Posts com Tag ‘Marie-France Pisier’

antoine-et-coletteL’ Amour à Vingt Ans: Antoine et Colette (1962 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Assistir a saga completa de Antoine Doinel e perder esse pequeno episódio seria lamentável, como um quebra-cabeças incompleto. Você consegue distinguir perfeitamente a figura, mas as peças ausentes incomodam, não te deixam apreciar o todo. Primeiro porque perder algumas das peripécias de Doinel (Jean-Pierre Léaud) é uma perda irreparável, começando pelo despertador, atrelado à vitrola, que o desperta pelas manhãs.

Este curta de Françcois Truffaut é dos cinco segmentos desse filme-coletivo sobre o amor, filmado em diversos países com outros renomados diretores no comando. Nosso desajeitado, Don Juan, é o rei das paixões definitivas, dos amores avassaladores. Avista uma linda jovem e a deseja compulsivamente, passa a segui-la, faz de tudo para se encontrarem pelo bairro, até que surge a oportunidade de iniciarem uma conversa. Entre eles surge amizade, pelo lado dela não passa disso. Doinel passa a freqüentar a casa de Colette (Marie-France Pisier), a família da garota se encanta pelo rapaz, praticamente o adota. Ele se muda ao apartamento em frente ao dela, declara-se, mas ela só o tem como amigo.

Como descrever a satisfação ao assistir Doinel na varanda de sua nova morada, e Colette e sua família surpreenderem-se com tal surpresa. Só mesmo Doinel seria capaz de uma deliciosa sandice como essa. Sua forma de abordar a moça, a maneira como descreve seu trabalho na indústria fonográfica, a hilária cena da tangerina. E principalmente quando se recorda, com o amigo que o acolheu em Os Incompreendidos, o momento em que o pai do garoto vê fumaça no quarto e finge não ver os pés de Antoine escondido atrás da cama. Já estou com saudades do inesquecível Doinel.

 

 

oamoremfugaL’Amour en Fuite (1978 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Uma fogosa loira não deixa Doinel terminar de se arrumar para sair, apaga as luzes do quarto e o seduz novamente. Enquanto são apresentados os créditos iniciais, ao fundo a imagem nublada traz apenas indícios do que ocorre, me pergunto: “E Christine?”. A resposta vem logo a seguir, o divórcio consensual de Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) e Christine (Claude Jade) põe fim definitivo àquela história de amor.

No momento a relação amorosa de Doinel é com a vendedora de discos Sabine (Dorothée). Ele hesita em morarem juntos, há uma crise instaurada na relação. Talvez O Amor em Fuga seja mais do que um título, quase um estado de espírito do próprio sentimento. O amor dá sinais de alta mobilidade, de inconstância, como se estivesse fugindo o tempo todo. Nessa busca incessante de Doinel pelo amor, eis reaparece Colette (Marie-France Pisier), uma antiga paixão da juventude (do curta Antoine e Collete). Esse encontro resgata o passado e sinaliza caminhos para o futuro.

Aquela sensação de que cada frase, cada passo, cada personagem, flutuam à frente das câmeras é um trunfo que François Truffaut resgata em cada capítulo dessa saga. Esse filme é uma espécie de homenagem aos anteriores (ou de caça-níquel para fazer dinheiro a Truffaut). Em constantes flashbacks, cenas dos filmes anteriores são resgatadas, complementando passagens mau-explicadas, tudo forçado pelo romance autobiográfico de Doinel que é lido por Colette. Truffaut precisava desmistificar alguns pontos e exaltar o amor como argumento chave de toda essa história, o filme compromete-se para agregar valor aos anteriores.

Com o passar dos anos, Doinel não perdeu o estilo apressado e desajeitado de ser, o humor cedeu espaço para um pouco de maturidade e a impulsividade continua como característica presente em seu dia-a-dia. Um amigo afirma que Doinel sempre procura o mesmo tipo de mulher, ele retruca reafirmando que se apaixona primeiro pela família. Os relacionamentos nos deixam mais experientes, aprendemos a lidar melhor com as crises, mas sempre estamos procurando, a mesma coisa, da mesma forma. Aquela câmera em movimento brusco, alternando-se entre dois casais que se beijam, ao precioso som de L’Amour en Fuite (cantado por Alain Souchon) é a finalização lisonjeira para um personagem que fez de sua vida uma inquietante viagem, e que nos deixou acompanhar cada instante de seu legado.