Belos Sonhos

belossonhosFai Bei Sogni / Sweet Dreams (2016 – ITA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Um novo estudo de Marco Bellochio da relação mãe-filho. O quanto a ausência da figura materna pode atormentar todas as relações pessoais da vida de um filho, por mais de 30 anos. Vagando num zigue-zague entre a fase criança e adulta de Massimo, Bellocchio trata personagens e sentimentos de forma singela, aproveitando uma narrativa, levemente, irregular para desaguar num final belíssimo, de um acerto pessoal de contas, entre cicatrizes e o aprendizado de como lidar com os traumas e ressentimentos de seu passado.

É outro filme típico do cineasta, seja na nova visão dessa relação mãe-filho, seja no tom que tenta minimizar o grandioso, mas principalmente no estudo das aguras da alma italiana. O final surge realmente encantador, nas formas de libertação e em como Bellocchio redefine a forma de Massimo se relacionar com o mundo. Parece o único desfecho possível, ao mesmo tempo melancólico e esperançoso.

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A Bela que Dorme

Bella Addormentata (2012 – ITA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Marco Bellocchio resgata a polêmica da eutanásia que mobilizou a Itália com o caso da mulher que viveu 17 anos, em estado vegetativo, e o pai solicitou ao governo a autorização para eutanásia. Ele foge do que se poderia esperar de uma biografia/cronologia do caso. Traçando um perfil das pessoas envolvidas em casos semelhantes, mantendo a eutanasia como assunfo enfoque, em cada um dos núcleos, porém dando vida a cada um dos personagens/familiares dos que vivem sob aparelhos.

Com isso surgem romances, crises pai-filha, uma mãe que abdica de sua carreira para estar próxima da filha. Enquanto isso o país católico ferver, os políticos discutem o caso, manifestações nas ruas, uma confusão à italiana.

Fugir do óbvio é interessante, Bellocchio segue por esse caminho, por mais que a irregularidade de núcleos e personagens não permita um desenvolvimento mais interessante à trama. O painel de personagens não se transforma num retrato delicado, nem em sufocante, nem mesmo a questão política, Bellocchio mantém a panela tampada, um filme abafado.

Repercussão: Veneza 2012 – dia #8

O cineasta Harmony Korine tem seu prestígio, mas pelo que deu para apurar de ‘Spring Breakers’ (semana do saco cheio?), esse prestígio continua inexplicável. Biquinis, bundas, mulheres nuas, quatro garotas adolescentes (Selena Gomez e Vanessa Hudgens encabeçam o elenco) realizando um assalto só para curtir. Festas, drogas e traficantes (James Franco), a busca da polêmica pelo chocar.

Críticas: The TelegraphThe PlaylistStandard

Termômetro: passar longe

Mas o dia foi mesmo do veterano italiano. Partindo de três casos reais, o diretor italiano Marco Bellocchio apresenta em ‘Bella Addormentata’ o polêmico tema da eutanásia, ainda mais na Itália católica-fervorosa. Da fé e amor, até meandros políticos dos direitos de encerrar a vida de quem “já não vive”. Outro filme entrando para a turma dos favoritos aos prêmios após tamanhos elogios.

Críticas: CineuropaHollywood ReporterEl País

Termômetro: quero ver

Irmãs Jamais – 35ª Mostra SP

Sorelle Mai (2010 – ITA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Durante quase 10 anos o cineasta Marco Bellocchio promoveu uma oficina de cinema em sua cidade natal, talvez suas intenções estivessem contaminadas com outros motivos, já que atores e seus familiares se misturam nas filmagens. Desse projeto, Bellocchio aproveitou-se de cenas de seis diferentes anos e montou uma saga familiar (utilizando sua filha entre os 5 e 13 anos, seu primeiro filho, e suas irmãs solteironas) sobre dois irmãos que partem da cidade tentando a vida em cidades grandes, enquanto o irmão recorre a auxílio financeiro das tias, a irmã deixa a filha sob cuidado das senhoras.

Filme experimental em muitos sentidos, partindo das imagens muito escuras trazendo um aspecto de proximidade com aquela casa antiga, de gente antiga, até essa proposta de misturar realidade e ficção, atores e não-atores, e pequenos momentos que se misturam onde não se sabe o que é o que. Ainda assim, com uma linha narrativa coerente, de uma história que se constrói, e momentos entre humor e o peso na consciência (como na bela sequencia de arrependimento de uma professora que reprova um aluno por estar focada nos sms que troca com seu namorado, ao término do relacionamento). Bellocchio apresenta um filme inventivo em seu formato, e pulsante em sua forma, mesmo que com personagens pacatos que tanto lembram nossos parentes do interior que levam aquela vida serena e cheia de dogmas ancestrais.

Vencer

vencerVincere (2009 – ITA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Todo o tempo Marco Bellocchio almeja o grandioso, reflexo da personalidade do próprio personagem (coadjuvante no filme, principal na trama e na história). Estamos viajando na história da Itália, a cerca do caso secreto do filho renegado por Benito Mussolini. Enquanto deixava de ser um fervoroso socialista para assumir sua liderança política, que o levaria a ser o novo Duce, Mussolini (Filippo Timi) viveu um intenso romance com Ida Falser (Giovanna Mezzogiorno). O casal concebeu um filho, e ela entregou completamente sua vida (inclusive financeiramente para financiar seus ideais) nas mãos do amado.

O tempo passa, a primeira guerra chega, e quando Mussolini retorna do front está casado. A partir daquela inesperada noticia, Ida inicia uma luta pelo reconhecimento de seu status (e principalmente de seu filho). Uma batalha ingrata, a força política do Duce abafa a voz solitária dessa mulher. Chega-se ao ponto de trancafiá-la num hospício para calar aquela voz perturbadora de uma mulher de fibra. Uma história tenebrosa da covardia de um líder e seus subterfúgios para proteger sua imagem. Tudo filmado de maneira quase fúnebre, ambientes frios, escuros, gélidos, o desespero marcado pelo olhar de Giovanna Mezzogiorno. Trata-se de um drama clássico, exaltado pelo som que soa grandioso ao fundo, como se estivéssemos num discurso Fascista inflamado, ou num daqueles cinejornais.

De Punhos Cerrados

depunhoscerradosI Pugni in Tasca (1965 – ITA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Marco Bellocchio em sua estréia no cinema disparava uma metralhadora felina para todos os lados, religião, nacionalismo, família, não há quem não esteja sob sua mira. O pilar de seu roteiro é uma típica família italiana burguesa, ou melhor, a fragmentação dessa família formada de pessoas fragilizadas, problemáticas. Uma tragédia familiar de uma mãe incapaz de educar seus quatros filhos, fazendo disso um pequeno retrato de um país conservador, problemático. O irmão mais velho tentando administrar a casa, o outro irmão é destrutivo, feroz, implacável, nutre uma paixão por sua irmã. É um filme de impacto, administrado pela loucura de um personagem psicótico, egoísta, solitário. A cena final do ataque epilético ao som de La Traviata é um momento fantástico, impactante, hipnótico.

A China Está Próxima

achinaestaproximaLa Cina è Vicina (1967 – ITA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

O título pega emprestado pichações pelos muros da Itália, nos auges da Guerra Fria. A vida política e social se entrecruza, num emaranhado, muito bem bolado e desenvolvido, por Marco Bellochio. Ácido e perspicaz no humor, o cineasta brilha ao contar a história sobre falta de escrúpulos, abordagens sexuais e inquietudes de uma sociedade moralista, criticando os ruralistas e indiferentes, e os metropolitanos falsamente engajados.

O pilar desse desenvolvimento crítico é uma família burguesa. Um dos membros é um professor pleiteando candidatar-se a vereador por um partido socialista que acaba de se constituir. Sua irmã insaciável sexualmente teme envolver-se completamente por achar que todos desejam seu dinheiro, acaba engravidando do contador do irmão-candidato, que outrora vê sua noiva tornar-se amante do professor candidato. Ainda aparece o irmão mais novo é um dos fundadores de um grupo revolucionário anti-esquerda. Um estudo efervescente dos não 60 italianos.