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Rasga Coração

Publicado: dezembro 10, 2018 em Cinema
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Rasga Coração (2018) 

Ainda me surpreendo, negativamente, com o desinteresse do público pelo cinema nacional, ou a própria desconexão dos filmes com esse público. O novo filme de um diretor como Jorge Furtado, não poderia chegar assim, de mansinho, na reta final do ano, seus filmes anteriores e trabalhos na tv o credencial a uma atenção bem maior. Dito isso, o diretor e roteirista gaúcho mantém sua capacidade de falar com os mais diferentes públicos, de trazer humor para debates relevantes, e uma narrativa marcada pela simplicidade.

Adaptando uma peça de teatro, a narrativa se divide em duas épocas. Nos dias de hoje, um casal de classe média em conflito com o filho que aderiu ao mundo vegano, que só anda de bicicleta para proteger o planeta e etc. Esse pai (Marco Ricca) é o jovem que enfreta seu pai moralista durante a ditadura Militar.

O filme trata desses conflitos de gerações, principalmente o poder do amadurecimento x o idealismo juvenil. Nesse contexto explora política, do macro até a política do nosso cotidiano, a relação pai x filha, marido x esposa na casa dos cinquenta anos.

Talvez a trama em flashback sofra com irregularidade, quase trampolim para a história dos dias atuais, mas é um filme interessante e que dialoga tanto com a situação atual. Os filmes todos de Furtado são assim, tentam se diferenciar muito entre si, mas são carregados de uma pegada jovem e de uma fluidez narrativa, por isso mereciam mais interesse. Inclusive, talvez seja este seu melhor filme, e todos sempre deixam o gostinho de que o próximo vai ser um dos bons. Que venha esse tão aguardado.

Sueño Florianopolis (2018 – ARG/BRA) 

A diretora argetina Ana Katz construiu aquí um exemplar de cinema sulamericano made in exportação. Está todo embalado para agradar plateias que procuram o exótico do cidadão comum da região. Em tom de comédia dramática, trata argentinos e brasileiros como povos do jeitinho, que buscam glamour e sempre acabam bem longe do planejado.

Exceção à comédia de costumes (pechinchar no hotel, casa alugada que não era o esperado e etc), há o mais interessante no filme que é a integração entre o casal protagonista e o de brasileiros (Andrea Beltrão e Marco Ricca). De um lado um casamento em stand by, de outro um antigo relacionamento de quem ainda convive no dia a dia. As relações e flertes, as mutações entre relacionamentos e a necessidade de dar liberdade aos filhos soa bem mais curiosa, ainda que se apegue nesse tom de humor de personagens caricatos. No final, é uma visão pessimista da familia tradicional, nos idos anos 90.

As Duas Irenes (2017) 

Estreia na direção de Fabio Meira, depois de uma carreira iniciada em curtas-metragens, e com sua primeira exibição numa das mostras paralelas do Festival de Berlim. O filme é mais um capítulo que o cinema oferece sobre o coming of age, com uma pitada a mais do desabrochar da puberdade.

Uma cidadezinha no interior de Goiás, no foco central temos Irene (Priscila Bittencourt), treze anos e filha do meio. A jovem descobre que o pai (Marco Ricca) tem outra família, e outra filha, com a mesma idade e nome (Isabela Torres) que ela. Interessante essa criação do duplo na cabeça de uma adolescente, que já tem tantos tabus (corpo, sexualidade, liberdade, confronto com os pais) para enfrentar. Como lidar com o segredo, quem é essa irmã, quais as diferenças entre elas?

A ideia do roteiro não se desenvolve muito além disso, facilita mais no encontro de uma forma de convício do que estabelecer questionamentos mais complexos. Mas Fabio Meira sabe oferecer espaço a suas personagens se desenvolverem ao longo do filme, através de um voyeurismo distanciado, do uso de olhares por espelhos ou janelas, há sempre a observação e o olhar de reflexão. A amizade e cumplicidade das Irenes se torna vital a suas personalidades e funcionam para testemunharmos o coming of age. Por outro lado, há o confronto, de todos os lados (entre Irenes, com os pais), e toda a questão intrínseca pesando sob personalidades ainda frágeis, e o filme sabe resolver bem essa trama em seu final naturalmente questionador.

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Chatô – O Rei do Brasil (2015) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Na última semana a mídia bombardeou o público destacando os 20 anos para a realização do filme, piadas e memes deram lugar a curiosidade do tão falado, e muito esperado primeiro filme de Guilherme Fontes, adaptado da biografia escrita por Fernando Morais, e que nesses anos todos (e polêmicas financeiras) chegaram até a aproximar o filme de Francis Ford Coppola.

Atualmente recolocou Fontes em local de destaque, entrevistas em rádio e tv, muito espaço na internet, jornais e revistas. O imbróglio financeiro sempre elencado de forma branda, quase envergonhada por parte da imprensa. Meu ponto é outro, não seria momento de discutir os erros que permitiram ao realizador captar tanto dinheiro, sem responsabilidades sob ele, e quais mecanismos devem ser criados para banir esse tipo de acontecimento? Afinal, o cinema nacional não vive sem financiamento público, portanto esse dinheiro precisaa ser fiscalizado, e esses filmes não podem sair do controle e demorarem anos para seu lançamento. Há os que nem são lançados, portanto a questão é séria e vai ficando de lado.

Falando do filme, tal qual se podia esperar, com tantas dificuldades na produção, filmagens em épocas distintas e a clara megalomania estrondosa que acometeu Fontes, o filme é um grande e desengonçado Frankestein. Há ideias interessantes, principalmente no formato fugindo da clássica e cronológica biografia, preferindo abordar os acontecimentos importantes na vida de Assis Chateaubriand (Marco Ricca) agrupados por tema. Dessa forma, aborda a força da imprensa (principalmente nos eventos da Revolução de 1930, e a eleição de Getúlio (Paulo Betti)).

Por outro lado, é tudo tão exagerado, histérico. Tem no deboche o combustível para constituir a vida desse paraibano, o Cidadão Kane brasileiro (dono de jornais, a tv Tupi, senador, fundador do MASP, entre outros feitos. Esse jogo de excessos transforma o resultado final num fantoche manipulado por esse ego inflado e ilimintável que claramente o diretor Guilherme Fontes se tornou. Capricha no requinte da direção de arte, mas não dá ritmo às histórias paralelas, transformando a cinebiografia num grande programa de auditório comandado por um sub-Chacrinha, onde o burlesco é personagem central, e a figura histórica desse Brasil mero joguete caricato.