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kinopoisk.ruTirez Sur Le Pianiste (1960 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Nas ruas de Paris, às escuras, um fugitivo corre de dois homens, cansado escorrega e cai na calçada. Um pedestre o auxilia, aparentemente livrou-se dos perseguidores. Somente François Truffaut poderia inserir um diálogo, como o que vem a seguir entre esses dois estranhos, um breve relato sobre a vida amorosa, um resumo matrimonial, o humor leve: “Paris é a cidade com maior número de virgens, proporcionalmente”.

Atirem no Pianista é o segundo filme de Truffaut, e já dava claros sinais de algumas características que seriam marcantes em seus filmes. O lado policial da história é paupérrimo, chulo mesmo, os sequestros mais se aproximam de conversas de bar. Lutas soam ridículas, fugas demasiadamente inocentes. Truffaut parece desdenhar disso tudo, usa o humor de forma suave, como se o lado policial fosse apenas formalidade para adaptação do livro de David Goodis.

A história de Charlie (Charles Aznavour), o pianista perseguido pelos ex-comparsas do irmão, que querem encontrar seu esconderijo, é mero pretexto para a história de Charlie, o tímido pianista clássico que viveu o sucesso e após um passado conturbado, tenta reencontrar-se com o amor, na figura da garçonete Lena (Marie Dubois). No bar, o retrato da marginalidade é tão diferente que quase parece uma festa social, prostitutas dançam com graça pelo salão, os homens muito bem vestidos bebericam ao som da banda comandada pelo piano.

O cantor Charles Aznavour assume o alterego de Truffaut, uma espécie de esboço para Antoine Doinel adulto. A timidez resulta em passagens graciosas, Charlie confidencia ao público seus pensamentos, mas na hora de agir, faz ao contrário. Sente o momento de avançar, o braço faz o trajeto para abraçar a moça que está quase entregue, mas no momento capital a mão titubeia, conta até dez nos dedos para acalmar-se. São essas pequenas coisas que fazem do filme algo fora dos padrões dos gêneros, durante um sequestro um dos bandidos jura pela morte da mãe sobre um assunto qualquer, a câmera corta e segundos depois a mãe cai morta, hilariante.

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meutiodamaericaMon Oncle D’Amérique (1980 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela
O cineasta Alain Resnais e o biólogo Henri Laborit se dispuseram a analisar o comportamento humano, e suas variáveis, tendo por base de comparação o comportamento primitivo dos animais. O roteiro é baseado nos estudos de Laborit, que é o narrador da história. Esteticamente, o filme assemelha-se bastante com um vídeo de aula de ciências, onde ouvimos os conceitos propostos, e as imagens confirmando cada raciocínio. Claro que Resnais transforma isso em cinema de gente grande, trabalhando em cima de três personagens que têm suas vidas intercaladas.

De início, uma bagunçada chuva de imagens e frases disparadas sem muito sentido aparente. Elas formam uma espécie de resumo do que será a vida de cada um dos personagens centrais. Depois, o desenvolvimento de cada um desde a infância, René Ragueneau (Gérard Depardieu) torna-se um administrador burocrático de uma tecelagem e se vê pressionado quando colocam outro funcionário na mesma função da dele. Janine Garnier (Nicole Garcia) foi ativista comunista quando jovem, abandonou a família para ser atriz. E por fim, o burguês Jean Le Gall (Roger Pierre), que administra uma rádio estatal e decidiu separar-se da esposa para ficar com Janine.

Laborit divide o cérebro humano em três partes, estuda três humanos, explora três fases animais do comportamento. Manipula as ações dos personagens para provar suas afirmações. Com homenagens a clássicos do cinema e um humor de tom lisonjeiro, Resnais imprime ritmo tenro. Amadurece seus personagens, brinca com inteligência num roteiro repleto de consistentes teias. Nicole Garcia marca presença forte em cena, domina com ternura e presença marcante. O entrecruzar de personagens, e as experiências comparativas, dão mais do que embasamento empírico, trazem mesmo um frescor renovado que ganha esmero na fotografia cativante de Sacha Vierny. Por fim, Laborit conclui que usando a mente para dominar os outros as coisas nunca vão mudar.