso o desenvolvimento ficasse sempre a segundo plano, por mais que naturalmente Bergman provasse ao contrário.

Nessa indecisão chegamos ao verdadeiro mote da história, a força do tema choca o público, muito mais pelo que se diz, e pelo que se imagina, do que pelo que se pode ver. A frieza com que os cientistas narram seus experimentos, o ritmo de thriller (em alguns momentos me fez lembrar algo de Hitchcock em seus suspenses políticos), não é bem o tipo de material a qual o estilo do sueco caberia perfeitamente.

Vargtimmen (1968 – SUE)

Em dado momento do filme, o pintor (Max Von Sydow) perturbado por seus fantasmas e os personagens de suas pinturas explica que a hora do lobo é aquele hora da madrugada onde a maioria das pessoas nasce e morre, a hora em que os pesadelos nos invadem. O filme é narrado por sua esposa, Alma (Liv Ullmann) lendo seus diários e conversando com a câmera sobre os fatos ocorridos recentemente.

Impossível definir o que é verdade, se é que há verdade, ou apenas uma grande alucinação. A historia claustrofóbica não nos permite adentrar em sua personalidade, e sim, sofrer com essas pressões fantasmagóricas. Seja da ex-amante, ou da velha que tira o chapéu e a pele do rosto que sai junto, ou ainda do senhor que tanto lembra Bela Lugosi. Ingmar Bergman não cria apenas esse clima perturbador com requinte, ele nos faz mergulhar, o peso dos ombros das alucinações que o fazem perder o controle recai sobre nós, vivemos a hora do lobo, não sabemos como sair dela.

Aos “frasistas” de plantão, Bergman cria uma série daquelas que podemos carregar como ensinamentos. O cineasta faz esse mergulho psicológico de forma que o clima de terror pode anular nossas próprias vidas por alguns minutos de tão entregues às presenças daqueles personagens que entram e saem, misteriosamente, sem que haja qualquer sentido além desse senso falta de controle. Um mergulho no “eu” de alguém perturbado, afastado da sociedade não só fisicamente, como psicologicamente, obcecado por um castelo, pelo convívio com… sabe-se lá quem.

Scener ur ett Äktenskap (1973 – SUE)

O estrondoso sucesso da mini-serie feita para a TV levou Ingmar Bergman a condesar as cinco horas de histórias numa versão de quase três hora para o cinema. Resultados? Na Suécia um crescimento gigantesco do número de divórcios, no mundo um sucesso impressionante. Mas essa é uma história triste ou feliz? Uma história de amor ou uma relação decadente e degradante? Simples ou não, são cenas de um casamento.

Com um longo plano-sequencia com câmera fixa o filme começa com uma entrevista, o casal Marianne (Liv Ullmann) e Johan (Erland Josephson) narram o casamento de sucesso, tantos anos de uma relação “perfeita”. Repare nos dois, na posição passiva dela e recatada dela, na auto-confiança e completa falta de humildade dele. Da entrevista em diante, não só nós, como eles próprios, descobrirão que esse mar de rosas é falso, que a relação não prima pela perfeição, mas por bases ais próximas do tédio, do mecânico, de uma tensão velada.

Começa o martírio, ele decide revelar o caso extraconjugal, se separar. Ela se desespera, o filme é praticamente de planos fechados e discussões intermináveis, ele não gosta de discutir a relação, ela acredita no amor de conto de fadas, de que tudo possa ser concertado, basta uma nova chance. E as verdades veem a tona, as pessoas revelam com todo o sarcasmo, os anseios e as decepções. Bergman derruba seu público que claramente se viiu em discussões parecidas na vida, e aquilo pesa nos ombros, a dor daquele casal que se autodestrói ferozmente, a quebra das fronteiras e a verborragia extrapola.

Liv Ullmann carrega a carga dramática a nivéis colossais (não que Erland Josephson não dê conta do recado, é que Liv brilha, se transforma, do recato para uma mulher madura, insinuante, fatal). Bergman foi capaz de resumir todas as brigas, todos os motivos, toda a insatisfação sexual e o analfabetismo de sentimentos, num único casal, num único casamento, em algumas horas que não te deixam respirar.

Um dos melhores filmes de todos os tempos!

Persona (1966 – SUE) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

A atriz (Liv Ullmann) para de falar em meio a uma peça de teatro, clinicamente saudável, inexplicavelmente permanece silenciosa. A enfermeira (Bibi Andersson) simples, ingênua e falante, designada para os cuidados da atriz. Uma cumplicidade absurda vivida por duas mulheres, Ingmar Bergman extrapola os limites da sensibilidade, do sensorial. É mágica a forma como Bergman cria tanta tensão e complexidade se uma das duas mulheres não pronuncia uma palavra, porém os conflitos estão tão explícitos, vivos, pulsantes com essa descarga de sexualidade e intimidade. Dois corpos misturando proximidade, carinho, fé, e atração, impulsionados pela força indescritível da imagem.

Frente ao espelho, as cabeças se curvam, o momento é tenso, carregado, Bergman insinua a imagem de um corpo com duas cabeças, momento poderoso. Nos relatos eróticos de uma orgia, a tensão sexual chega a níveis estratosféricos, é um mergulho fascinante pela sexualidade feminina, aliada à maneira como Bergman expõe a religiosidade, é a alma pura e simples jorrando de seus personagens, seja pela verborragia ou pelo silencio profundo. Liv Ullmann expressa tanto com seus olhares que não há necessidade da fala, seu silencio observador consegue dialogar, nos oferece até a sensação de tocar suas palavras, suas emoções, e, principalmente suas mágoas.

Porque é de tristeza que se constitui essa atriz, enquanto de vivacidade a enfermeira. E as duas, isoladas do mundo, em uma ilha, por recomendações médicas, chegam ao limite da convivência entre dois seres humanos, e ali, sintetizam a profundidade de suas almas, e Bergman capta isso, com enquadramentos fascinantes, com a sensação de que essa é uma peça de teatro, encenada na sua sala, e você, o único público para aquelas duas interpretações soberbas. Se algum homem chegou a compreender a alma feminina, ele talvez seja Ingmar Bergman.