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Estou Me Guardando para Quando o Carnaval Chegar (2019)

Marcelo Gomes é um dos cineastas com filmografia das mais interessantes do cinema nacional contemporâneo. Vai desde ficções e documentários (Cinema, Aspirinas e Urubus ou Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo), com forte carga pessoal, a dramas históricos, no caso Joaquim, sobre Tirandentes. Todos são filmes em que a paisagem, o ambiente, são quase personagens, e o deslocamento é figura importante nas narrativas.

Não é diferente nesse novo trabalho, partindo de lembranças de quando era garoto, Marcelo Gomes parte para um estudo sobre a cidade de Toritama (no agreste pernambucano). Não se sabe bem porque, mas a cidade se tornou um dos maiores polos produtores de jeans no Brasil. Microfabricas arranjadas nas garagens ou mesmo na calçada das casas de quase todos os moradores configura uma paisagem em que é difícil não ver todo mundo com um jeans nas mãos.

Todos trabalham na base da produtividade, ganham por quanto produzem e assim fazem suas longas jornadas de trabalho. Surge a primeira questão: vale a pena não ter chefe e trabalhar 16 horas por dia? Muitos deles respondem a questão, mas a dúvida permanece ao público, porque a vida parece fadada ao trabalho, exceção feita ao Carnaval, momento em que tudo para, todos abandonam os jeans e vendem tudo que tiver só para pagar a viagem e pular o Carnaval.

Marcelo Gomes nos faz lembrar o estilo de Eduardo Coutinho enquanto conversa com seus personagens, tão simpáticos e simples, mas que bebem dos mesmos objetivos e opiniões. Uma sociedade moldada através de uma liberdade questionável, de um capitalismo perverso, mas que parece consenso de seu preço é bem-vindo a todos de Toritama.

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Joaquim

Publicado: abril 25, 2017 em Cinema
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Joaquim (2017) 

Uma crônica sobre o Brasil colonial. O cineasta Marcelo Gomes retorna a figura do mártir ao cinema, de um jeito bem distante do explorado nos livros de história. A figura de Tiradentes se tornou o símbolo da Inconfidência Mineira, alguém que ousou enfrentar a coroa portuguesa e clamar por liberdade. A versão de Gomes, baseada em poucos documentos oficiais e muito uma livre inspiração da figura, é menos romântica e mais focada no sujeito comum com todas imperfeições e defeitos de um descendentes de portugueses à época.

A busca do ouro e pedras preciosas, o convívio com a escravidão, o país precário, é desse Brasil que estamos falando. O título Joaquim não é a toa, porque a trama vai até o momento em que o alferes se rebela e dá sinais da pessoa que se tornaria Tiradentes. Há aquele gosto de agora-que-a-história-ia-pegar-fogo. O filme peca em se estabelecer entre a necessidade de contexto histórico e a opção por parecer altamente artístico e limpo, enquanto passa longas cenas no meio do mato, intensificando esse Brasil de lama e miséria, tenta explicar quilombos e colocar índios e negros num mesmo patamar. Todas essas opções diluem o que há de melhor, essa visão de um país colonizado, explorado, formado por interesseiros ou escurraçados a colônia.

Estamos em 2015, mas o cinema brasileiro ainda não se encontrou como indústria. Ainda temos, somente, 2 grandes grupos de filmes: as comédias Globo Filmes, e os documentários ou filmes de ficção, pequenos, que buscam um grande apuro artístico, e pouco contato com o público. Onde estão os filmes que carregam a indústria de cinema da maioria dos países? Incrível como há um grando hiato de filmes mais “normais”? As comédias bobas carregam bilheterias pelo mundo todo, assim como os filmes pequenos tem seu público. Porém, o Brasil ainda não encontrou uma produção robusta de filmes de gênero, ou com cara de Oscar, ou típicos de um Ricardo Darin local, não importa, o rótulo, não temos.

Ainda estamos procurando um Oscar de Filme Estrangeiro, mas a fraca quantidade de títulos nacionais nos principais festivais do mundo é sinal de que ainda vivemos de pequenos e raros talentos. Falta investimento, e algo mais. Falta uma indústria, uma premiação, aquilo que cria a curiosidade do público médio em não só escolher o filme enquanto está na fila da bilheteria. Por isso que ganha minha admiração os cineasta que conseguem fincar uma carreira, capazes de criar uma filmografia. Posso até não gostar dos filmes, mas eles merecem respeito numa indústria que vive de primeiros e segundos filmes, e para por ai.

Olhando meus preferidos, tento enxergar uma cara, um rumo, do nosso cinema. Não vejo. O topo da lista, entre os filmes que estrearam no circuito comercial em 2014, é mais um destes documentários pequenos, pessoais, onde o filme se mistura com o próprio diretor. Sim, porque a jovem diretora não fez um filme sobre seu pai (militante da esquerda e intelectual), e sim, um filme para se aproximar dele, entendê-lo. Realiza uma interação interessante, e intrigante, entre ela x pai x filme x edição e suas possibilidades. Difícil definir quem é o dono do filme, sabemos apenas que a última palavra foi dela (via edição), mas esse embate entre ideias e aflições próprias contamina o documentário, de forma positiva, trazendo à tona sinplicidade e vigor.

Filmes com temáticas jovens. Com propostas visuais diferentes, se apropriando bem dessa proposta para explorar o personagem. Ou um competente thriller, são esses os filmes que formam essa lista. Essencialmente filmes pequenos, que fogem do cinema favela que estamos acostumados a exportar. A indústria segue rastejando, tentando encontrar seu rumo. É verdade que em Recife temos um pólo de cinema se formando, criativo, inventivo, mas ainda é muito pouco. O advento da câmera digital aumentou a produção, não que isso tenha resultado em qualidade. O cinema nacional precisa dar o próximo passo.

 diascomele

  1. Os Dias com Ele, de Ana Clara Escobar
  2. Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro
  3. O Homem das Multidões, de Marcelo Gomes e Cao Guimarães
  4. Meninos de Kichute, de Luca Amberg
  5. O Lobo Atrás da Porta, de Fernando Coimbra

ohomemdasmultidoesO Homem das Multidões (2013) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Estamos nos acostumando a ver o mundo pelas imagens do Instagram, vivemos a era da liberdade e  nossos olhos obrigados a enxergar o mundo num retângulo (em pé). É por esse formato de janela 3×4 que os diretores Marcelo Gomes e Cao Guimarães narram a melancólica história, livremente adaptada do conto The man of the crowd, de Edgar Allan Poe, de um quieto e solitário maquinista do metrô (Paulo André) envolto à imensidão e isolamento de uma metrópole.

Em casa a geladeira apenas com garrafas de água, um único copo nos armários, e esse formato de tela que desvenda, lentamente, o apartamento triste e silencioso. Janelas grandes, sem cortinas, cadeiras velhas, nenhuma sensação de lar.  É um filme de silêncios e observações, Juvenal economiza nas palavras, parece vacinado contra relações sociais ou emoções, apenas sobrevive. A chefe (Silvia Lourenço) se aproxima, dá a sensação de interesse amoroso, mas pede para que ele seja padrinho de seu casamento. É um outro tipo de solidão, da mulher que busca um parceiro via internet, e algum consolo no silêncio do olhar pesado e sem esperança de Juvenal. Do encontros das solidões individuais (e da grandeza solitária de ser engolido pelas multidões), a dupla de diretores entrega esse trabalho meio experimental, meio deprimido, com um gosto de esperança lá no fundo da boca.

eraumavezeuveronicaEra uma Vez Eu, Verônica (2012)

Verônica come, chora, transa, trabalha, bebe com as amigas, fala com seu gravador. Médica recém-formada, busca tratamento à sua própria alma. Não brilha, não vive a felicidade, não ama. Marcelo Gomes não consegue ir além de um O Céu de Suely 2, sem inspiração. O que havia de vibrante naquele filme, aqui soa como melancolia explícita. O vazio da alma representa o, praticamente, vazio do filme, como o apartamento que sofre com vazamento e não há quem conserte. Abre e fecha com uma sequencia de orgia na praia, uma espécie de libertação para quem vive tão presa entre a falta de respostas e a ausencia de alegria no viver.