Posts com Tag ‘Marco Bellocchio’

Il Traditore (2019 – ITA)

Curioso que dois cineastas veteranos tenham resgatado o subgênero de filmes de máfia este ano, e ambos adicionando novos elementos à conhecida narrativa. Scorsese trouxe a visão da terceira idade, as aguras de olhar ao passado. Marco Bellocchio conta a história de Tommaso Buscetta (Pierfrancesco Favino), o mafioso traidor que fugiu para o Rio de Janeiro, e se tornou um lendário delator da Cosa Nostra.

A primeira vista pode ser visto como um filme protocolar. A questão da família, da religião, os conchavos, e o jeito mafioso de falar se encontra com as festas e a vista da praia carioca (coprodução brasileira com Maria Fernanda Cândido nuam personagem muito importante), todos esses pontos estão ali, enraizados na narrativa clássica de Bellocchio.

Não espere um thriller eletrizante, o cineasta italiano parece estar mais interessado no circo midiático do tribunal, é ali que Buscetta confronta seus parceiros de crime e o filme expõe, um pouco, da genuína alma italiana. Deboche, o jeito falastrão, xingamentos, cada um apresenta como um showman de estilo próprio, um palco onde tentam se defender a qualquer preço, onde falam de crimes hediondos abertamente, com humor à italiana que seria inaceitável em outras plateias. Bellocchio fica preso ao formato da cinebiografia, mas é no meio do circo que seu filme se diferencia.

belossonhosFai Bei Sogni / Sweet Dreams (2016 – ITA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Um novo estudo de Marco Bellochio da relação mãe-filho. O quanto a ausência da figura materna pode atormentar todas as relações pessoais da vida de um filho, por mais de 30 anos. Vagando num zigue-zague entre a fase criança e adulta de Massimo, Bellocchio trata personagens e sentimentos de forma singela, aproveitando uma narrativa, levemente, irregular para desaguar num final belíssimo, de um acerto pessoal de contas, entre cicatrizes e o aprendizado de como lidar com os traumas e ressentimentos de seu passado.

É outro filme típico do cineasta, seja na nova visão dessa relação mãe-filho, seja no tom que tenta minimizar o grandioso, mas principalmente no estudo das aguras da alma italiana. O final surge realmente encantador, nas formas de libertação e em como Bellocchio redefine a forma de Massimo se relacionar com o mundo. Parece o único desfecho possível, ao mesmo tempo melancólico e esperançoso.

Bella Addormentata (2012 – ITA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Marco Bellocchio resgata a polêmica da eutanásia que mobilizou a Itália com o caso da mulher que viveu 17 anos, em estado vegetativo, e o pai solicitou ao governo a autorização para eutanásia. Ele foge do que se poderia esperar de uma biografia/cronologia do caso. Traçando um perfil das pessoas envolvidas em casos semelhantes, mantendo a eutanasia como assunfo enfoque, em cada um dos núcleos, porém dando vida a cada um dos personagens/familiares dos que vivem sob aparelhos.

Com isso surgem romances, crises pai-filha, uma mãe que abdica de sua carreira para estar próxima da filha. Enquanto isso o país católico ferver, os políticos discutem o caso, manifestações nas ruas, uma confusão à italiana.

Fugir do óbvio é interessante, Bellocchio segue por esse caminho, por mais que a irregularidade de núcleos e personagens não permita um desenvolvimento mais interessante à trama. O painel de personagens não se transforma num retrato delicado, nem em sufocante, nem mesmo a questão política, Bellocchio mantém a panela tampada, um filme abafado.

O cineasta Harmony Korine tem seu prestígio, mas pelo que deu para apurar de ‘Spring Breakers’ (semana do saco cheio?), esse prestígio continua inexplicável. Biquinis, bundas, mulheres nuas, quatro garotas adolescentes (Selena Gomez e Vanessa Hudgens encabeçam o elenco) realizando um assalto só para curtir. Festas, drogas e traficantes (James Franco), a busca da polêmica pelo chocar.

Críticas: The TelegraphThe PlaylistStandard

Termômetro: passar longe

Mas o dia foi mesmo do veterano italiano. Partindo de três casos reais, o diretor italiano Marco Bellocchio apresenta em ‘Bella Addormentata’ o polêmico tema da eutanásia, ainda mais na Itália católica-fervorosa. Da fé e amor, até meandros políticos dos direitos de encerrar a vida de quem “já não vive”. Outro filme entrando para a turma dos favoritos aos prêmios após tamanhos elogios.

Críticas: CineuropaHollywood ReporterEl País

Termômetro: quero ver

Sorelle Mai (2010 – ITA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Durante quase 10 anos o cineasta Marco Bellocchio promoveu uma oficina de cinema em sua cidade natal, talvez suas intenções estivessem contaminadas com outros motivos, já que atores e seus familiares se misturam nas filmagens. Desse projeto, Bellocchio aproveitou-se de cenas de seis diferentes anos e montou uma saga familiar (utilizando sua filha entre os 5 e 13 anos, seu primeiro filho, e suas irmãs solteironas) sobre dois irmãos que partem da cidade tentando a vida em cidades grandes, enquanto o irmão recorre a auxílio financeiro das tias, a irmã deixa a filha sob cuidado das senhoras.

Filme experimental em muitos sentidos, partindo das imagens muito escuras trazendo um aspecto de proximidade com aquela casa antiga, de gente antiga, até essa proposta de misturar realidade e ficção, atores e não-atores, e pequenos momentos que se misturam onde não se sabe o que é o que. Ainda assim, com uma linha narrativa coerente, de uma história que se constrói, e momentos entre humor e o peso na consciência (como na bela sequencia de arrependimento de uma professora que reprova um aluno por estar focada nos sms que troca com seu namorado, ao término do relacionamento). Bellocchio apresenta um filme inventivo em seu formato, e pulsante em sua forma, mesmo que com personagens pacatos que tanto lembram nossos parentes do interior que levam aquela vida serena e cheia de dogmas ancestrais.

vencerVincere (2009 – ITA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Todo o tempo Marco Bellocchio almeja o grandioso, reflexo da personalidade do próprio personagem (coadjuvante no filme, principal na trama e na história). Estamos viajando na história da Itália, a cerca do caso secreto do filho renegado por Benito Mussolini. Enquanto deixava de ser um fervoroso socialista para assumir sua liderança política, que o levaria a ser o novo Duce, Mussolini (Filippo Timi) viveu um intenso romance com Ida Falser (Giovanna Mezzogiorno). O casal concebeu um filho, e ela entregou completamente sua vida (inclusive financeiramente para financiar seus ideais) nas mãos do amado.

O tempo passa, a primeira guerra chega, e quando Mussolini retorna do front está casado. A partir daquela inesperada noticia, Ida inicia uma luta pelo reconhecimento de seu status (e principalmente de seu filho). Uma batalha ingrata, a força política do Duce abafa a voz solitária dessa mulher. Chega-se ao ponto de trancafiá-la num hospício para calar aquela voz perturbadora de uma mulher de fibra. Uma história tenebrosa da covardia de um líder e seus subterfúgios para proteger sua imagem. Tudo filmado de maneira quase fúnebre, ambientes frios, escuros, gélidos, o desespero marcado pelo olhar de Giovanna Mezzogiorno. Trata-se de um drama clássico, exaltado pelo som que soa grandioso ao fundo, como se estivéssemos num discurso Fascista inflamado, ou num daqueles cinejornais.

De Punhos Cerrados

Publicado: novembro 6, 2006 em Cinema, Mostra SP
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depunhoscerradosI Pugni in Tasca (1965 – ITA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Marco Bellocchio em sua estréia no cinema disparava uma metralhadora felina para todos os lados, religião, nacionalismo, família, não há quem não esteja sob sua mira. O pilar de seu roteiro é uma típica família italiana burguesa, ou melhor, a fragmentação dessa família formada de pessoas fragilizadas, problemáticas. Uma tragédia familiar de uma mãe incapaz de educar seus quatros filhos, fazendo disso um pequeno retrato de um país conservador, problemático. O irmão mais velho tentando administrar a casa, o outro irmão é destrutivo, feroz, implacável, nutre uma paixão por sua irmã. É um filme de impacto, administrado pela loucura de um personagem psicótico, egoísta, solitário. A cena final do ataque epilético ao som de La Traviata é um momento fantástico, impactante, hipnótico.

A China Está Próxima

Publicado: novembro 3, 2006 em Cinema
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achinaestaproximaLa Cina è Vicina (1967 – ITA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

O título pega emprestado pichações pelos muros da Itália, nos auges da Guerra Fria. A vida política e social se entrecruza, num emaranhado, muito bem bolado e desenvolvido, por Marco Bellochio. Ácido e perspicaz no humor, o cineasta brilha ao contar a história sobre falta de escrúpulos, abordagens sexuais e inquietudes de uma sociedade moralista, criticando os ruralistas e indiferentes, e os metropolitanos falsamente engajados.

O pilar desse desenvolvimento crítico é uma família burguesa. Um dos membros é um professor pleiteando candidatar-se a vereador por um partido socialista que acaba de se constituir. Sua irmã insaciável sexualmente teme envolver-se completamente por achar que todos desejam seu dinheiro, acaba engravidando do contador do irmão-candidato, que outrora vê sua noiva tornar-se amante do professor candidato. Ainda aparece o irmão mais novo é um dos fundadores de um grupo revolucionário anti-esquerda. Um estudo efervescente dos não 60 italianos.

bomdianoiteBuongiorno, Notte (2003 – ITA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O que não me sai da cabeça é o olhar distante e misterioso de Chiara (Maya Sansa). O recurso é usado inúmeras vezes durante o filme, ora soa como indeciso, em outras oportunidades inseguro, normalmente deprimido. Acima de tudo um olhar penetrante, vitrine de seus próprios sentimentos. A história baseia-se no livro escrito pela única mulher que participou desse tenebroso acontecimento histórico, tenebroso pelo crime hediondo, mas também pelas incertezas que até hoje ele sugere.

A história sob o braço feminino do seqüestro traz um olhar de humanidade ao filme, a personagem, que trabalha como bibliotecária numa repartição pública, passa por um momento conflitante. Sonha com diferentes caminhos para aquele seqüestro, discute com um amigo politizado que é contrário à violência. Em alguns momentos, parece ali só para estar próxima do namorado monossilábico, em outros, parece acreditar nos ideais do grupo, mas em instante algum aceita o desfecho trágico, lhe falta coragem.

Em meio a efervescente situação política italiana, um clã do grupo revolucionário de extrema esquerda, Brigada Vermelha, arquitetou o seqüestro do presidente do Partido Democrata Cristão, Aldo Moro (Roberto Herlitzka). A idéia seria trocá-lo por presos políticos, o ano 1978. Foram 55 dias de sequestro, o país mobilizado acompanhava as notícias do caso, o Papa Paulo VI interveio a seu modo, o primeiro-ministro Andreotti não cedeu, e Aldo Moro terminou assassinado.

Marco Bellocchio arremessa o público de pára-quedas no momento político, mesmo com o riquíssimo material televisivo, quem não viveu à época pouco sabe da importância de Moro, e das movimentações políticas que ele liderava. Bellocchio aponta a culpa do final trágico ao governo, transforma os sequestradores em intelectulóides, com um discurso panfletário em favor do proletariado, um bando de inconseqüentes. É mais fácil tratar o tema assim do que mergulhar nos meandros políticos, em todo o mistério que assombra o caso, onde muitos acusam o envolvimento de governantes interessados no sumiço de Moro.

Essa visão parcial do cineasta sugere foco essencialmente ao próprio público italiano, pouco da efervescência extrapola a tela para chegar ao espectador. Mesmo assim, a magia é forte em toda a seqüência do elevador. As pessoas correndo pela escada, cada abertura da porta do elevador assusta aos que o esperavam, e estes fogem instantaneamente. Enquanto isso, você ali sem saber realmente o que há lá dentro. E a trilha com Pink Floyd…

aintrusaLa Balia (1999 – ITA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

A Itália no início do século XX andava inquieta, os socialistas tomam as ruas em passeatas com suas grandes bandeiras vermelhas. O médico e professor aristocrata Mori (Fabrizio Bentivoglio) trabalha numa clínica de doentes psiquiátricos e leva uma vida artificialmente feliz com sua esposa, até que ela fica grávida. Ela não demonstra nenhuma satisfação em tornar-se mãe, e desde o parto não se força nenhum pouco por seu filho, o bebê acaba rejeitando o leite materno talvez sentindo essa rejeição. Sem outra opção, Mori procura uma ama-de-leite, entre as esposas dos presos políticos que estão sendo deportados. Annetta (Maya Sansa) é escolhida e acaba obrigada a deixar seu filho, recém-nascido, para morar nesta casa.

Um forte sentimento de ciúmes toma conta de Vittoria Mori (Valeria Bruni Tedeschi) ao ver seu filho sendo tratado, com muito afeto, por Anetta, e aceitando seu peito imediatamente. Essa situação criada por Vittoria toma dimensões incontroláveis, cada vez mais sente-se trocada, já que as atenções da casa são direcionadas para o bebê e sua ama-de-leite. O marido assiste pacato e acredita que com um pouco de tempo tudo se resolve, mas essa mulher mimada não consegue viver ofuscada e a crise conjugal é inevitável.

De um lado temos uma crítica a sociedade tal como foi formada nos primórdios do século, a dama paparicada por seus empregados é colocada para escanteio com a simples chegada de uma mulher simples e analfabeta. Levemente também tocamos no assunto da liberdade, na presença do médico insatisfeito e apaixonado pela paciente, ou mesmo em Anetta e seu amor pelo marido preso, desejando escrever-lhe uma carta de amor.

Marco Bellocchio dirige de maneira sutil, como uma narrativa lenta e correta, e algum exagerado prolongamento em cenas desnecessárias. Pela falta de objetividade do roteiro, nada nos faz vibrar, penetrar na história, talvez o erro esteja na eterna tranqüilidade de Fabrizio Bemtivoglio, onde seu personagem aceita tudo de maneira tão simples. Faltam momentos contundentes, uma escolha mais direta no que exatamente priorizar, não faltavam argumentos para se utilizar no filme. São crises conjugais, ciúmes e a sensação de ser dispensável para seu próprio filho recém-nascido que deve ser a relação mais próxima que alguém pode viver neste mundo. Baseado no livro de Luigi Pirandello.