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Abracadabra

Publicado: abril 30, 2018 em Cinema
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Abracadabra (2017 – ESP) 

Em seu terceiro longa-metragem, o diretor espanhol Pablo Berger já vem deixando sua marca de um cinema (basta lembrar do anterior, Blancanieves) que pode dialogar com o grande público enquanto foge do usual. Mágica, tragédia, um serial killer, e um pouco de fantasia são alguns dos elementos de seu novo, e irregular, trabalho.

O início é de uma típica comédia, com o homem (Antonio de la Torre) não sai do sofá enquanto assiste futebol e espera a esposa (Maribel Verdú) trazer uma cerveja. Abracadabra! Tudo muda num show de hipnose que dá errado e um espírito passa a possuir o corpo do grosseirão, que passa a ter comportamentos bem diferentes. O tom cômico exagerado ganha traços sanguinários e românticos, que beiram Álex de La Iglesia, mas estão sempre bem empregados dentro desse novo universo de Berger começa a propor com sua filmografia

El Laberinto del Fauno (2006 – MEX/EUA/ESP) 

Não há um único ponto de intersecção entre a fábula e o mundo real, mas uma infinidade deles, imersos naquela fotografia dark, esfumaçada e serena. Confundimos-nos entre os dois mundos, e as metáforas indicam a inexistência de grandes diferenças entre ambos. A fuga da realidade pela fábula, é apenas uma forma de enfeitar o feio, o incômodo. Trata-se de um filme sobre repressão, sobre angústias, sobre sonhos. Trata-se de um filme sobre o medo.

O medo contido na pequena Ofélia (Ivana Baquero), que resiste às mudanças, ao carrasco do novo padrasto (um capitão do exército Franquista). Sua fuga dá-se pelos livros de fábula que tanto gosta de ler, mas principalmente pela aventura que uma fada e um fauno (Doug Jones) estão prestes a lhe oferecer. É revelado a Ofélia, que na verdade ela seria um princesa, e que para retornar ao seu reino teria que cumprir três tarefas, a fim de demonstrar sua integridade. Enquanto isso, a guerra civil espanhola prossegue em pleno ano de 1944, um grupo de revolucionários esconde-se nas proximidades da casa campestre de Vidal (o padrasto), a luta é contínua. Na casa uma espiã os auxilia, Mercedes (Maribel Verdú).

Guillermo Del Toro faz mágica ao mesclar tão bem esses mundos distintos, um servindo de metáfora ao outro, como que explicando sutilmente o que nossos olhos não conseguiam entender claramente (talvez por já estarmos acostumados com as regras de conduta da sociedade). Sem dúvida a magia está na dosagem correta da fantasia (sem tornar-se pueril, com cenas extremamente violentas e sanguinárias, o corte da bochecha é terrível). O mundo de insetos, faunos, fadas e monstros, está tão perto da gente, nossos olhos é que teimam não enxergar.

Por isso tudo, trata-se de um filme sobre o medo. Seja ele das criaturas mais inimagináveis, seja do carrasco impiedoso, seja na luta armada sem estrutura ou conforto. Em todos eles há medo, e também coragem para tentar enfrentar. A primeira metade da história cuida meticulosamente em nos envolver nesse clima tenebroso e mágico, obscuro e intrigante. Na segunda surgem fragilidades, as tais tarefas são demasiadamente simples, (regras infringidas); a figura do padrasto tirano ultrapassa o ponto, na preocupação em fazê-lo odioso temos um personagem-clichê, desumano, egocêntrico, incapaz de qualquer sentimento positivo. Por outro lado, há o desenvolvimento maduro do tema político, um pano de fundo inquieto, Del Toro fez bom uso de tudo que estava ao seu dispor, e criou uma fábula referencial, linda de se olhar, encantadora e ainda assim assustadora.