O Filho de Joseph

Le Fils de Joseph (2016 – FRA) 

O novo trabalho de Eugène Green, exibido na seção Forum do Festival de Berlim de 2016, mantém a tradição de seu cinema, mas num tom, levemente, mais palatável. Os diálogos seguem pausados, muito plano contra-plano, as referências literárias ou bíblica presentes (filme é dividido em 5 capítulos ligados à Bíblia). Por outro lado, é um filme mais iluminado, otimista, cheio de vida.

O tema já é caro a todos nós, filho adolescente quer conhecer o pai biológico. A trama oferece peripécias, provoca petulância de personagens clichê, mas desemboca mesmo naqueles laços pessoais que construímos ao longo da vida, com pessoas que, de alguma forma, escolhemos e nos fazem sentir bem. O final é saboroso e repleto de reviravoltas pessoais, mas não fiquem só com as “fanfarrices” de Green na reta final, o filme todo é de um encaixe perfeito com a filmografia do cineasta, entre seus absurdos e o lado afetivo mais destacado.

O Segredo da Câmara Escura

osegredodacamaraescuraLa Secret de la Chambre Noire / Daguerrotype (2016 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Entre o romântico e o fantástico, com toques de suspense hithcockiano, o diretor japonês Kiyoshi Kurosawa vai à França filmar a intrigante história do fotógrafo (Olivier Gourmet), de moda, que larga o sucesso para trabalhar numa antiga técnica de fotografia. Antigamente, acreditava-se que os daguerreótipos poderiam tornar eterna a alma da pessoa presença na foto.

O personagem central é o assistente do fotografo (Tahar Rahim) que não compreenda as razões as quais o viúvo vive recluso no casarão, num misto de obsessão e incompreensão contínua. A trama guarda casais apaixonados, especulação imobiliária que agita os ânimos mais ambiciosos. Kurosawa peca um pouco no ritmo narrativo, dá foco demais na lenga-lenga do interesse pela compra da casa, quando o melhor do mistério está na relação entre casais e nos aspectos sobrenaturais, e em toda delicadeza com que o cineasta conduz as relações amorosas ou sociais. Um trabalho bonito, porém imperfeito.

O Ignorante

oignoranteLe Cancre (2016 – FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Talvez haja muito do próprio Paul Vecchiali no personagem do ancião Rodolphe (que o próprio diretor interpreta), nesse filme que resgata nove anos de convivência, na mesma casa, entre pai e filho (Pascal Cervo). Rodolphe é rabugento e um longo histórico de mulheres que passaram por sua vida. Ele vive um momento de memórias, algumas dessas mulheres de alguma forma retornam, neste momento, em encontros infortúnios. Mas ele quer mesmo é reencontrar a que foi seu verdadeiro amor (Catherine Deneuve).

Para contar essa história de resgate, de amor e desejo, Vecchiali usa situações nada típicas, que fogem completamente do irracional. A direção de atores é solta, entre o naturalista e o qualquer jeito, tais elementos dificultam o diálogo com parte do público. O resultado assim é irregular. Entre erros e e acertos, Vecchiali oferece momentos bonitos e questionadores, seja na complicada relação pai e filho (sexualidade, desapego da vocação paternalista), seja na relação sensível e indiferente que teve com cada uma das mulheres de sua vida.

Três Lembranças da Minha Juventude

treslembrancasdaminhajuventudeTrois Souvenirs de Ma Jeunesse / My Golden Days (2015 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Arnaud Desplechin volta à boa forma com a história de Paul Dédalus (Mathieu Amalric na fase adulta, e Quentin Dolmaire jovem). O pretexto de seu passaporte pego quando deixava o Tajiquistão, serve apenas para desencadear o flashback de suas memórias mais vívidas, os romances e aventuras de uma adolescência de experiências.

Em vários momentos, lembra muito de alguns filmes de François Truffaut, há proximidade com a Nouvelle Vague, mas a complexidade familiar e romântica de Desplechin envereram o todos a outros caminhos. A história de amor trágico, e mal resolvido, é tão predominante que cerca a vida toda de Paul. Não que sua viagem à URSS e a morte prematura da mãe não tenha sido determinantes na formação de caráter de Paul. E o filme de Desplechin trata disso, dos momentos chave da vida desse adolescente, momentos estes decisivos ao antropólogo que responde os questionamentos na imigração.

É um filme ávido pelas descobertas, pela ingenuidade do primeiro amor (sempre tratado como único e maior que tudo), pelo sexo inconsequente e pelos laços familiares (irmãos, pai, e amigos).  Desplechin retorna com um filme de roteiro complexo, tal qual a vida, narrados com a beleza de um coração pulsante.

O Quarto Proibido

oquartoproibidoThe Forbidden Room (2015 – CAN) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

E as loucuras de Guy Maddin, dessa vez divide a assinatura do filme com Evan Johnson, ataca novamente. O canadense que revive os primórdios do cinema mudo e preto e branco, cheio de texturas e efeitos visuais que dão impressão de um filme centenário, está de volta com uma de suas maiores viagens.

E na questão ousadia, longe que este é o que vai além desse conceito. Com uma geleia mortal dentro de um submarino, e uma dezena de filmes-dentro-do-filme, que une diversos atores e outros nomes famosos do cinema mundial (como Jaques Nolot, Geraldine Chaplin, Charlotte Rampling, Maria de Medeiros ou Mathieu Amalric), o roteiro extrapola os limites do racional, sem dó e nem piedade do público.

A dupla de diretores está mais interessado em brincar com iluminação, texturas, colagens e sobreposições, e a diversidade de filtros que transformam ssistir numa experiência quase sensorial. Dessa vez os personagens tem falas, uma das sequencias é quase um musical. Há ainda um humor peculiar, meio escroto, meio deboche, é tudo over. O exagero fantasioso, a radicalidade nas propostas anárquica, Maddin foi muito além e o excesso nunca é benéfico.

The Blue Room

theblueroomLa Chambre Bleue (2014 – FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O prestigiado ator Mathieu Amalric segue tentando estabelecer, também, sua carreira de cineasta. Ele parte da delicadeza, filma objetos enquanto personagens conversam, utliza a trilha sonora, quase permite notar o vento passar pela janela daquele quarto azul. É um filme de tribunal, ele interpreta o homem que está prestando depoimento, algemado, acusado de algum crime.

O filme tenta esconder ao máximo as informações, o interrogatório abre os flashback’s, desenvolve a história dos amantes, e suas vidas conjugais, e algum crime que lá adiante pode-se entender. Amalric se preocupa demais com os detalhes, com os segredinhos. Falta a seu filme alma, brilho, características marcantes que deem sua notação pessoal. É um filme bem intenso, agradável, nunca chega a ser realmente interessante.

A Pele de Vênus

apeledevenusVenus in Fur / La Vénus à la Fourrure (2013 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Não poderia haver trama mais simples. Um diretor de teatro, Thomas (Mathieu Amalric), está em busca da atriz principal para sua nova adaptação, Vanda (Emmanuelle Seigner) chega atrasada, quando o teatro já estava sendo fechado, mas insiste muito para realizar seu teste. O filme é o teste. Simples não?

Nada simples, Roman Polanski é o responsável por essa adaptação do texto de Leopold von Sacher-Mashoch (o livro e o nome que deram origem ao termo masoquista). Thomas e Wanda interpretam a peça, e vivem uma complexa relação de atração e ódio, de deslumbramento e fúria. Além de interpretar, discutem, argumentam, Wanda atua no tom perfeito, mas discorda de tudo. Com elegância e fortíssima sensualidade, os dois se dividem no comando das ações, alternam na posição do martelo e da bigorna num vai-e-vem alucinante, com pitadas de interferências externas que jamais aparecerão no filme.

Polanski está bricando o tempo todo, a câmera gira pelos personagens, invade o palco tornando-o tridimensional, oferecendo ao público a possibilidade de assistir a mais que um teste, e sim uma análise crítica da obra e das relações humanas, atualizando, de alguma forma, os jogos sexuais, a posição amante-escravo, para um mundo contemporâneo, com fetiches, peles de animais e celulares.