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360 (2011 – ING/AUT/FRA/BRA)

O pecado é a obviedade, e ela está tão concentrada no roteiro de Peter Morgan (inspirado livremente numa peça teatral de Arthur Schnitzler) que realmente parece um filme de Morgan, com uns toquezinhos modernos do Fernando Meirelles e sua trupe. Enquanto o roteirista se mostra obcecado pela ideia de que “quando encontrar uma bifurcação, escolha um dos lados do caminho”, e contecta pessoas do mundo todo, sempre com o sexo como mote. Meirelles brinca de split-screen, de espertos movimentos de câmera, e cortes dinâmicos nos diálogos.

A fluidez de Meirelles até consegue tornar o tom palatável, já a história envolvendo prostituta eslovaca, traições, estuprador sofrendo tentação e uma série de outros percalços não vai além de uma eterna redundância que precisa ser justificada com diálogos e cenas que expliquem o que já está tão óbvio.

No fundo, nos tornarmos testemunhas de histórias que pouco nos interessam, clichês da vida moderna conectados para mostrar que estamos tão ligadas que o destino de um, depende do outro. É uma premissa frágil se não temos atração por aqueles personagens e seus dramas de cores tão pastéis. Vidas sem brilho, filme sem emoção, por mais que haja certo clímax na relação tensa criada no aeroporto (envolvendo Maria Flor e Ben Foster). Mas é pouco, e no final, ainda teremos mais doses desse mantro moral sobre tomar um caminho (e mudar o destino dos demais).

(2012)

Se fosse eu professor de história, não teria dúvidas, levava o dvd do filme de Cao Hamburger aos meus alunos e teria uma aula completa, didática. Essa é a palavra que melhor resume o filme que traz a biografia dos irmão Villas Boas, didatismo narrativo. Excetuando esse excesso de explicação e um estranho desperdício de personagens (o que a Maria Flor foi fazer naquele filme? Cortaram suas falas na edição e ninguém reparou?), temos sim um filme interessante, já que, afinal, a história dos irmãos desbravando a terra Xingu é brasileiríssima, cativante e envolvente.

São mais de quarenta anos de história, entre a chegada dos primeiros brancos nas regiões isoladas indígenas, até a criação do Parque Nacional Xingu. Caio Blat, João Miguel e Felipe Camargo interpretam os irmãos que partem nessa expedição colonizadora no espírito de aventura, e terminam apaixonados pelos índios e lutando pelos direitos deles, mesmo que “enganados” pelo sistema. Não é um filme de resgate da cultura indígena, é uma aula de história desse capítulo de tomada de terras pelos “brancos”, de abuso dos índios pela força, é a questão da humanidade e justiça versus a seleção natural pelo mais forte. Xingu levanta a bandeira da proteção aos índios, de colocar (de maneira justa) a invasão capitalista das terras que aqueles povos indígenas habitaram por tanto tempo, mas, sobretudo, é um filme sobre esses irmãos saidos de São Paulo mergulhando nesse mundo que nos parece absurdamente primitivo (por mais que aqueles eram os “primitivos” anos 40).

quasedoisirmaosQuase Dois Irmãos (2005) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Acusar o filme de preconceituoso, não é uma afirmação descabida. A exposição do negro como marginal, enquanto o branco no papel de almofadinha intelectual, salta aos olhos de maneira veemente. Mas vamos resgatar a história, primeiramente. Dois amigos de infância se reencontram num presídio na Ilha Grande, o Brasil vive a ditadura militar. Miguel (Caco Ciocler) é preso político, enquanto Jorginho (Flávio Bauraqui) cumpre pena por assalto a banco. A narrativa divide-se entre cruzar esse momento, a um segundo, em que os dois amigos reencontram-se novamente. Dessa vez, Miguel (Werner Shünemann) é deputado, visitando o líder do tráfico de uma favela, Jorginho (Antônio Pompeo).

Cada qual a seu caminho, ambos estão muito bem financeiramente. Miguel foi visitar Jorginho em sua cela, com mordomias e telefone celular, para lhe propor apoio em um projeto social, que o deputado planeja instaurar na favela, exatamente onde o amigo exerce influência. Mais adiante teremos dados mais explícitos sobre as reais intenções de Miguel, talvez esse ponto passe despercebido como mais um momento realista e corriqueiro da história. Pode até ser, mas pode levantar outras interpretações, essa escolha parece chave para desmistificar segregacionismos. Um filme sobre escolhas? De maneira superficial, num pensamento pequeno-burguês, até que essa pergunta mereceria um sim como resposta. Afinal, os dois tiveram chances parecidas, e tomaram caminhos opostos em razão de suas escolhas. Essas chances parecidas talvez sejam a incógnita que altera toda a equação resultante da vida de cada um desses quase dois irmãos.

Lúcia Murat foi buscar a formação histórica das duas vertentes que comandam o país atualmente. De um lado os presos políticos, que há alguns anos despontam governando o país, e ocupando seus principais cargos (não importa a esfera). De outro, os chefes do tráfico que comandam os morros e fazem suas próprias leis. Vivem quase imunes a lei. A tênue linha que separou Miguel e Jorginho no presídio é a linha da escolha pessoal, o momento em que cada um optou por seu futuro. Mas qual razão levou cada um a fazer sua escolha, ou mais precisamente a escolha de Jorginho pelo crime organizado? A capacidade de liderança seria o segredo, naturalmente cada um optou pelo grupo onde poder se destacar, ter maior visibilidade. Onde suas habilidades poderiam resultar em liderança. No fundo, não passamos de animais querendo comandar o bando, perdemos os escrúpulos.

Quase Dois Irmãos trata de uma visão mais ampla do que a simples formação do Comando Vermelho, a qual faz referência. O final é claustrofóbico, Murat chega a nos meter medo de andar pelas ruas de uma metrópole. Ao som do samba que carrega o ritmo do filme a violência é exposta em pelo. Não posso terminar antes de elogiar Flávio Bauraqui e Antônio Pompeo, cada um em seu momento interpreta Jorginho, dois gigantes em sincronia.