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Tian Mi Mi / Comrades: Almost a Love Story (1996 – HK) 

Quase uma fábula romântica contemporânea, o filme de Peter Chan narra o encontro de dois imigrantes da China continental, que chegam a Hong Kong em busca do conforto financeiro. Jun Li (Leon Lai) é o garoto ingênuo que pretende conseguir dinheiro para se casar com a namorada. Qiao Li (Maggie Cheung) é bem mais astuta, prática e interessada em voos maiores.

Há no filme muito do vislumbre de estar em Hong Kong, a China capitalista, onde se pode comer no McDonald’s, ou que o caminho para se dar bem na vida é aprender a falar inglês. Sem perder essa essência de imigrantes em busca de seus sonhos, a narrativa vai naturalmente aproximando esses amigos para uma atração incontestável, quase um amor irrealizável como dos filmes de Kar-Wai. Mas aqui, a mão de Peter Chan leva os personagens para outros caminhos, seja pelo clima adocicado que se coloca entre o brega-romântico e o hipnótico, seja pelos circulas altos e baixos que a dupla enfrenta em sua jornada financeira.

Olhares, silêncios, o não-dito, as canções de Teresa Teng (uma delas faz referência ao título original do filme), além da impressionante capacidade do cineasta em criar pequenas e saborosas (algumas até inesquecíveis) cenas, fazem do filme essa representação de personagens comuns vivendo um romance avassalador, tanto para eles, quanto ao público.

irmavepIrma Vep (1996 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Sensacional a transposição de Olivier Assayas do mundo atrás das câmeras. René Vidal (Jean-Pierre Léaud) é um daqueles cineastas que já viveu seus momentos, buscando reencontrar-se aceita dirigir o remake de Les Vampires (clássico mudo do cinema francês). Sua escolha para Irma Vep (anagrama da palavra Vampiro, em francês) é uma atriz chinesa (Maggie Cheung), que sob sua ótica é a perfeita tradução de Irma Vep: sensual e misteriosa.

O caos começa quando da chegada de Maggie a Paris, a equipe de produção está toda confusa, as brigas e disputas intermináveis no set. Assays se utiliza muito de planos-sequencia, seja dentro da produtora, ou do set, intensificando esse caos entre a equipe de produção. De outro lado, Maggie se vê fascinada pella cidade e por sua personagem. Assayas mistura bem esse conjunto de elementos, trazendo o enigmático ao rocambolesco do ritmo das gravações. Um pequeno deleite do mundo por trás do cinema, filmado de maneira vivida, simples e sofisticada.

amoraflordapele2In the Mood for Love / Fa Yeung Nin Wa (2000 – HK) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Filmado com classe e distinção, na Hong Kong dos anos sessenta. Dois casais se tornam vizinhos, mudam-se no mesmo dia (sequencias de humor delicioso na troca dos móveis). Seus pares viajam muito à trabalho, Sra. Chan (Maggie Cheung) e Sr. Chow (Tony Leung) quase sempre se encontram, sozinhos, por pequenos becos da vizinhança, ou na escadaria do prédio, quando voltam do trabalho ou saem para comprar noodles.

O ballet dos corpos, trilha sonora, sombras, olhares e encontros. A câmera lenta, os vagarosos e constantes travellings, a fumaça que invade o quadro. O cineasta Wong Kar-Wai está dissecando seus personagens e os lugares por onde passam. Enquadramentos pamoraflordapele1or entre muros, nas frestas de portas ou no canto de uma janela, sempre com elegância e estilo.

O amor irrealizável, a integridade do matrimônio e a desconfiança que seus cônjuges tem um caso. Como eram começaram é o questionamento dos traídos. A dor que aproxima: amizade ou paixão motivada pela vingança?

Não há cena sequer em que requinte e bom-gosto não estejam intimamente ligados. A montagem tem momentos que se assemelha aos primeiros filmes de Resnais, diálogos que se encaixam, mas não ocorrem no mesmo momento, a chuva, os encontros infortúnios, o amor à flor da pele renegado. Lágrimas, tristeza, desesperança, Nat King Cole cantando em espanhol boleros que casam perfeitamente com lugares, o caminhar melancólico. A luz, sombras, o som, e os olhares, ah os olhares.

A imagem flui lenta, cadenciada. O amor silencioso corrói os corações, e a angústia desses corações mudos é combustível para interpretações sutis e viscerais de Maggie Cheung (e seus deslumbrantes vestidos floridos) e Tony Leung que eles não precisam falar, os gestos e olhares falam tudo, traduzem o que palavras não conseguiriam. Ao fundo o período conturbado da vida de Hong Kong, as pessoas mudando-se para outros países asiáticos, ainda as transformações desde o fim da Segunda Guerra Mundial. A obra-prima de Kar-Wai é lírica, e espantosamente moderna e clássica. São cenas que esse que vos escreve esquecerá jamais.

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