Posts com Tag ‘Mati Diop’

Atlantique / Atlantics (2019 – SEN/FRA)

Ada (Mame Bineta Sane) ama, sofre, se rebela aos costumes, encontra pouco apoio até em suas amigas. Ela é a figura central, aos 17 anos prefere viver pelo que acredita do que a comodidade que a maioria preferiria. Perdidamente apaixonada por Suleiman (Ibrahima Traoré), pedreito de um prédio de luxe em construção, sem receber salários há três meses.

O filme se divide em diversas frentes, uma delas é esse estudo da vida de Ada e das amigas à sua volta. Seu lado guerreira e arredio, antagônico a futilidade de algumas de suas melhores amigas. É desse parte da trama que nasce o aspecto policial, numa investigação confusa, e um policial cuja participação na história parece deslocada, um tipo de mistério que nem carrega tantos questionamentos.

Mati Diop se equilibra entre a poesia do belo mar do Senegal, a generosidade da descoberta do amor entre esses dois jovens e o confronto social entre os empregados sem salário e o patrão e seu casarão. Sua forma não usual de filmar traz beleza mesmo em locais tão pobres como a caçamba de um caminhão ou o jogo de olhares entre os trens. Diop era a atriz do filme 35 Doses de Rum, de Claire Denis, e é fácil notar onde o cinema das duas se encontra, quando o lado fantástico da história ganha espaço.

Atlantique flerta com a poesia, mas é bem direto em seu discurso social e da posição feminina na sociedade. Um acidente trágico, mulheres-zumbis, o olhar enigmático de Ada, há muito para se mergulhar no mar cinematográfico que o filme propõe.

simonkillerSimon Killer (2012 – EUA/FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Antonio Campos, filho de brasileiros, nascido em NY, volta a abordar jovens com algum tipo de transtorno emocional. A violência fora de controle, em jovens, é uma espécie de obsessão em sua carreira. Tanto em seu longa anterior (Afterschool), quanto nos curtas que dirigiu, Campos realiza estudos da natureza humana desequilibrada, absorvida pelo meio e as facilidades que a violência pode proporcionar.

Simon (Brady Corbet) viaja a Paris após o término de seu relacionamento, escreve e-mails a sua ex, sofre até encontrar consolo no sexo. É nítido o quanto Simon está sob pressão, seja no esbarrão de um imigrante na rua, ou na falta de jeito com que se encontra com a prostituta (Mati Diop), que se torna sua namorada. Campos segue absorvendo o clima e os cenários com seu estilo, que lembra Michael Haneke no trato da imagem, com a câmera que se movimenta como uma testemunha ocular, sempre pronta a focalizar um detalhe, que pode ser nada, mas sempre aparecenta ser definito.

A história mete os pés pelas mãos em sua metade final, as fragilidades de Simon e dela são quase primitivas, o interessante mesmo é a forma como Campos narra isso tudo. A Paris suja, marginal, o foco no incomum (a nuca de Simon pela rua, a cama enquadrada numa altura que a torna o objeto principal das cenas), e um garoto mimado que descobre sua fúria como forma de libertação.