Posts com Tag ‘Louis Garrel’

Le Redoutable (2017 – FRA) 

É fato que Michel Hazanavicius precisava de um trabalho de impacto, porque após ganhar o Oscar com O Artista, seu filme a seguir foi um fiasco tão grande que acabou esquecido, desconhecido, eliminado da mídia. A ideia de biografar parte da vida de Jean-Luc Godard é realmente fascinante, por mais que nunca seria ele a primeira opção a se esperar. Adaptando o livro Um Ano Depois, da ex-esposa do cineasta Anne Wiazemsky (12 anos de casamento), estávamos de volta aos fatídicos acontecimentos de Maio de 1968, acompanhando a vida de Godard.

Tempo em que A Chinesa foi gravado, em que Godard participou das movimentações e protestos estudantis, e o que encontramos é a aspereza esperado, com toques cômicos dos primeiros filmes da Nouvelle Vague. É como se Godard fosse um personagem dos filmes do início do anos 60. E o filme se equilibra entre o compromisso histórico, o cotidiano do casal, a visão envelhecida de um eterno rebelde, e a visão pessimista de uma esposa nunca tratada com o carinho e atenção desejados.

O resultado é quase uma sitcom de tão engraçadinho, que com tantos elementos complexos se aglutinando a tentativa de Louis Garrel imitá-lo. Um filme incoerente? Talvez. Ou apenas, uma visão simpática (mesmo da avareza ou da eloquência), que vai em busca do humor físico e de pequenas coincidências, como forma de manter o público vivido por rir, e nunca compreender um pouco do que se passava naquela mente politizada, determinada, inventiva e única.

Mal de Pierres (2016 – FRA) 

O novo drama de Nicole Garcia é uma bem cuidada produção de época, que jamais decola como filme de autor. Adaptação de um livro de Milena Agus, tem em seu cerne o drama da mulher (Marion Cotilard) que almejava casar e viver por amor, mas teve uma vida regrada pela família e convenções sociais, até descobrir a paixão por um soldado (Louis Garrel) à beira da morte.

A opção é sempre por um espírito poético, pela ternura sentimental em cada plano, sem que tais sentimentos eclodam, necessariamente, ao público. Entre a paixão e a loucura, o filme mistura essa sensações em sua própria narrativa, enquanto Cotilard sofre, enlonquece, e jamais amadurece com o passar do tempo. Facilmente compreensível ter sido tão esnobado na competição principal de Cannes, ainda que tenha sido muito lembrado nas indicações ao César.

 

 

Les Fausses Confidences (2016 – FRA) 

O jogo proposto pelo diretor Luc Bondy é tão bobo que diverte, exatamente, por ser clara tão inverossímil. Dentro de um casarão, blefes e artimanhas para um secretário particular (Louis Garrel), interesseiro, conquistar o coração da patroa (Isabelle Huppert) que está prestes a aceitar um casamento arranjado a fim de evitar brigas de posse na justiça.

Empregados envolvidos, ou apaixonados por esses personagens, completam o tabuleiro de xadrez, cuja narrativa varia entre o filme de época atualizado. Importantes ressaltar o forte encontro entre cinema e teatro do proejto, as filmagens ocorreram durante o dia (fotografia tão solar e iluminada), porque à noite os mesmos interpretavam os mesmos personagens na peça de teatro. O sabor maior está em permitir que tais blefes e artimanhas se desenrolem à sua frente, entre o divertido e o ingênuo, com pitadas de frívolo e falsas confidências espalhadas por todos os cantos.

beijosdeemergenciaLes Baisers de Secours (1989 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Tantos não-cinéfilos taxam o cinema francês de chato, pedante e outros adjetivos. Assistindo a este filme de Philippe Garrel, consigo compreender essa interpretação, ainda que tão equivocada. É o típico filme onde esse tipo de classificação pode cair como uma luva, e o filme que me faz confirmar que tal comportamento é um equivoco.

Que belo filme, Garrel! Um cineasta independente (o próprio diretor) se prepara para um novo filme, meio autobiográfico, e escolhe uma atriz (Anémone) para interpretar sua esposa (Brigitte Sy), que se revolta por ser uma atriz em início de carreira, e queria ela participar do filme. E o filme não vai muito além deles, do filho pequeno (Louis Garrel), do pai do direto (Maurice Garrel), e das lamúrias e discussões do casal.

Em preto e branco, câmera sempre próxima dos personagens, faz lembrar uma daquelas canções de jazz, cheias de improviso e imersão pessoal do público. A separação, os sentimentos, as possíveis reconcialiações, a fúria feminina, é tudo tão belo, tão genuíno. Garrel equilibra esse jazz visual recheada de referências culturais, pessoais, que quase transforma seu coração num livro aberto, de curvas suntuosas, e imperfeições cinematográficas que o deixam ainda mais saboroso.

saint-laurentSaint Laurent (2014 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

É exatamente o que se poderia esperar de Bertrand Bonello, o cineasta francês, que tanto carrega o sexo como temática, mergulha nos anos mais agudos de vida de Yves Saint Laurent (Gaspard Ulliel), de 1967-1976. Não se aproximada da biografia quadradinha, que cobre os fatos de uma vida. Seu filme carrega a sensibilidade de tentar traduzir um pouco do gênio silencioso, vaidoso, tímido, e desenfreado por viver seus prazeres.

Nada melhor que transcorrer essa década, absorver a atmosfera do estilista feito, a relação com Berge (Jeremier Renier), as orgias, as fraquezas, o consumo desenfreado de drogas, as festas, o caso com Jacques (Louis Garrel) – grande responsável por Saint Laurent descobrir o lado mais “obscuro” de sua vida. E também as coleções, capturar pequenos detalhes da arte da custura.

Os últimos anos de vida surgem num salto cronológico, são cenas melancólicas, a tristeza do afastamento dos holofotes, a solidão. É a decadência social, pesada como a mobília dos luxuosos aposentos. É um filme para o público francês, ou para os que conhecem bem a figura de YSL. Mas, também, um filme que possibilita uma abordagem mais lúdica, evfervescente, que parte em busca da essência do biografado. Bonello e sua sofisticação traduz momentos em pura atmosfera, o sexo nem é tão escandaloso assim, está mais insinuado que efetivo, mesmo assim é uma arma poderosa em suas mãos.

Cena-chave quando Jacques conhece Saint Laurent, numa balada, um longo plano-sequencia em travelling lateral, capta o olhar de Jacques, a câmera atravessa a pista de dança até encontrar Saint Laurent no outro extremo, e vai, e volta, o olhar malicioso, a música tomando a pista, as pessoas dançando, vejo aqui o perfeito resumo do que é Bonello refletindo Saint Laurent.

O Ciúme

Publicado: outubro 7, 2014 em Cinema
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ociumeLa Jalouise (2013 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Philippe Garrel mantém viva a Nouvelle Vague. Ainda em capaz de realizar filmes pequenos, singelos, agradáveis, que trazem à arte ao seio da vida comum. Filmado em preto e branco, num tom de simplicidade que camufla as doses de ciúme (transferido entre os personagens, no decorrer da trama), Garrel adapta a infidelidade seu próprio pai, aqui interpretado por seu filho (Louis Garrel).

Atores de carreiras frustradas, casamentos encerrados, encontros e desencontros amorosos, ciúme. As doses de angústia e dissabor, o choro, o sofrimento, estes lados negativos da vida são representados de forma contida. Ainda assim vívidas. Entre traições e desesperanças de corações apertados em vidas profissionais frustradas, apartamentos minúsculos, e um desejo de acreditar no amor, ou simplesmente no sexo estão alguns planos de beleza exemplar (como o choro da cena incial, visto pela fechadura), por mais que o filme tenha a pretensão de não soar pretensioso, e, seguramente, é muito mais importante para o clã Garrel do que a seu público.

Un Été Brûlant (2011 – FRA/ITA/SUI)

Philippe Garrel colabora em ratificar a mítica de um universo isolado aos artistas. Pintores, atores, músicos, vivendo alheios à realidade da maioria, entre minutos de filosofia e genialidade. Como se fossem incapazes de um momento comum, até as tarefas mais simples diárias precisam de um quê de extravagante, cool, ou intelectual. A dor deles é diferente da nossa, as conexões amorosas também, e a vida, com uma liberdade que outrora nem poderíamos imaginar.

Nesse universo de puro endeusamento do mundo artístico, surge um pintor francês (Louis Garrel) despreocupado com o mundo, e sua estonteante esposa, uma atriz italiana (Monica Bellucci que aparece completamente nua na segunda cena do filme, obrigado Garrel pai). Na casa do casal, num verão em Roma, recebem um casal de atores, amigo do pintor. Os quatro passam ali semanas juntos, um relacionamento que se constrói enquanto outro se deteriora.

Cada cena, cada construção, cada detalhe, é hermeticamente projetado numa atmosfera blasé, como se houvesse arte em cada suspiro. As conversas versam sobre filosofia, tem tempo certo para reflexão antes de um próximo questionamento, a fluencia verbal é complexa, quase como se sentissem o ar que respiram, antes de seguir adiante. Pouco importa os caminhos que farão causar as ruinas do pintor (o filme começa com ele causando um acidente de carro), estamos tratando de dois assuntos, uma amizade que nasce e um relacionamento que morre, e dentro dessas duas perspectivas tantos assuntos envolvidos, como: amor e dor, respeito e infidelidade, desejo e ciumes, hospitalidade e intimidade, convivência.

Les Bien-Amiés (2011 – FRA)

Num primeiro momento pode parecer que Christophe Honoré foi buscar em seu musical anterior uma forma de apagar o fracasso de seu último filme, afinal a parceria com Alex Beaupain se repete, assim como alguns dos atores que também estiveram em Canções de Amor, além dessa mistura de relações amorosas entre heteros e homossexuais. Os planos de Honoré eram mais audaciosos, narrar a vida de mãe e filha por mais de cinquenta anos de história, entre França, Tchecoslováquia, Londres e Montreal. A mudança mais drástica é no tom, se Canções abusava (inteligentemente) da leveza, com um toque de pluma nos tabus, esse drama-musicado vem com o peso. Peso da Segunda Guerra, o peso de mulheres marcadas pelo sofrimento, e o peso de um roteiro que almeja caminhos diferentes dos usuais a seus personagens.

Se largamos mão nesse placebo que o filme se apresenta, temos apenas dois triângulos amorosos, é a vida da mãe refletindo na da filha. Se a mãe era uma puta que viveu entre o médico tcheco e o guarda frances, a filha se divide entre o professor (colega de trabalho) e o músico americano. Honoré busca, de todas as formas, complicar essa simples equação, porém seus personagens são tão egocêntricos, que o filme se cansa da luta ingrata de deixar de orbitram a volta deles, e se entrega a seus personagens de forma quase desinteressante. Onde está a leveza, Honoré? Ela era seu trunfo, deixe de fugir de uma de suas marcas pessoais.

ossonhadoresThe Dreamers (2003 – ITA/EUA/FRA/RU) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

As ruas de Paris fervilhando, a juventude intelectual bradando em protestos contra a demissão de Henri Langlois do comando da Cinemateca Francesa. Movimentos estudantis e operários de esquerda, munidos de coquetéis molotov, confrontavam-se com a polícia, governos acusados ferozmente de fascismo. Os protetos de maio de 1968 mobilizaram o mundo, jovens de grandes centros como Praga, São Paulo e Rio de Janeiro também manifestavam seus ideais comunistas. Sem dúvida, Paris foi o grande rolo propulsor da efervescência cultural e política que tomou conta da juventude naqueles anos, nomes como Truffaut e Godard eram alguns desses idealistas.

Bernardo Bertolucci vem com a adaptação do livro The Holy Innocentes, revive os anos efervescentes. Os três personagens dão o ar da graça pelas ruas, apenas um leve gostinho do tema político. A verdadeira revolução dos três acontece dentro de um apartamento. No meio do tumulto da demissão de Langlois, na porta da Cinemateca, os irmãos gêmeos Theo (Louis Garrel) e Isabelle (Eva Green) conheceram o ingênuo norte-americano Matthew (Michael Pitt), e os cinéfilos inveterados convidam o estrangeiro a passar uns dias no apartamento da família enquanto os pais estariam viajando.

A fuga completa da realidade é estabelecida por esses jovens, a relação mais do que íntima dos irmãos encontra em Matthew a perfeita simetria de desejos libertários. Jogos sexuais envolvendo adivinhações cinéfilas, conversas pseudo-filosóficas, discussões inflamadas pela preferência por Hendrix ou Clapton, Keaton ou Chaplin, a descoberta do corpo e do amor. Enquanto discutem seus ideais reacionários, no conforto do lar regado a um vinho caro, milhares manifestavam nas ruas essas idéias panfletárias. Uma espécie de realidade paralela.

Os Sonhadores parece embalado para o mercado comercial americano, além de falado em Inglês, quase tudo o que é discutido baseia-se na cultura artística dos EUA, seja pela maravilhosa trilha sonora de Janis Joplin, The Doors e outros, seja pelas referências cinéfilas como Fred Astaire, Howard Hawks, Nicholas Ray e companhia. O filme faz a alegria dos cinéfilos, mas perde-se pela exclusão do momento, pela exaustiva maratona de transformar esses personagens na própria. Bertolucci está certíssimo em afirmar que seu filme não é político,pende mais para realização de sonhos de jovens excêntricos.