Rock’n Roll – Por trás da Fama

Rock’n Roll (2017 – FRA) 

A crise masculina dos 40 anos, Guillaume Canet optou pelo bom-humor, abriu as portas de sua vida, e entregou essa comédia de ficção, mas tão autobiográfica. Estão lá sua esposa Marion Cotillard, um garoto representando o filho deles, amigos, colegas de trabalho, e a vida deles entre filmagens, fazer a janta, e pegar o filho na escola. O cinema levado para dentro da vida real deles, difícil distinguir o quanto de piada interna, o quanto de invenção e o quanto de verdade há naquele retrato de relacionamento. Pouco importa, os personagens que eles criam, para eles mesmos, refletem tantas semelhanças com qualquer outro casal, e esse bom-humor em retratar a crise de um galã vendo seu trono ruir (ou sua posição na lista de desejados pelas mulheres despencar.

Na segunda metade, o filme perde do humor mais natural, a trama traça um caminho mais ficcional do personagem e Canet não sabe trabalhar tão bem, ainda assim há reflexões interessantes dentro daquele humor ingênuo, de um personagem ingênuo, dentro dessa dificuldade masculina em perceber que aquele tempo já passou e o momento é de descobrir as coisas boas de um novo ciclo. Rock’n Roll é sobre Canet, é sobre ser casado com Marion, e, principalmente, sobre lidar com as mudanças físicas e comportamentais que o tempo impõe sobre todos nós.

Inocência

L’Ecole / Innocence (2004 – FRA) 

Meninas surgindo de dentro de um caixão e sendo recebidas por suas novas colegas de escola. Tudo é metafórico no filme de Lucile Hadzihalilovic, a ideia da lagarta que desabrocha em uma borboleta é levada a outras comparações e possibilidades. Tudo sob a égide da rígida educação escolar, a diretora estabelece conflitos e graus de relacionamentos, sempre fora dos padrões comportamentais que estamos acostumados. É tudo cifrado e com simbolismos e significados que aliados a hipnótica utilização dos espaços verdes e da liberdade limitada, resultam num trabalho virtuoso e efervescente de Hadzihalilovic. Seu filme capta a inocência de maneira pura, nas aulas de balé da professora (Marion Cotilard), no amadurecimento que traz questionamento das mais velhas, na doçura sentimental que as barreiras e regras sufocam tais meninas, tão frágeis, porém astutas.

Macbeth: Ambição e Guerra

macbeth-ambicao-e-guerraMacbeth (2015 – Reino Unido) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A versão do australiano Justin Kurzel (que ficou conhecido por Os Crimes de Snowtown), para o célebre personagem de Shakespeare vagueia entre o sereno e o pedante. O tom de definitivo se estabelece mais forte com os inúmeros planos fechados, feições de dor ou sujas de sangue, suor e terra. A fotografia de um cinza inebriante enquanto o inglês rebuscado dá o tom desse retrato de destruição pela ambição. De solidário militar a traidor do rei via visão (ou manipulação) de bruxas que anteviram a ascenção e queda de Macbeth.

E o filme é isso, a trama transcorre sobre a sede e a loucura, a transformação causada pelo fascínio do poder. Sempre em planos milimetricamente planejados, de um quê artístico, mas também vigoroso, que se ancora nessa personificação de Michael Fassbender como um deus da interpretação em possibilidades tridimendionais que o teatro não confere. Principalmente nas cenas de luta, que conseguem o interessante efeito de brutalidade, mesmo em câmera lenta. Kurzel tentando gerar o definitivo, ainda que seu resultado final seja bem sufocante e interessante.

Era uma Vez em Nova York

aimigranteThe Immigrant (2013 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

A crítica está maravilhada. Na web, mundo à fora, os elogios são intermináveis. Depois de ter concorrido em Cannes 2013, o filme acabou guardado, ficou de fora da corrida do Oscar (Gray não é da turma que é indicada ao prêmio, mas está sempre presente em Cannes), e está sendo lançado agora, em muitos países. Em breve nos cinemas brasileiros.

A fuga é um tema recorrente no cinema de James Gray, normalmente a abordagem está focada no que/onde se tenta fugir. Os conflitos estão na origem, pouco importa o destino. Em seu quinto filme, Gray muda um pouco a ordem das coisas, Ewa (Marion Cotillard) foge das guerras do início do século passado na Europa. Busca nos EUA um local seguro, onde possa prosperar, como seus tios que lá estão. O filme todo ocorre no destino, no novo mundo, no local que carregava esperança até sua chegada.

Nada acontece como nos sonhos, Ewa acaba nas garras de um cafetão, Bruno (Joaquin Phoenix), a quem ela desenvolve uma estranha afeição, enquanto ele uma paixão inesperada. Pela elegância da condução de Gray mergulhamos pela Nova York underground, dos cabarés e da prostituição, com requinte, mesmo que para todos os bolsos. Gray não está denuncinado o tratamento pouco hispitaleiro dos americanos, não, longe disso. Seu filme é sobre o local da fuga, é sobre a esperança corrompida, a determinação de prosperar, de recuperar a irmã, do amor posto ao segundo, talvez, terceiro plano.

O mágico Emil (Jeremy Renner) é outro sinal de esperança, outra promessa envolta a interesses amorosos. Nasce um triângulo amoroso de amores que não se perpetuam. São imperfeitos, irregulares, tomados pela equação coração x razão. A querida imigrante polonesa passa apuros, abusos, Gray é sempre comedido em seus dramas, por mais pesados que possam ser. A passividade é bela, a maturidade soberana, e a beleza da discussão final é algo além do exemplar.

Cannes 2014: Destaques e Favoritos

festivaldecannes_2-650x400Em poucas horas começará a cerimônia de premiação da 67a edição do Festival de Cannes. Diferentemente dos últimos anos, este ano, este blog, não postou a repercussão diária das exibições, é muito trabalhoso e não deu tempo. Isso não quer dizer que o festival não tenha sido acompanhado, bem de pertinho. Agora que a imprensa já foi apresentada aos 18 filmes em competição e as mostras paralelas já conhecem seus premiados, podemos ter algumas expectivas, além dos favoritos que são apontados em diversas listas na internet.

Não parece ter sido uma edição de filmes que nos deixam ansiosos para conferir, mas há destaques bem interessantes entre monstros do cinema, ou novidades desconhecidas. Para quem gosta de quadro de cotações, vale uma olhada nesse link aqui, com críticos de muitos países, ou da revista francesa Le Film Français.

As frustrações começaram pelo filme de abertura, Grace de Monaco (Olivier Dahan) não agradou ninguém. The Search (Michel Hazanavicius) foi o mais vaiado com seu drama sobre a Chechenia, impressão de que o diretor de O Artista é realizador de um filme só. Captives (Atom Egoyan) foi outro que ninguém entendeu o que estava fazendo na competição (e eu não entendo porque ele sempre está lá), o filme é sobre sequestro infantil e pedofilia.

saint-laurent-cannes-2014No bloco dos que dividiram as opiniões estão: Saint Laurent (Bertrand Bonello) cinebiografia do estilista francês, com foco na relação com drogas e sexualidade. Jimmy Hall (Ken Loach) foi outro que passou quase batido, sobre um irlandês reabrindo um salão de dança, no meio de uma crise financeira-política, Loach e sua eterna visão socialista. A sensação é que erraram no argentino, Jauja (Lisando Alonso) acabou não premiado na Un Certain Regards, mas foi um dos filmes mais celebrados do festival, porém, na competição estava Relatos Salvajes (Damian Szifron), que até agradou, com suas 6 tramas cheia de atores argentinos conhecidos e humor negro.

Maps to the StarsAinda dividindo opiniões, mas já com alguns elogios que podem levar os filmes a serem lembrados na premiação ficaram: Foxcatcher (Bennet Miller), história real de um milionário e dois medalhistas olímpicos, e um assassinato. Os elogios as inesperadas grandes atuações de Channing Tatum e Steve Carrel foram entusiasmados (desde já um dos postulantes ao Oscar). Maps to the Star (David Cronenberg) ninguém aposta que a sátira sobre Hollywood será premiada, mas o filme agradou muita gente. The Homesman (Tommy Lee Jones) é outro western do diretor, dessa vez com foco em três mulheres cruzando o velho-oeste. O último dia de competição trouxe Clouds of Sils Maria (Olivier Assayas) e as reverências, inesperadas, a atuação de Kristen Stewart (crítico Guy Lodge acha que se ela ganhar a internet vai travar), e o filme também agradou, mas o último filme exibido é sempre carta fora do baralho.

Still-The-WaterAgora chegamos no pelotão da frente. Logo após a exibição, o japonês Still the Water (Naomi Kawase) parecia que ia passar em branco, mas vem crescendo no boca-a-boca, a história trata de dois irmãos numa pequena ilha no Japão. Há quem ame o cinema de Kawase, ela disse que este é seu melhor trabalho, mas muita gente questiona porque tanto ibope para seus filmes. Mommy (Xavier Dolan) é outro sempre questionado, aos 25 anos e com 5 filmes, Dolan é uma aposta dos festivais, muito prestigio (eu só vi o primeiro filme dele é gostaria de ficar bem longe). Se em seu primeiro trabalho ele queria matar sua mãe, este novo filme é uma espécie de vingança. A cinebiografia Mr. Turner (Mike Leigh) sobre o pintor e mulheres complexas a sua volta vem com força para uma possível premiação a Timothy Spall.

Nesse mesmo pelotão ainda estão: o italiano Le Meraviglie (Alice Rohrwacher), a segunda mulher em competição ganhou elogios crescentes com sua história de uma familia cuidando de uma fazenda de mel. A diretora, novamente, foca na adolescencia feminina. Timbutktu (Abderrahmane Sissako) foi exibido logo no começo, nunca foi considerado favorito, mas sempre elogiado por seu drama contudente sobre todas as mazelas religiosas que vive o norte da África, corre por fora em muitos prêmios.

Cannes2014DeuxjoursunenuitFavoritos, chegamos a eles. Pelo que tenho apurado são 4. Porém, um deles com chances nulas de tão reduzidas. Deux Jours, Une Nuit (Jean-Pierre e Luc Dardenne), os irmãos belgas já ganharam a Palma duas vezes. Nunca alguém ganhou uma terceira. A regularidade deles é impressionante, desde A Promessa que eles lançam um filme a cada 3 anos, e sempre estão entre os premiados. Não deve ser diferente, Marion Cotilard é a principal favorita (mas há muitas competidoras) ao premio de atriz. O filme é um fábula moral, um final de semana e uma mulher tentando mendigar seu emprego aos colegas de trabalho.

winter-sleep-cannes-2014-3Winter Sleep (Nuri Bilge Ceylan), o turco é um daqueles que está cada vez mais próximo da Palma, ontem ganhou melhor filme pela Fipresci (ano passado quebrou-se a maldição, mas normalmente quem ganha o Fipresci não leva a Palma). Desde que saiu o lineup eu já considerava ele, e o russo, como os favoritos, e os dois realmente encabeçam a lista. São 3 horas na Capadócia, ao estilo de Ceylan, poucos diálogos, tom poético, cavernas, pequenas tramas com um ator aposentado (Haluk Bilginer, outro com chances) no centro delas.

adieuAdieu au Langage (Jean-Luc Godard), seus filmes estão sempre em Cannes, em mostras paralelas, sua presença na competição significava alguma coisa. Desde os anos 80 que seu cinema chegou a um ponto de agradar a um seleto público (bota seleto nisso), cada vez mais resmungão e de narrativa fragmentada. Dessa vez ele vez com um 3D, e a crítica saiu estarrecida. A sensação que dá é que ele acertou no tom do que vem fazendo há anos, e se aproveitando da nova tecnologia. Seria uma decisão corajosa dar a Palma a Godard, ele nunca ganhou, é um ícone do cinema de autor e uma quebra com todo o cinema tradicional. Mesmo não gostando de seus filmes mais recentes (exceção ao belo Elogio ao Amor), gostaria de ver Godard ganhando para dar essa quebrada com o formalismo protocolar.

Leviathan 1Mas, se eu tivesse que colocar meu rico dinheirinho em alguma bolsa de aposta, ele iria para o russo Leviathan (Andrey Zvyagintsev). Muita gente torce o nariz, eu, particularmente, gosto de seus filmes. Começou com O Retorno (Leão de Ouro em Veneza), depois The Banishment passou batido, e o último, Elena foi premiado na Un Certain Regard (há quem reclame que devia ter passado na competição, naquele ano). Sua exibição de gala na quinta-feira é sinal de prestígio dentro da competição. E, se não é unanimidade, a proporção de admiradores é muito superior, não foram poucos os que pediram a Palma após sua primeira exibição. Poderia ganhar ator, roteiro, direção, mas a aposta é mesmo para ser a Palma de Ouro. Veremos. O filme é ambicioso, com um título desses não era para menos. O filme parece ser um contundente drama sobre a vida russa contemporanea, a corrupção política, a presença da igreja Ortodoxa, o poder, a polícia.

Fora da Competição, além de Jauja, destaques para Welcome to New York (Abel Ferrara) contando o escandaloso caso de Dominik-Strauss. Force Majeure (Ruben Ostlund) sobre o poder de avalanche. O polêmico, e eleito melhor filme na Un Certain Regard, White God (Kornél Mundruczó) e os ucranianos The Tribe (Myroslav Slaboshpytskiy) sem falas, personagens surdos-mudos, e o documentário Maidan (Sergei Loznitsa) sobre os recentes acontecimentos políticos na Ucrânia.

Links da Semana

etudoverdade2014• É Tudo Verdade, o maior festival de documentários do país, divilgou hoje os filmes que farão parte da próxima edição (que ocorrerá no início de Abril). Retrospectivas de Shohei Imamura e Helena Solberg, docs de Eduardo Coutinho, Leon Hirzman, Jorge Furtado, um sobre Dominguinhos ou destaques internacionais como The Armstrong Lie fazem parte da programação [It’s All True]

• Entre Março e Abril, no CCBB, interessante mostra com filmes, dos anos 60, da Nouvelle Vague Tcheca [CCBB]

• As próximas semanas estão com tudo. No Cinesesc, alguns dos destaques da Mostra Tiradentes de Cinema serão exibidos, a partir de 24/03 [Cinesesc]

• Encerrando as programações especiais, a 3ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental, de 20 a 27 de Março, entrada gratuita. Entre os destaques o documentário Blackfish: Fúria Animal [Ecofalante]

• Resquício das premiações, essa semana forma divulgados os indicados ao Cóndor de Oro (Oscar do cinema argentino), Wakolda foi o lider das indacações, seguido por Teses Sobre um Homicídio [OtrosCines]

• Um pouquinho sobre o filme novo dos Irmãos Dardenne, estrelado por Marion Cotilard, que deve fazer parte da competição principal em Cannes [The Playlist]

• Polêmica da Semana causou a Folha de SP, na reportagem acusa a equipe de divulgação do filme Alemão de entregar dinheiro, para cobrir gastos de viagem, a criticos de cinema. Será que os críticos se vendem por R$ 200,00 ou apenas é uma ajudinha de custo? [Folha de SP]

• Polêmica 2, não bastava Azul É a Cor Mais Quente, agora foi a vez de Ninfomaníaca ser recusado pela empresa empresa que reproduz Blu-Ray. Portanto, os dois filmes só serão encontrados em DVD. A censura voltou! [UolCinema]

• Filme novo dele está bombando na internet, leia entrevista com Wes Anderson [Slant Magazine]

Blood Ties

Blood_TiesBlood Ties (2013 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Em 2008, Guillaume Canet foi um dos protagonistas do thriller policial frances Les Liens du Sang. Agora, pela primeira vez dirigindo nos EUA, ele decidiu por um remake, dessa vez ficando atrás das câmeras. Seu filme resgasta o Brooklyn nova-yorquino dos anos 70, e Canet teve ajuda de James Gray no roteiro (um de seus filmes tem temas bem semelhantes).

Os carrões, as roupas estilosas, e uma familia em pé de guerra pelos irmãos em lados opostos da lei. Fank (Billy Crudup) é policial, e Chris (Clive Owen) saindo da penitenciárias após alguns anos de cana. Por mais que boa parte do início seja sobre adaptação, após a prisão, como emprego e manter-se longe do crime, o foco é mesmo a explosiva relação familiar. Pai (james Caan), irmã (Lili Taylor) e os dois irmãos, perdão,orgulho e união.

Chris tem sua vida antes da cadeia, filhos e a ex-esposa (Marion Cotilard) e a nova namorada, Natalie (Mila Kunis). Frank também tem seus problemas amorosos com Vanessa (Zoe Saldana) e outro delinquente com quem ela vive (Matthias Schonaerts). O jantar de Ação de Graças que vira uma guerra interna, o Natal com a polícia à procura de Chris, parece que não há paz naquela família, que o passado e presente formam uma dissociação imutável.

Muitos críticos reclamam que o filme é lento, demora a engrenar. Trata-se dessa carga dramática, do peso dos atos, do passado, e remorso. Esses sentimentos movem os personagens, essa lenga-lenga é a chave para a fase final e o final apoteótico. Canet filma de forma vibrante. Tiroteios, brigas, a reconstituição flamejante da década. E, perto do fim, quando os personagens mostram seus sentimentos derradeiros, é que essa carga dramática se mostra mais que justificável, e a sequencia final ainda mais representativa.