Posts com Tag ‘Matheiu Amalric’

Les Fantômes D’Ismaël (2017 – FRA) 

Um dos cineastas franceses mais interesantes da atualidade, Arnaud Desplechin tem uma carreira tal qual seu cinema, onde a irregularidade é um dos seus charmes. Seus últimos três filmes deram uma guinada para crises mais íntimas, talvez um reflexo do próprio estágio na vida do cineasta (pura especulação), mas é fácil notar essa tendência: seja em Terapia Intensiva e a psicanálise com um índio americano, ou no recente Três Lembranças da Minha Juventude.

Não é coincidência que o filme tenha seu habitué Mathieu Amalric retomando o personagem intitulado Ismael (assim como era em Reis e Rainha), um diálogo direto ou uma continuação espritual, porque o personagem é semelhante, mas com trajetórias e casamentos diferentes. Aqui ele é cineasta, que vive de cama em cama desde que sua esposa (Marion Cotilard) desapareceu, há mais de vinte anos, inclusive dada como morta. Brincando com flashbacks e idas e vindas no tempo, a narrativa tenta construir as bases amorosas desse homem, enquanto conta sua nova história de amor com Sylvia (Charlotte Gainsbourg). Até que a esposa ressurge e assim todos seus fantasmas.

Diferente do brilho do anterior, este aqui demonstra o cansaço da fórmula de Desplechin, suas irregularidades não constituem um de seus mais saborosos retratos de personagens complexos e aflitivos. Novamente não é um filme fácil, mas é um caminho já transpassado pelo cineasta, sua zona de conforto, cujas angustias e crises funcionam melhor para pequenas momentos (como a dança de Cotilard ou encontro com o pai) do que na constituição do filme como um todo.


Festival: Cannes 2017

Mostra: Fora da Competição

Poulet Aux Prunes (2011 – FRA)

Novamente a dupla de diretores Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud trazem às telas  adaptação de um livro escrito por Satrapi, dessa vez o foco é um tio da autora. Muito colorido, todo fofo, as imagens ganham uma mistura de animação e fotografia plastificada que trazem um visual bastante pessoal. A história trata de um músico (Mathieu Amalric) que simplesmente decide morrer. Contado nesse tom de fábula e trazendo lentamente as verdadeiras razões dessa decisão (partindo de uma briga com a esposa (Maria de Medeiros) que quebra seu instrument musical até um fato no passado que marcou o restante de sua trajetória).

Todo a estrutura montada pela dupla de diretores, aliada a essa narrativa meiga e sofisticada fazem um filme bonitinho, agradável, simpatico, uma fofura, só que não consegue ir além disso. Diferente de Persepólis (trabalho anterior) que tinha vigor e encantamento (sem falar no poder político), este aqui é formado de bonitas imagens e a melancholia do personagem que não chega a comover, está contida em sua história simplesmente, um conceito subentendido que nunca atinge ao público, acredita demais no poder das imagens e nos amores feridos.

Alice et Martin (1998 – FRA)

Qualquer sinopse escrita sobre esse filme tentará te vender uma história guardando um segredo perturbador. Não dê a mínima importância, o filme de André Téchiné vai muito além, aborda outros assuntos e principalmente esse do tal segredo, só que de maneira mais profunda e inflamada do que um surpresinha de filme de suspense. Uma história de amor entre uma violinista, Alice (Juliette Binoche) e um garoto bem mais jovem, Martin (Alexis Loret). Uma relação conturbada entre pai e filho, um sentimento quase doentio que pode se transformar em destrutivo, familias problemáticas.

Téchiné vai desenvolvendo cada um dos temas como quem escreve um e-mail e separa os parágrafos por assunto, e depois vai misturando, retornando aos temas, os parágrafos finais são humanos, essa mistura de temas e dramas. A ruína de um relacionamento quando os temas se entrecruzam, traumas, dificuldades, medos, ou o simples não saber lidar. O que parecia seguir nos dramas básicos de uma relação, se torna uma forte declaração de amor de alguém empenhada em apoiar seu amado, mesmo sob o risco de humilhações e descasos.

Tournée (2010 – FRA)

Joachim (Mathieu Amalric) volta à França com um grupo de strippers americanas para uma turnê de shows pelo país. Estamos dentro desse universo underground, promíscuo, onde sexo está presente nos olhares, no dinheiro, em cada conversa seja numa cabine de trem ou num hall de hotel. A ilusão de sucesso vendida por Joachim a essas garotas de formas avantajadas (fora do padrão da estética de beleza cultuada mundialmente) mostra-se desde o início fracassada, enquanto elas partem nessa turnê completamente à deriva, Joachim encontra todas as feridas e desencontros que havia deixado para trás, desde desafetos a problemas com os filhos pequenos. A vida vira um caos dentro de um caos de turnê, e Matheiu Amalric dirige essa história (que nos remete a Cassavetes) de uma forma circular, envolvente, um universo que nos parece tão distante e por mais negativo que pareça, surge aos nossos olhos para cima, up.