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(2011)

Por meio da releitura das cartas (feitas por Caio Blat, numa ampla necessidade de parecer artístico) enviadas pelo irmão caçula Heitor, a cineasta Lúcia Murat conta a história de sua família, sempre marcada pela ditadura militar e as aguras que o regime lhes causou. Enquanto o irmão mais velho Miguel e a própria Lúcia permaneciam encarcerados como presos políticos durante os anos 70, o caçula cruzava o mundo, entre aventuras e alucinógenos. Difícil criticar um filme tratado com tanto carinho por sua diretora, afinal é sua história, é sua vida, e sua história definitivamente se confunde com a do país, mas as cartas escritas como se fosse uma criança de sete anos, e o exagero maternal na direção causam um filme as vezes interessante, as vezes constrangedor (muitas vezes divertido, principalmente pelo estado letárgico em que se encontra Heitor, o que é um tanto humor negro). Sem dúvida um filme de amor fraternal, de carinho, que funciona muito melhor num Natal em família (principalmente aos que querem mostrar aos filhos como você pode ficar após o uso contínuo de drogas.

quasedoisirmaosQuase Dois Irmãos (2005) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Acusar o filme de preconceituoso, não é uma afirmação descabida. A exposição do negro como marginal, enquanto o branco no papel de almofadinha intelectual, salta aos olhos de maneira veemente. Mas vamos resgatar a história, primeiramente. Dois amigos de infância se reencontram num presídio na Ilha Grande, o Brasil vive a ditadura militar. Miguel (Caco Ciocler) é preso político, enquanto Jorginho (Flávio Bauraqui) cumpre pena por assalto a banco. A narrativa divide-se entre cruzar esse momento, a um segundo, em que os dois amigos reencontram-se novamente. Dessa vez, Miguel (Werner Shünemann) é deputado, visitando o líder do tráfico de uma favela, Jorginho (Antônio Pompeo).

Cada qual a seu caminho, ambos estão muito bem financeiramente. Miguel foi visitar Jorginho em sua cela, com mordomias e telefone celular, para lhe propor apoio em um projeto social, que o deputado planeja instaurar na favela, exatamente onde o amigo exerce influência. Mais adiante teremos dados mais explícitos sobre as reais intenções de Miguel, talvez esse ponto passe despercebido como mais um momento realista e corriqueiro da história. Pode até ser, mas pode levantar outras interpretações, essa escolha parece chave para desmistificar segregacionismos. Um filme sobre escolhas? De maneira superficial, num pensamento pequeno-burguês, até que essa pergunta mereceria um sim como resposta. Afinal, os dois tiveram chances parecidas, e tomaram caminhos opostos em razão de suas escolhas. Essas chances parecidas talvez sejam a incógnita que altera toda a equação resultante da vida de cada um desses quase dois irmãos.

Lúcia Murat foi buscar a formação histórica das duas vertentes que comandam o país atualmente. De um lado os presos políticos, que há alguns anos despontam governando o país, e ocupando seus principais cargos (não importa a esfera). De outro, os chefes do tráfico que comandam os morros e fazem suas próprias leis. Vivem quase imunes a lei. A tênue linha que separou Miguel e Jorginho no presídio é a linha da escolha pessoal, o momento em que cada um optou por seu futuro. Mas qual razão levou cada um a fazer sua escolha, ou mais precisamente a escolha de Jorginho pelo crime organizado? A capacidade de liderança seria o segredo, naturalmente cada um optou pelo grupo onde poder se destacar, ter maior visibilidade. Onde suas habilidades poderiam resultar em liderança. No fundo, não passamos de animais querendo comandar o bando, perdemos os escrúpulos.

Quase Dois Irmãos trata de uma visão mais ampla do que a simples formação do Comando Vermelho, a qual faz referência. O final é claustrofóbico, Murat chega a nos meter medo de andar pelas ruas de uma metrópole. Ao som do samba que carrega o ritmo do filme a violência é exposta em pelo. Não posso terminar antes de elogiar Flávio Bauraqui e Antônio Pompeo, cada um em seu momento interpreta Jorginho, dois gigantes em sincronia.