Posts com Tag ‘Maeve Jenkings’

Where Has the Time Gone? (2017 – BRA/CHI/IND/RUS/AFS) 

Essa pergunta respondida com a visão de cinco diretores tendo os países do BRICS como palco. Idealizado e produzido por Jia Zhang-ke, o filme sofre dos maiores males do filme-coletivo. A falta de unidade é tão gritante que é difícil encontrar conexões entre eles. Walter Salles abre com o acidente ambiental de Mariana, é o primeiro a levantar ao mundo a catástrofe ocorrida no Brasil. Da pungência do tema, Salles concentra no drama de uma familia cujo pai acaba sendo um dos desparecidos do desastre.

Jia fecha o filme com uma reflexão precisa da sociedade chinesa atual, a abertura para ter um segundo filho modifica diversas questões sociais, e o filme tem no cerne um casal discutindo sobre a possibilidade de uma nova gravidez, mas não fica apenas nessa única questão. De resto, melhor passar bem longe da amizade de um idoso e um garoto na Índia. Ou insosso do drama de um casal na Rússia, e mais ainda de outra ficção futurista sul-africana.

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AquariusAquarius (2016 – BRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Lembro bem de criança quando descobri os vinis e fitas K-7 do meu pai, guardadas no armário, e que me foi permitido acesso livre. A vitrola rapidamente quebrou, assim como o K-7 que tinha Toquinho e Vinicius. Mas era um fitinha verde que eu ouvia repetidas vezes, e a frase do meu pai que dizia “sumiram com Taiguara para calá-lo” sugerindo que Taiguara vivia no exílio ou teria morrido. Meu pai não deve saber ainda qual foi o fim de Taiguara, e eu nunca mais ouvi aquelas canções, que me fascinavam, por mais que eu nem deveria entender 10% do que diziam.

A abertura do filme de Kleber Mendonça Filho traz a canção Hoje de Taiguara, que me pareceu familiar desde os trailers, mas confesso que precisei pesquisar para lembrar o nome do cantor. Afinal, na minha infância, Caetano Veloso (“caminhando contra o vento”) era tão importante quanto Taiguara (“eu não queria a juventude assim perdida”). Clara (Sonia Braga) é a própria voz da resistência. Uma voz que luta, que expõe seus argumentos, quase sempre sem sair do tom. Uma voz que não nega o presente, mas mantém viva a chama do passado.

A narrativa de fluidez hipnótica de KMF apresenta Clara em todos os sentidos, sua juventude de luta contra um câncer, sua relação com os filhos, a vida social com suas amigas, ou com a empregada doméstica, além de suas pequenas rotinas. O filme é perfeito em representar isso tudo, em construir a personagem bem diante dos nossos olhos, como quem nos convida para sentar no sofá daquela sala.

E novamente o diretor e crítico de cinema prova captar assuntos fervilhantes da cultura brasileira atual, estamos diante do Impeachment, e KMF traz a história de uma mulher que não quer sair de seu “trono”, por mais que todos os sinais indiquem esse caminho. É a pura voz da resistência. No filme, Clara vive no mesmo apartamento que viveu a vida, que ouviu aqueles discos que ecoarão por diversas vezes no filme (Gil, Bethania). Porém, uma construtora comprou todos os apartamentos do prédio, só resta do dela para que o prédio seja demolido e substituído por um novo empreendimento. Enquanto conhecemos cada vez mais de Clara, surge o conflito entre imobiliária e a solitária proprietária. Táticas de guerra, ameaças, KMF pontua didaticamente quem é o bem ou o mal, quem é a direita e a esquerda em seu filme, e com conceitos tão definidos e caricatos, exagera novamente na necessidade de pregar sua luta/visão política (tem todo o direito, a questão é como).

Tantas polêmicas envolveram o filme, algumas causadas pelo próprio diretor, o fato é que se tornou o filme brasileiro mais controverso antes mesmo de sua estreia. Bom que gerou curiosidade, mas uma pena que muita gente deixar de assistir esse estudo tão humano e essa capacidade de tratar a terceira idade sem clichês, permitindo que se viva a vida, que haja desejo sexual, assim como angústias, medos e o depósito da esperança na juventude. Sonia Braga é luz, uma estrela que faz de seu brilho próprio a grande conexão entre o público e tudo que KMF deseja comunicar.

boineonBoi Neon (2015) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza 

Gabriel Mascaro segue os rumos, inclusive no sucesso internacional, de seu filme anterior, Ventos de Agosto. Segue porque há continuidade no ritmo narrativo, e no retratar personagens do nordeste brasileiro pincelando personagens na multidão. Desse modo, ele dá voz diferenciada a tipos, até comuns, que no cinema são capazes de oferecer esse olhar singular. As Vaquejadas ainda são traços de uma cultura enraizada pelo nordeste agrário. Sob as lentes desnudantes de Mascaro, acompanhamos um pequeno recorte de um grupo trabalhando nos espetáculos da Vaquejada.

Galega (Maeve Jenkings) é a motorista do caminhão da boiada, num ambiente tão masculino, ela carrega consigo a filha adolescente, e mantem-se em pé de igualdade, ainda que encontrem espaço para extrapolar a feminilidade em seus shows secretos de stripper. Iremar (Juliano Cazarré) é um dos responsáveis por tratar dos bois, pisa muito em bosta para que estejam nos trinques para a aparição ao público. Enquanto isso mantém a chama vida de seu sonho de ser estilista de moda feminina. Sim, temos a troca de papéis que facilmente soa com naturalidade sem estereótipos contra seus gêneros sexuais.

O diretor explora muito do ambiente, aproveitando toda a horizontalidade da extensão da tela. Expõe corpos com naturalidade impressionante enquanto, novamente, coloca-se numa posição passiva de observar, sem interferências. Cria assim um estilo próprio que dialoga com seus primeiros trabalhos como documentarista (Domésticas), ainda que resulte em menor envolvimento com parcela considerável do público. Trabalha praticamente na ausência de sentimentos, ainda que exale suor, tensão e essa constante presença física a cada plano.