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O Lixo e o Sonho

Publicado: junho 3, 2018 em Cinema
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Ratcatcher (1999 – ESC) 

Greve dos lixeiros na Escócia, os sacos de lixo se amontoam pelas ruas, ou nos playgrounds onde brincam as crianças num subúrbio de Glasgow. Lynne Ramsay estreia na direção de longas com um trabalho sujo, áspero e cinzento. Outro filme que traduz o mundo através do olhar das crianças, mas aqui a pureza dá lugar à marginalidade, à sobrevivência por famílias fragmentadas, problemáticas, longe da estabilidade e rotina confortável ao desenvolvimento dos mais jovens.

Os primeiros cinco minutos enganam o público sobre quem será o protagonista, a mudança está ligada à tragédia, mas também a culpa, e a tentativa do filme em justificar, a seguir, um pouco do que aconteceu, através desse novo protagonista. Nesse mundo de sonhos aprisionados, Ramsay constrói um retrato cruel entre silêncios e sequencias de impacto, como as de crianças brincando com ratos que servem como perfeita tradução para revelar a completa sensação de descaço e desesperança.


Festival: Cannes 1999

Mostra: Un Certain Regard

You Were Never Really Here (2017 – RU) 

É a história de um homem solitário e reservado, que vive para cuidar, carinhosamente, de sua mãe bem idosa. E também a história desse mesmo homem, um seria killer (Joaquin Phoenix) contratado para resgatar a filha de 12-13 anos, de um senador, que foi sequestrada e obrigada a se prostituir.

A trama leva para caminhos de conspiração, cenas fortes de violência (predileção pelo uso de martelo), ainda que lentas, mas há outros aspectos no filme de Lynne Ramsay. Entre eles, a curiosa relação entre a garota e o contratado para lhe salvar, algo que lembra a relação entre Foster e DeNiro em Taxi-Driver, nada a ver com questões sexuais. Outra característica é como Ramsay realiza esse anti-filme de ação, por mais que a trama tenha todos os ingredientes do gênero. São personagens que carregam muita dor e solidão sob os ombros, e do caos se aproximam.


Festival: Cannes 2017

Mostra: Competição

Prêmios: Melhor direção e ator

We Need to Talk About Kevin (2011 – EUA)

Qual o grau de relevancia do drama de vida da mãe de um desses estudantes-serial-killers-de escolas? Tendo em vista o filme dirigido por Lynne Ramsay, nenhum. Num paralelo entre vida atual e a reconstituição dos fatos (desde o casamento e nascimento do filho, até a situação vigente), tudo o que Ramsay faz é justificar um comportamento demoníaco do garoto, desde criança. Algo totalmente fora de propósito, impossível, a maldade desde bebe não condiz com qualquer realidade.

A mãe (Tilda Swinton) tenta reconstruir sua vida, abafada pelo escandalo, a vergonha, e o repúdio da sociedade. Ao seu lado, personagens fétidos, como se a reconstrução fosse impossível desde as relações sociais (quando os problemas deveriam ser muito mais intrínsecos, do que a dificil relação com novos colegas de trabalho). Impressionante como Ezra Muller consegue fugir do tom do filme, e apresentar uma atuação até contida, dentro de todo o demoníaco personagem apresentado.