Posts com Tag ‘Luchino Visconti’

Gruppo di Famiglia in un Interno (1974 – ITA)


Chega aos cinemas a cópia restaurado do penúltimo filme de Luchino Visconti. Um solitário professor (Burt Lancaster) aluga contrariado o apartamento sob o seu que estava fechado, e vê uma invasão completa da família burguesa e promíscua. A austera crítica à burguesia que tanto fascinava Luchino Visconti sofre aqui com seu próprio veneno. Primeiro pela sensação de dramas oriundos de quem não tem com o que se preocupar, com o que se importar, e por isso usa a verborrafia enloquente para futilidades enquanto versam sobre arte ou política.
Por outro lado, fica óbvio logo no começo da premissa, o grau de transformação que o professor solitário poderia sofrer. Mesmo aquele bando de pessoas vazias e desprovidas de humildade podem formar uma família e ter algum apelo de conforto a um homem solitário. Visconti filma tudo com lisura, dominando completamente a arte de focar quase todo seu filme numa pequena biblioteca, abusando de cada milimetro do espaço, sem nunca nos parecer claustrofóbico.

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Rocco e i Suoi Fratelli (1960 – ITA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A saga da família Parondi, apenas um dos inúmeros exemplos de êxodo rural, fenômeno recorrente em todos os países que se industrializaram (nesse exato instante é a China quem enfrenta esse fenômeno). A troca das raízes com seu povo, com sua terra, com as lembranças de seus antepassados, na ânsia de um futuro melhor para os filhos, o sucesso financeiro nos grandes centros metropolitanos.

Uma viúva e seus cinco filhos, de personalidades completamente diferentes. O mais velho já se instalara em Milão, sem avisar, o restante da família chega de mala e cuia. Após o prólogo, o filme divide-se em cinco capítulos, privilegiando um dos filhos, em cada um deles, sem que o desenrolar dos destinos de cada um e da família em si fossem comprometidos. É Rocco (Alain Delon), o terceiro filho, o grande destaque. Torna-se ele o eixo central da família, principalmente por seu senso de total união familiar, sua bondade exacerbada e a firmeza em suas decisões.

Luchino Visconti narra essa tragédia sob as bases do Neo-Realismo, há cenas de altíssima voltagem na carga dramática, aliás o Neo-Realismo como movimento cinematográfico sempre flertou com o melodrama, inclusive na repetição (em diversos filmes) de uma mesma cena em que duas pessoas se abraçam enquanto choram desesperadas pelo drama. Mais interessante é o desenvolvimento de cada personagem, o perfil de suas personalidades, os motivos que fazem alguns se tornarem pessoas tão equilibradas e outras tão desnorteadas. Desvio de caráter, fraqueza e falta de pulso, o amor, a conjunção desses e outros fatores…

Mas como retrato político-social, o filme é um arquivo fabuloso de uma época, tanto no aspecto do sonho de um futuro melhor, como nas dificuldades enfrentadas para se descobrir que não passava de sonho realmente. E o melhor do filme é a maneira como Visconti trabalha o tema família, as crises, a união, o perdão, o ódio, a figura da mãe como imã dos filhos. Os Parondi são o exemplo de uma família, tal qual conhecemos, com seus dramas, suas dificuldades, suas disputas, seus dilemas e seus momentos de prazer juntos.