Silêncio

Silence (2016 – EUA) 

Martin Scorsese volta a tratar questões religiosas em seus filmes, após Dalai Lama (Kundun) e Jesus (A Última Tentação de Cristo), a fé volta como tema central na história de perseguição dos japoneses aos padres jesuítas portugueses que foram pregar o catolicismos no século XVII. De um lado, o absurdo da violência como única forma de coibir o estrangeiro e sua cultura oposta às crenças locais. De outro, a arrogância cristã de entregar sua crença como a verdade única e irrefutável.

Os melhroes momentos do filme são do confronto de ideias entre governantes japoneses e jesuítas. Nessa nova adaptação do livro de Shusaku Endo, o cineasta americano vai além na trama do que na versão de 1971 de Masahiro Shinoda. Sem economizar na violência chocante, Scorsese deixa tudo límpido e esclarecido, quebrando um pouco do ar reflexivo que Shinoda oferece ao parar a história num ponto mais crucial, algo parecido com que fez em sua versão da saga de Jesus Cristo.

De todos os modos, ambos os filmes não só levantam a dualidade dos lados frente a questão da liberdade de crenças do povo, e a necessidade de violência cruel em frear o opositor, mas também o quanto a fé e suas crenças devem ser colocados acima de tudo, de forma a prejudicar não só a si mesmo, como a outros envolvidos. Negar sua fé, humilhar seus símbolos, sofrer dor física pela inquisição dos que não acreditam em seu Deus, Scorsese impõe a visão ocidental da perseguição e da humilhação que amputa a fé pelo silêncio

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Caminhos Perigosos

caminhosperigososMean Streets (1973 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

E assim surgia a faceta de Martin Scorsese que mais conheceríamos, o cineasta da máfia, das gangues de Nova York. Conhecia Little Italy como ninguém, foi lá que Scorsese cresceu, e foi sob suas lembranças que ele criou o filme que impulsionou seu nome à indústria do cinema. Repleto de malandos, deboches, violência, pequenos golpes. Religião, família, os pilares da sociedade são os grandes dilemas vividos pelo mafioso Charlie (Harvey Keitel). Namoro escondido, as visitas à Igreja, e o trabalho como coletor para o tio (chefão da máfia).

Foi a primeira parceria de Robert De Niro e Scorsese, ele faz o garoto problema que atrapalha ainda mais a vida de Charlie, mas a alma do filme é Keitel e a vida noturna de Little Italy. Os letreiros luminosos, cigarros, ternos, cédulas de dólares amassadas, e a urgência com que Scorsese explora a vida notuna. São morcegos elegantes, sanguessugas desequilibrados, que ainda carregam os pilares aprendidos dos antepassados italianos. O roteiro leva os personagens pelos tais “caminhos perigosos”, Scorsese dá sinais de um estilo vibrantes prestes a nascer, personagens tortuosos, brigas marginais, cortes bruscos entre planos-sequencias vivos e closes rápidos. E o humor escroto de quem está prestes a sacar sua arma e disparar no primeiro engraçadinho que cruzar à sua frente.

O Rei da Comédia

oreidacomediaThe King of Comedy (1982 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Histeria, multidão se debatendo, o desespero por um autógrafo. Fãs desesperados aguardando a passagem do comediante Jerry Langford (Jerry Lewis) pela saído do teatro. Martin Scorsese prepara sua s átira ao mundo do showbizz e do culto aos famosos. É um novo Taxi Driver, outro personagem com seu quê violento, mas dessa vez muito mais racional e meticuloso. E outra parceria entre Scorsese e Robert De Niro, na fase mais prolífica da dupla.

Rupert Pupkin (Robert De Niro) decidiu que tem talento para ser o rei da comédia, e com sua persistência irritante parte em busca de seu sonho. Scorsese e De Niro mantém Pupkin ultrapassando o limite do irritante, ingênuo e tímido, mas nada que o impeça de passar como um rolo compressor por seus obstáculos. O roteiro é meticuloso em construir relações e situações que correspondam perfeitamente ao grand-finale, o monólogo onde finalmente descobrimos o tipo de humor de Pupkin. Até lá, ele tem suas frustrações amorosas, a invasão de privacidade de seu ídolo, a amizade com a maluca Masha (Sandra Bernhard), e o fortalecimento de sua obsessão capaz de leva-lo ao sequestro de Jerry.

Os vinte minutos finais são sensacionais, quando filnalmente Scorsese coloca em prática tudo que havia preparado. Do longo plano-sequencia de Pupkin nos bastidores da tv à efetivação da brilhante sátira aos interesses corruptos do mundo do entretenimento. Mas antes, Scorsese já brincava com a montagem, com passado e presente, não escondendo os fins, uma forma de dar ainda mais relevância a essa reta final.

Life Itself – A Vida de Roger Ebert

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Life Itself (2014 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

É extremamente didático e carinhosa a forma como o diretor Steve James conta a vida do crítico Roger Ebert. Aliás, é curioso esse formato, porque lembra muito o estilo de suas críticas. Ebert escrevia textos longos, contava muito do filme, mas seus textos eram dotados de um charme cativante. James mantém a narrativa em dois tempos, recontando a trajetória de Ebert, pelo Sun Times, e os últimos dias de sua vida com toda as dificuldades do câncer impactante que deformou seu rosto.

Depoimentos de muitos cineastas (Martin Scorsese, Werner Herzog, Errol Morris e Aya DuVernay), e grande atração para o programa de TV que Ebert apresentava, junto de Gene Siskel. O programa o tornou o mais popular crítico de cinema, ficou no ar por mais de 2 décadas. O deocumentário faz jus a Ebert, mas é de um tradicionalismo formal que remete ao didatismo de programas de tv.

Links da Semana

cameo• As aparições de diretores de cinema, na tela, em seus próprios filmes são chamados de Caemos. Os mais famosos devem ser do Alfred Hitchcock, mas aqui nesse link temos uma coleção dos Cameos de Martin Scorsese [Imgur]

• Jonah Hill e Leonardo DiCaprio brincando com Titanic e Lobo de Wall Street no Saturday Night Live [Youtube]

• E parece que Jonah Hill e o Saturday Night Live estavam inspirados. Dessa vez, com Michael Cera, uma paródia do filme Ela (Her) [Youtube]

• Curiosidades: um link para saber qual o melhor filme de cada pais, no IMDB, considerando as notas que cada filme [Imgur]

• Jesse Eisenberg como Lex Luthor (bizarro, não?), Jeremy Irons como Alfred. O filme Batman vs Superman vem aí, e com mita polêmica [The Playlist]

• Entrevista com Alain Guiradie, diretor de Um Estranho no Lago [Slant Magazine]

Links da Semana

Nicole+Kidman+Nicole+Kidman+Films+Grace+Monaco• A próxima edição do Festival de Cannes terá como filme de abertura: Grace: A Princesa de Mônaco“, dirigido pelo francês Olivier Dahan [Uol Cinema]

• Martin Scorsese sendo entrevistado por Paul Thomas Anderson sobre O Lobo de Wall Street [Indiewire]

• Sundance 2014: difícil encontrar unanimidades e grandes destaques, um com alguns elogios foi Frank, dirigido por Lenny Abrahamson [Hollywood Reporter] [Telegraph] [Indiewire]

• E falando em cinema independente, vale ressaltar que ontem começou mais uma edição do Festival de Tiradentes, os independentes nacionais [Tiradentes]

• Quando Eu Era Vivo, trailer do filme de terror dirigido por Marco Dutra, com Marat Derscartes e Sandy, que estreia na próxima sexta-feira, e que está em Tiradentes essa semana [Youtube]

• Tarantino: roteiro do próximo filme vazou e ele resolveu desistir de tudo [Uol Cinema]

• Encerrando com esse trailer alternativo do filme Ela (de Spike Jonze), o cara trocou a voz de Scarlett Johansson por trechos de falas de Philip Seymour Hoffman. Great! [Vimeo]

O Lobo de Wall Street

o-lobo-de-wall-street-cenaThe Wolf of Wall Street (2013 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Martin Scorsese já lançou muitas tendências, já esteve muitas vezes a frente do seu tempo. Ele foi um dos que ressuscitaram o cinema criativo americano (nos anos 70), transformou filmes em clássicos, marcou uma era. Um cara com o talento com o dele, vira e mexe se reinventa, é inexplicável, simplesmente é assim. Enquanto outros tentam se consagrar copiando suas fórmulas (e até mesmo os óculo, não é David O. Russel?), Scorsese vem com algo inusitado, diferente. Um filme debochado, exagerado, com atuações “over” e o humor regado a descaramento e sexo.

Adaptando a autobiografia de Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio), um corretor da bolsa de valores, que acertou na vida, e enriqueceu, enganando clientes e vivendo de tramoias, Martin Scorsese estraçalha com o sonho do americano médio de um mundo de oportunidades. Troca o glamour por uma obsessão doentio por tudo que é proibido e mal interpretado pela sociedade. Nosso protagonista simpático é um bandido do colarinho branco, viciado em drogas, e principalmente em sexo. Leva a vida num grande deboche porque ganha milhões e pode transar com mulheres sob milhares de dólares.

Um show de DiCaprio, cuja interpretação parece a congruência daquela de o Aviador com o Tom Cruise de Magnólia, recheado desse saboroso descaramento sem limites. A perfeita unificação de jovialidade com a teimosia de quem é o dono do mundo, intocável e inalcançável, a a arrogância com a naturalidade dos milhões de dólares.

o-lobo-de-wall-street-cenaAs longas três horas de duração prejudicam o filme, a última sofre de uma edição mais enxuta, de um polimento que os personagens extrapolados não permitiram. A narração em off, que funciona tão bem para o lado humorístico da trama, cai no banal quando entra em cena o FBI e todo o patriotismo americano (que de uma forma ou de outra está enraizada em casa todos os americanos, Scorsese inclusive). Como resultado final, o Lobo é pura injeção de adrenalina num cinema que patina entre os filmes grandiosos e os indies, sempre entre clichês comerciais focados em bilheteria e nunca no filme em si. Scorsese faz vibrar com cenas beirando o ridículo, mas que no contexto soam tão engraçadas.