Posts com Tag ‘Luis Tosar’

miamiviceMiami Vice (2006 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Confesso que na época do lançamento, por total falta de desconhecimento da carreira de Michael Mann, boicotei categoricamente o filme. Era a fase de um tsunami de seriados dos anos 80 voltando ao cinema, uma adaptação mais caça-níquel que a outra. Mas o caso era diferente, aliás, bem diferente. Só os passos finais da maratona, com os filmes de Mann, para contextualizar melhor o filme, a filmografia, e os novos rumos tomados.

Mann entrou o novo século inspirando nova fase, com Ali (biografia do boxeador Muhammed Ali) o cineasta dava sinais de preferir retratar mais o biografado, e menos sua história. A narrativa é fragmentada, como se fossem pequenos conjuntos de cenas, cada uma de uma época, não necessariamente preocupadas em contextualizar o público de tudo. Se fazia, muito mais, de trazer o público para sentir Ali. Em Colateral, ele retoma o filme policial, a noite prateadas, o ritmo suntuoso, cadenciado. Muito charme.

O seriado oitentista era obra sua, não é a primeira vez que Mann revisita sua carreira (o próprio refilmou seu telefilme L.A. Takedown, se tornando o sensacional Fogo Contra Fogo), e unificando características de seus dois filmes anteriores, Mann reinventa as possibilidades do gênero. Há os policiais (Colin Farrel e Jamie Foxx), os traficantes (Luis Tosar), as armas e perseguições, o plot que daria um típico episódio do seriado, e a mulher sensual (Gong Li) que um dos protagonistas irá se apaixonar (Farrel). Mesmo com todas essas características, o filme em nada se parece com um thriller policial. A suave desconexão, os enquadramentos oblíquos, diálogos suprimidos pelo entrosamento.

É um filme hipnótico, a noite volta a ser protagonista, e as imagens noturnas panorâmicas que jamais se viu em tamanha beleza. A lancha, os olhares, eles flutuam pelos fotogramas, causando essa hipnose de charme. O roteiro já não é tão importante, o detalhismo de Michael Mann descobre outras formas de explorar suas obsessões. Os corpos não são filmados com a fluidez e leveza de Kar-Wai, mas com uma brutalidade genuína, em planos nem tão fechados, ainda assim invasores.  Mann olha para seus trabalhos passados e quer fazer melhor, é um perfeccionista, mas, acima de tudo, um cineasta que segue desbravando trilhas inexploradas, dando a seus filmes charme próprio.

oslimitesdocontroleThe Limits of Control (2009 – ING) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Que delicia de enigma é esse trabalho de Jim Jarmusch. Isaach De Bankolé é esse homem solitário que bebe duas xícaras de café, ao mesmo tempo, enquanto espera seus contatos para realizar seu serviço. Está claro que ele realiza algo fora-da-lei (trafico? Roubos? assassinato? Não sabemos). Enquanto segue as instruções, e ouve monólogos imprevisíveis e misteriosos.

A caixa de fósforos com mensagens codificadas, os ternos brilhosos, as visitas ao museu, e a eterna pergunta se o protagonista fala espanhol, tudo faz parte do conceito estético de Jarmusch. Há muito mais ali do que a câmera está captando, aproximam-se do homem solitário os mais diversos tipos de pessoas falando em filosofias de vida, em assuntos abstratos. Cultura, violência, estilo, cada frame é puro estilo. A sensualidade das curvas de Paz de la Huerta, o onírico da fantasia de Tilda Swinton, os instrumentos de corda que carregam John Hurt e Luis Tosar. Talvez nada tenha uma explicação, apenas façam parte da alegoria de uma trama misteriosa, de uma falsa passividade, de um primor de condução do espectador por Jarmusch.

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Una Pistola en Cada Mano (2012 – ESP) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Como é ser homem, atualmente, e viver na faixa dos 40 anos? Que tipos de aflições e medos, dramas e dúvidas, qual o conforto financeiro e as relações amorosas que vivem? Aquele clima de filme coletivo, estilo Paris, Te Amo, com histórias curtas, um quê de comédia, e um elenco de chamar a atenção.  Se o filme não sofre da uniformidade resultante da mão de vários diretores, o cineasta Cesc Gay pouco de interessante consegue agregar, seja pelas histórias banais e nada inspiradas, seja pela abordagem primária.

oquefalamoshomens2Dos que voltaram a morar com os pais, aos que tentam uma escapadinha fora do casamento, ficamos mais atentos apenas à aparição de Javier Cámara na agridoce história do homem que se divorciou e tenta reatar com sua esposa. E, principalmente, ao encontro de Ricardo Darín e Luis Tosar, o traído que seguiu a esposa à casa do amante e o amigo que confunde o nome das namoradas e do cachorro. As demais são muito apagadas, e pecam por um grau de veracidade sem brilho, como se fossem histórias que sequer merecessem serem contadas. Os 8 homens não representam a gama masculina dessa faixa etária, e nem conseguem trazer vidas pitorescas ao público.

También la Lluvia (2010 – ESP)

O produtor (Luis Tosar) está radiante com os baixíssimos custos que as filmagens na Bolívia proporcionarão ao filme dirigido pelo cineasta idealista Sebastián (Gael García Bernal) que apenas está preocupado em apontar os interesses claros da coroa espanhola em obter ouro na viagem em que Colombo descobriu a América. O roteiro complexo traz essa equipe de filmagem à Cochabamba, enquanto uma jovem grava o making off das filmagens e a produção escolhe figurantes e atores locais para a produção, uma guerra civil está prestes a eclodir na cidade (de fato as manifestações ocorreram por lá em 2000) depois que a companhia de água foi privatizada para empresas estrangeiras gerando um aumento de 300% nas tarifas.

A cineasta Icíar Bolaín sabe muito bem acumular situações e sentimentos até a erupção de um vulcão (já foi assim no ótimo Pelos Seus Olhos) e aqui novamente. Primeiramente pela metáfora poderosa da relação entre os abusos mercantilistas de 500 anos e os atuais (os estrangeiros chegam, sugam o povo e ainda se divertem, incluindo a equipe de filmagem)  e depois por toda a sequência de guerra civil nas ruas que são de arrepiar. Conectar todos esses elementos, desenvolver uma enorme gama de personagens, e manter unidade são demonstrações do grau de maturidade de um trabalho.

 

Te Doy Mis Ojos (2003 – ESP)

O primeiro encontro se dá na porta da casa da irmã, há poucos dias ela fugira de casa com seu filho e se refugiara ali. Marido e mulher, parcialmente frente a frente, ele tenta se controlar, grita, bate na porta, ela com medo, se lembra de tudo que já passou, mágoa e amor se conflitam, ele toca-lhe o rosto, a cena é linda, difícil, espremida como os corpos pela janelinha da porta.

A diretora Icíar Bollaín discute a violência familiar, maridos que espancam suas esposas, os lares destroçados pelo medo, insegurança, ciúmes, pela falta de respeito e individualidade. Antonio (Luis Tosar) busca auxílio em terapias em grupo com outros homens que cometem violência doméstica, se esforça para controlar seus ímpetos de fúria. Pilar (Laia Marull) passa a trabalhar numa igreja de beleza impecável que repleta de obras de arte recebe turistas e visitantes; assim descobre as artes e uma paixão em compreender os quadros e a história de cada um deles. Não são mais as mesmas pessoas, numa cena ela empolgadíssima conta sobre seu trabalho, seu entusiasmo bate de frente com um muro, aquele homem egoísta e xucro só deseja que as coisas voltem a ser como antes, que sua esposa fique cuidando da casa e do filho para que ele chegue e encontre sua cerveja, a janta pronta e uma mulher sedenta por fazer amor.

Na reaproximação do casal o despertar da paixão faz novamente parte daqueles corpos e almas, mas é difícil entender que as pessoas amadurecem, aprendem, e Antonio acredita que meia dúzia de sessões de terapia foram capazes de controlar seus ímpetos agressivos, quer possuir sua esposa, ser dono de cada parte do seu corpo, só que nessa nova relação ela não mais lhe pertencem tem por ele amor, desejo, porém as coisas são diferentes e o ciúmes corrói o vendedor de geladeiras. Numa das grandes cenas do filme, Antonio conversa desesperado com o terapeuta, Pilar não havia atendido o celular e ele entrega seus sentimentos, seu medo de que ela encontre alguém interessante já que ele enxerga que no fundo ele tem muito pouco a lhe oferecer. Pelos Meus Olhos é daqueles filmes que guardam dois ou três momentos que ficaram guardados na memória, pela realidade crua, e principalmente pela capacidade de trazer a tona (em forma de metáfora ou não) os mesmos problemas que enfrentamos em nossas relações pessoais.