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Pacarrete

Publicado: dezembro 5, 2020 em Cinema, Mostra SP
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Pacarrete (2019)

Sensação no Festival de Gramado, o longa-metragem dirigido por Allan Deberton oferece a Marcélia Cartaxo palco para ela brilhar numa personagem controversa, divertida, e profundamente triste. Ela nos faz rir com sua empolgação dos tempos de bailarina em Fortaleza, sua mania de misturar o francês e o português, e de beber de um tipo de cultura artística que não dialoga muito com o gosto popular. Na pequena cidade de Russas, tudo soa como excêntrico, e suas manias e egocentrismo apenas a tornam uma moradora peculiar, imcompreendida, quase uma megera.

Em entrevistas, o cineasta afirma que conheceu a verdadeira Pacarrete na infância, e não é de surpreender que alguém assim viva alimentada de seus sonhos, suas paixões obsessivas e dessa fuga da realidade. De outro lado, toda essa empolgação e via cômica guarda uma pessoa tão solitária, e amargurada por suas decepções. Nesses momentos, Cartaxo volta a surpreender com com essa sensação de pesar, com o desencanto de quem não perde a pose, mas por dentro vive em frangalhos.

(1985)

Suzana Amaral trazendo às telas o livro homônimo de Clarice Linspector, buscando na ingenuidade absurda (e genuína à personagem) uma maneira de retratar a grande maioria de um povo, o nosso povo, o nosso Brasil. Macabéa (Marcélia Cartaxo, escolhida melhor atriz no Festival de Berlim por sua performance) é de uma simplicidade e pobreza que só nós brasileiros entendemos, ela não lava as mãos engorduradas para bater à máquina, sujando todas as páginas em seu trabalho como datilógrafa. Mora num quarto moribundo, dividido com outras três mulheres, um banheiro comunitário para elas e outras moças que dividem outros quartos. Assistir tv? Só pela janela, sem som, enquanto a dona da pensão acompanha a novela. Cartomante e o amor cruzarão o destino da singela heroína dessa história permeada de ausências, ou de falta de perspectiva. Suzana Amaral cuida de todos os detalhes, dos figurinos à fotografia escura, pesada, modorrenta, peca nas atuações frouxas (exceção à de Cartaxo) e num sentido além da repetitiva idéia de ingenuidade (mesmo quando ela tenta ser “malandra”).