Posts com Tag ‘Lola Dueñas’

osamantespassageirosLos Amantes Pasajeros (2013 – ESP) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Muita gente torce o nariz, mas eu admiro Pedro Almodóvar e Woody Allen. Eles carregam essa carga de “cineastas-autores”, emplacaram seus filmes nas grandes redes exibidoras de cinema, onde imperam apenas os blockbusters. Respeito pelo status que alcançado. Mas quando chega um novo filme desse “peso-pesado”, e não consegue espaço em nenhum festival importante, vai parar no Festival de Los Angeles? É atestado de que o filme não deu certo. Acompanhar carreiras traz esse sabor de tentar entender, traçar um panorama, novos horizontes. No caso de Pedro Almodóvar, os sinais de desgaste de seu cinema são bem evidentes. Seus últimos filmes patinam entre momentos de brilhantismo, e repetições inferiores ao que ele já fez tão bem. A Pele que Hábito é o melhor caso, revisitando o bizarro e as mutações sexuais, porém o incremento financeiro não faz jus à maturidade, a nova visão sobre o que foi visto antes carrega pragmatismo.

Dessa vez ele resolveu voltar ainda mais longe na carreira, resgatar suas comédias de início de carreira. Elas eram escrachadas, exageradas, atrapalhadas até o limite. Foram o início de sua trajetória, cheias de imperfeições, mas divertidas. Sua nova aventura humorística traz o que Almodovar tinha de típico, sem que nunca consiga chegar a lugar algum. Um bando de gays afetados, o sexo transformado em vulgar, e os dramalhões exagerados, todos os tons passam dos limites que Almodovar já tinha esticado. O resultado final é constrangedor, a reunião de boa parte dos atores que formaram sua filmografia merecia um pouco mais de carinho, a despretensão disfarçada mostra o desgaste que Almodóvar não consegue se livrar. Apelando, e da forma mais triste possível.

maradentroMar Adentro (2004 – ESP) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O aspecto que mais chama a atenção, na decisão de Ramón Sampedro (Javier Bardem), é a convicção. Em nenhum instante paira a dúvida sobre seu maior anseio. É compreensível, foram vinte e oito anos presos, numa cama, necessitando de auxílio de amigos e familiares para as mais simples atividades. Sentimento de estorvo. Ramón faz questão de deixar claro que não está julgando outros deficientes, mas ele não tem mais vontade de viver. Morrer com dignidade é seu lema, e o filme mostra a luta na justiça, para que sua morte seja feito dentro da lei, sem que alguém possa ser responsabilizado. Eutanásia, assunto delicado.

Para caminharmos pela vida do poeta, é inserida na história a advogada Julia (Belén Rueda), e por meio de suas perguntas, mergulhamos no passado e na melancólica vida de Ramón. Dificilmente a câmera de Alejandro Amenábar é estática, quando fora do quarto de Ramón. Essa sensação de movimento destoa, ainda mais, da impossibilidade de liberdade do personagem. A música pontua cada passagem melodramática, quase sufocando a voz dos personagens, seu exagero é eficaz e cansativo. Javier Bardem é intenso do início ao fim, sempre na medida certa, faz de sua atuação, a nobre razão de existir do filme. Pouco se tira quando ele não está em cena. Mas nesse pouco, há coisas de grande valor, como a surpreendente atuação de Mabel Rivera (como cunhada de Ramón). É dela a cena de maior emoção, sem pieguice, quando a pacata senhora estoura sobre o padre.

Os enlaces amorosos soam burlescos, dando um tom emotivo, e ainda mais desnecessário quando as discussões deveriam concentrar-se na eutanásia, e na situação familiar com todas essas circunstâncias. Fico imaginando a cabeça de alguém em situação parecida, quantas emoções e reflexões um filme como esse podem trazer, vibrações negativas ou alguma lição que traga ainda mais desejo de viver? No mais encerro com o pai constatando uma cruel realidade; pior do que ver um filho morrer é um filho que deseja morrer.