Posts com Tag ‘Mark Wahlberg’

We Own the Night (2007 – EUA)

James Gray tem algo diferente no trato da imagem, ou melhor, na forma como ele a explora, é algo vouyer dentro de um estilo próprio, talvez nos traga a sensação de estarmos manejando a câmera, ao invés de apenas observando. Essa sensação vem desde a primeira cena quando o gerente da boate El Caribe, Bobby Green (Joaquin Phoenix) encontra sua sexy namorada Amada (Eva Mendes) masturbando-se num sofá e ele assume carinhosamente a situação até ser obrigado a parar com a diversão (ossos do ofício). O roteiro, bem amarrado, não guarda surpresas, reviravoltas, há nele o peso familiar, o comportamento revoltado do “ovelha-negra”, mas há a ligação fraterna.

Bobby mantém distancia do irmão (Mark Wahlberg) e pai (Robert Duvall) policiais, enquanto vive da noite nova-iorquina e da proximidade com o trafico de drogas capitaneado por gangsteres russos até que seus familiares correm risco e ele é obrigado a optar por um dos dois lados. A seqüência avassaladora de perseguição de carros na chuva (em emoção e sentimentos) é apenas outro grande momento onde Gray demonstra todo o peso de sua mão condutora, mas sua força onipresente é mais forte nos pequenos momentos, na angustia de Bobby e Amada, na cena com a escuta no isqueiro, na solidão que o até então “dono da noite” divide num hotel às escondidas. De forma clássica, por mais que peque em alguns excessos como o sermão dos policiais na igreja (moral e religião elevadas), Gray resgata o gênero policial esquivando-se de tortuosas cenas de ação para privilegiar a justiça do homem, a lealdade de suas convicções, como nos velhos westerns.

The Fighter (2010 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Filmado nos moldes de um documentário para a HBO, o filme de David O. Russel encaixa-se muito bem no formato. Nem tão convencional, contando a vida de dois irmãos boxeadores, o mais velho e problemático, Dickie (Christian Bale numa atuação estupenda, de cair o queixo) é o responsável pelos treinamentos do mais novo, Mickey Ward (Mark Wahlberg).

Irmãos com personalidades completamente diferentes vivendo sob a influência de uma família completamente destrutiva (uma mãe dominadora e interesseira e meia dúzia de irmãs burras-chiclete). Russel quer atingir a espinha dorsal dessa família americana média, consegue sem grande objetividade.

A vida sofrida, a guerra familiar, as crises com a namorada, tudo parece pequeno quando envolve apenas Mickey e sua personalidade passiva, a explosão é toda dada com Bale que a cada aparição toma conta das cenas, devido a sua atuação eclipsada pela admiração que o irmão nutre por ele (resumindo Bale acerta e os demais personagens ajudam, prova disso são as reações ao documentário exibido na tv sobre Dickie).

boogienightsBoogie Nights (1997 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O submundo mais profundo do cinema é a indústria pornográfica, o patinho feio a se esconder. Em seu primeiro filme-mosaico (no melhor estilo Robert Altman), o diretor Paul Thomas Anderson faz um pequeno raio-X dessa indústria underground, e milionária, de Hollywood. Atores, diretores, produtores, técnicos, mansões, festas regadas a tudo que se possa imaginar, o foco se divide, a câmera tenta acompanhar a todos. São os anos 70, a era pré e pós VHS, a indústria se solidifica, cria seus astros, muitos tentam encontrar seu espaço. A trama dramática é cheia de ramificações e personagens, a narrativa explora suas facetas, enquanto Anderson investe em seus longos planos-sequencia que alternam o protagonismo dos personagens, além de oferecer dimensão eloquente da multidão que povoa os bastidores.

Se há um foco central é no tripé: estrela promissora (Mark Wahlberg), diretor (Burt Reynolds) e estrela consagrada (Julianne Moore). Deles surgem as ramificações, os caminhos que se cruzam para depois se afastarem, ou não. A maneira como Anderson amarra tantas variações é notável, vai do humor esculachado da paródia pornô de Bonnie & Clyde, ao drama da jovem atriz pornô (Heather Graham) que tenta cursar faculdade. Festas, drogas, prepotência do poder. E também, a solidão, o ostracismo, Anderson mergulha profundamente em tantos personagens, sempre no clima disco, no tom de comédia sacana, nas possibilidades que o gênero dos filmes escondidos nas locadoras pode oferecer. Nitidamente traz muito de si, ou do que aguçou sua curiosidade quando jovem, filma no bairro onde cresceu, por mais que exagere no terço final, seu filme é um retrato delicioso e cruel de como se faz dinheiro nessa indústria “proibida”.