Posts com Tag ‘Marisa Paredes’

La Piel que Habito (2011 – ESP) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Da safra mais recente de filmes da carreira de Pedro Almodóvar, este é o que mais se aproxima de um mundo almodovariano anterior à sofisticação de Fale com Ela. Inclusive, desde Fale com Ela Almodóvar tenta reencontrar seu caminho. Até ali sua obra vinha marcada por fases distintas, por uma evolução natural rumo à sofisticação. Dali em diante, o cineasta busca, em suas próprias obsessões, o caminho a seguir. Qual o próximo estágio? Enquanto não encontra o caminho, patina em possibilidades (às vezes acerta, como no caso de Volver). Nesse novo filme voltam a vingança, o bizarro, e o tema sexual, adaptando o livro Tarantula de Thierry Jonquet, o cineasta praticamente traz à tona um Frankenstein moderno totalmente obcecado pela junção desses três tema (vingança, voyeurismo, sexualidade).

Ainda assim, mesmo sendo um filme com “cara” tipicamente almodovariana, troca-se a sofisticação pelo peso. A mão do cineasta não acerta nem em suas características primitivas. O tom tragicômico passa longe. Os diálogos carregados de um melodrama típico, aqui parecem passar do ponto (pesados), as cores berrantes dão lugar a tons cinzas modernos que nada dialogam com seu cinema, o protagonista (Antonio Banderas) peca pela canastrice quando poderia se colocar como um personagem tão fascinante dentro desse jogo de vingança-saudade-desejo. Fora os tiros, tiros, e mais tiros, e armas para todos os lados, há alguma coisa de errado quando um filme precisa apelar tanto para esta artimanha.

aflordomeusegredoLa Flor de Mi Secreto (1995 – ESP) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

A vida da escritora (Marisa Paredes) de livros populares, que mantém sua identidade não-revelada, usando um pseudônimo, passa por uma grave crise conjugal. O marido militar tem passado pouco tempo em casa, mas quando estão juntos o clima de guerra persiste. No lado profissional, o contrato com a editora, que lhe obriga a escrever apenas livros “açucarados”, coíbe sua liberdade criativa, a suga. Problemas com os editores, com as brigas entre sua mãe e sua irmã, e outras descobertas pouco agradáveis, tudo é motivo para que Leo Macías beba mais um copo, mas na verdade pouca importância ela dá a tudo isso, sua única preocupação é seu casamento, ou o esfacelamento notório e talvez irreversível do mesmo. O filme tenta dar enorme importância ao segredo da identidade da escritora, mais tarde revelando-se mais um daqueles alarmes falsos.

Pareceu-me um Almodóvar transitório, pontuando por lances de humor, com uma história que almeja ser mais densa, porém o resultado geral inócuo, diluído. Em seus próximos filmes ele acaba encontrando a fórmula certa, neste aqui valem as pequenas e divertidíssimas aparições de Chus Lampreave, falando rápido, reclamando de tudo, um típico estilo de mulher idosa que se encontra perdida por aí.

 

 

desaltoaltoTacones Lejanos (1991 – ESP) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Após quinze anos distantes, mãe (Marisa Paredes) e filha (Victoria Abril) reencontram-se em Madri. Rebecca escondeu do marido que é filha de sua ex-amante (uma filha que se casa com o ex-amante da mãe, isso não pode acabar bem), e agora há tensão para o reencontro de Becky e Manuel. Um mês após o encontro, ele é encontrado morto num chalé. O casamento estava em crise, mantinha uma amante, e voltara a viver seu caso com sua atual sogra. Suspeitas para o crime não faltam.

O comportamento da filha demonstra a necessidade secreta de competir com a mãe, de ser igual a ela, mais precisamente, de ser melhor que ela, de ter o que a mãe tem. Acrescente a isso os ingredientes de um filme de Pedro Almodóvar, e, portanto,  travestis, o vermelho berrante, viciados e traficantes, bizarrices, o mundo das artes (cinema, teatro e música). Enquanto prosseguem as investigações, a relação mãe e filha é intensa, os sentimentos afloram, verdades chegam à tona.

Diria que é um Almodóvar pouco inspirado, se a trama rocambolesca funcionava eficazmente em Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, aqui o artifício incomoda, só faz a trama patinar. A figura dupla do juiz Dominguez é dura de engolir, talvez pela interpretação no pior estilo canastrão, talvez pelo absurdo de sua existência. O que mais segura o filme é o estilo próprio de Almodóvar, e a figura fatal, doce e nebulosa de Victoria Abril. Seu cabelo Chanel, seu ar sexy sob o salto alto, e seu estilo decidido, criam uma personagem enigmática, frágil e saborosamente intrigante.

 

maushabitosEntre Tinieblas (1983 – ESP) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Um convento de freiras (Redentoras Humilhadas) abriga mulheres pecadoras e as auxilia a se livrar da vida de perdição. Só que, ultimamente, não há um grande fluxo de novas garotas. As freiras que ali vivem foram salvas no passado: viciadas em droga, assassinas, traficantes. Convertidas, vivem entre a vida de penitencia e os prazeres que as levaram a se refugiar no convento. Na rotina diária, entre e cuidar da horta, das galinhas e coelhos, rezar e cumprir penitencia, hábitos antigos como consumir heroína, cocaína, viver o amor, até costurar o luxo permanecem enraizados.

Pedro Almodóvar demonstra sua enorme indisposição com a igreja Católica, satiriza a figura “sagrada” das freiras e seu puritanismo. Muitos esperavam que seu filme mais recente (Má Educação) seria uma afronta gigantesca à Igreja. Não foi exatamente assim, por mais que o filme aborde abuso sexual de menores por padres. Muito antes, com Maus Hábitos (um de seus primeiros filmes), é que Almodóvar seria ainda mais contundente na crítica. Em tom de comédia, fator a amenizar bastante a afronta, afronta de forma corajosa. Uma proposta caricata, uma junção de valores heterogêneos. Fica difícil integrar o que os olhos vêem e o que está acontecendo, Almodóvar novamente flerta com o esquisito, enquanto as freiras abrigam uma cantora de cabaré que viu seu namorado morrer de overdose.