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Mulher do Pai (2016) 

O que há de melhor no filme da diretora Cristiane Oliveira, que foi exibido numa das mostras paralelas do Festival de Berlim, é permitir a mudança a seus personagens. Num canto asfaltado dos grandes centros, na divisa do Rio Grande do Sul com o Uruguai, temos a história da adolescente Malu (Maria Galant) e seu pai cego (Marat Descartes). Pelos olhos atentos e singelos da diretora, acompanhamos a mutação desses dois personagens quando a avó vem a falecer. Sem a matriarca, e epicentro da família, temos a jovem que precisa assumir afazeres da casa, enquanto vive a descoberta da sexualidade. E um homem que vê a necessidade de criar o diálogo que nunca manteve com a filha, nesse momento em que orientação e limites são assuntos complexos e passíveis de desgaste.

A sexualidade de pai e filha colocados à prova, o ciúmes pela aproximação de qualquer estranho a esse habitat, o futuro de baixas expectativas, está tudo ali naquela casa simples, naquela relação que parece ter se reconstruir, em que a guerra de egos pode tornar tudo uma panela de pressão. Em um dado momento, a filha narra uma sequencia do filme Transformers, que passava na tv, pode parecer um momento simples, mas é possível entender um pouco do aprendizado em ser pai e da filha meio adulta, meio criança.

Quando-Eu-Era-VivoQuando Eu Era Vivo (2014) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Um filme de terror sem sustos, mas com aquele incômodo latente, que se acentua enquanto a trama mergulha mais no mundo sobrenatural. Adaptação de livro escrito por Lourenço Mutarelli, o diretor Marco Dutra volta a tratar da classe média, sua visão é de pessoas fragilizadas, seja financeira, seja emocionalmente.

Marat Descartes é o filho, retornando a casa do pai (Antonio Fagundes) por estar se separando da esposa. Um personagem deveras perturbado, o filme tenta pregar suas teorias que intensificam esse comportamento, mas desde o início sua esquisitice destoa a tal ponto que essa transformação fica camuflada. Ao revirar o passado, buscando objetos e lembranças da mãe falecida, a presença do sobrenatural parece tomar conta do filho, o pai descrente assiste ao mergulho do filho nas profundezas.

Há ainda Sandy, uma universitária interiorana que estuda para seguir carreira de cantora (explicado o porquê de sua escalação). Sandy é esforçada, mas pesa sobre ela limitações nítidas e o estigma de ser quem é. As razões de ter sido escolhida são as mesmas que pesam sobre ela, se Sandy pretender seguir carreira de atriz, deveria se distanciar da música nos filmes (ao meu ver). As três peças desse quebra-cabeças, que habitam esse apartamento, mergulham (a seu modo) nessa atmosfera que lentamente traz à tona as explicações da presença maligna que assombra aquelas almas.

Ao mesmo tempo que o sobrenatural se fortalece, há sempre o peso da vida classe-média, a dificuldade da relação pai x filho, um pequeno turbilhão de temas que não parecem se esgotar, que não parecem seguir para um mesmo desfecho. Até que os caminhos apontem para uma única direção (nisso a participação de Tuna Dwek é imprescindível), o incomodo permanece com você até os créditos finais, culpa do belo trabalho de luz e som. Porém, a narrativa está longe de ser intrigante, arrastada, e aquela sensação de que tudo fechou perfeitinho, mas era apenas isso?

(2011)

O flerte da dupla de cineastas Juliana Rojas e Marco Dutra com o sobrenatural é evidente, pequenos mistérios surgem calados e uma simples infiltração na parede pode se tornar emblemática (quase uma cena de terror, bem conduzida). Porém, além de clima claustrofóbico bem inserido nada de muito relevante surgirá dele. São personagens desprovidos de entusiasmo, na visão dos diretores a classe-média paulistana é estressada, triste, desamparada, e completamente sem entusiasmo.

Helena (Helena Albergaria) está prestes a abrir um supermercado, ela carrega o peso do mundo sob suas costas (sabe-se lá porquê), praticamente acerta o negócio com o mesmo animo de uma ameba. Tudo bem, logo a seguir o marido perde o emprego (Marat Descartes) e o lado financeiro se complica, mas e antes de isso acontecer? E esse peso excessivo de desanimo assola totalmente aquele casal, não há vibração, não existe garra. Por outro lado, o filme traz bem essa situação de dois estranhos que dividem a mesma cama, já que cumplicidade não se encontra em todos os casais (além da sátira aos processos de seleção ridículos que alguns executivos tem que passar).

Trabalhar cansa, sim, sabemos disso, assim como da competitividade entre empresas e profissionais, mas criar algo te estimula, e com a força de vontade de Helena, não conseguiria vender um guarda-chuva em dia nublado. As pessoas tem problemas, muito problemas, algumas se desesperam, outras nem tanto, o drama deles é real, verdadeiro, está em condomínio, ainda assim, brasileiro tem essa coisa de sorrir mesmo nas desgraças, Rojas e Dutra triplicam o peso do mundo nas costas dos protagonistas e fica o sobrenatural só para dar uma temperada nessa narrativa arrastada.