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Hermia & Helena

Publicado: julho 26, 2018 em Cinema
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Hermia & Helena (2016 – ARG) 

A cada novo filme, o cineasta argentino Matías Piñeiro vai solidificando a construção de um universo particular. Tendo o teatro e a juventude como alicerces desse mundo em que orbitam seus personagens. Já é o seu terceiro filme de referências claras a Shakespeare, com narrativa mansa, e a delicadeza com que reverencia as protagonistas femininas.

Dessa vez, boa parte da trama se passa em Nova York, uma jovem diretora de teatro que também faz as vezes como tradutora. A mistura dos idiomas, o jogo de relacionamentos e amizades, além da narrativa em tempo não cronológico, bastante circular, combinam com essa proposta liberdade e fluxos. Piñeiro abre o filme com uma homenagem a atriz Setsuko Hara (dos filmes de Ozu), e o primeiro plano, bem aberto, de um jogo de futebol relembra seu filme anterior, mas a sensação que fica é de que ele apenas tenta nosso situar, recolando o público dentro desse universo para assim seguir com essa brincadeira de se relacionar a Sonho de Uma Noite de Verão.


Festival: Locarno 2016

Mostra: Competição

Nos últimos dias estava quebrando a cabeça, vasculhando nos filmes que entraram no circuito comercial, aqueles dez que seriam os meus preferidos do ano – doença de cinéfilo. E, simplesmente, não consigo fechar uma lista com dez merecedores-de-um-top-10. Talvez 5 ou 6, vá lá, mas o restante são apenas bons filmes, em que há outros 4 ou 5 que estão ali, no mesmo nível. Desse critério tão subjetivo (e maluco) que é classificar filmes. Conversando com meu amigo Superoito, realmente não parece haver sentido nessa lista, afinal, o circuito brasileiro vive atrasado. Se a oferta em quantidade tem crescido, ainda assim a quantidade de salas “alternativas” são tão restritas, que os filme permanecem nas prateleiras das distribuições, esperando melhor momento de estrear, muitas vezes perdendo seu “momento”.

Os cinéfilos que realmente acompanham a cena internacional de cinema, o que está sendo filmado, as novas tendências, novos limites que os cineastas quebram. Estes cinéfilos buscam os filmes por outras plataformas, de outras maneiras que não exclusivamente o circuito. Nesse ponto, os festivais tem ajudado muito, não só o Indie, Festival do Rio, e Mostra SP, como outros festivais menores, tem trazido grande parte da produção atualizada, cobrindo parte expressiva dessa produção. O resto chega através de outros formatos, viagens, Netflix, internet e etc. Estamos quase em 2015, hora de mudança.

Portanto, trabalhar numa lista de melhores, tendo o circuito comercial como critério, me parece abster-se do cinema que o próprio cinéfilo acompanha, discute, vive. Não, não vou esconder meus 10 preferidos, vou apenas deixá-los no final, apenas como referência, afinal eles serão meus votos para o Alfred da Liga dos Blogues Cinematográficos.

A lista mais importante é a que vem logo a seguir (comentada), são filmes que foram vistos em 2014, com produção de até 2 anos (que finalmente foram vistos, ou ficaram acessíveis). Eles formatam melhor o panorama do ano do cinema, os principais festivais, o que a imprensa especializada ou os grupos de cinéfilos discutiram, veneraram, xingaram, amaram. Há ausências, como toda lista, afinal, ela é subjetiva. Alguns filmes não foram vistos (a Godard a mais sentida, mais a versão em 3D precisa ser vista em tela grande), outros não agradaram tanto, mas ela indica caminhos, preferências, e, acima de tudo, é coerente com esse cinema atual.

O Top 10

doquevemantes

  1. Do que Vem Antes, de Lav Diaz
  2. A Imagem que Falta, de Rithy Panh
  3. A Princesa da França, de Matias Piñeiro
  4. Redemption, de Miguel Gomes
  5. Era Uma Vez em Nova York, de James Gray
  6. E Agora? Lembra-me, de Joaquim Pinto
  7. O Conto da Princesa Kaguya, de Isao Takahata
  8. A Pele de Vênus, de Roman Polanski
  9. Acima das Nuvens, de Olivier Assayas
  10. Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan / Dois Dias, Uma Noite, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

Olhando para essa pequena amostragem percebo que é uma lista heterogênea, grande parte dela da seleção dos dois últimos festivais de Cannes. Quase todos diretores consagrados, que apontam para dois caminhos: filmes grandiosos em temas e pretensões; ou pequeninos na pretensão, porém grandes na arte de filmar. São dois lados de uma mesma moeda, cineastas que enxergam suas próprias carreiras e tentam escapar dos caminhos fáceis do piloto automático.

Alguns destes filmes tem o aspecto moral como excelência, o perturbado conto de Ceylan ganhou a Palma de Ouro. O dos Irmãos Dardenne traz um melodrama nunca antes visto na carreira dos belgas. São filmes antagônicos na forma, ligados por essa questão da vida em sociedade, dos princípios. James Gray continua com poucos e fiéis fãs. Ele até flerta com o melodrama, mas seu estilo sofisticado deixa tudo tão chamuscado e charmoso que esse melodrama fica chique entre tão belos planos.

Há o lado teatral forte, é o segundo trabalho seguido de Polanski que remete ao teatro filmado, dois de seus melhores filmes em anos. O argentino Matias Piñeiro surge como uma descoberta, tardia deste blog, com uma construção irrepreensível, uma espécie de poesia teatral filmada. Assayas mergulha em seus filmes anteriores, e em Bergman, trilha novo caminho via metalinguagem.

De Portugal duas pérolas, o documentário autobiográfico de Joaquim Pinto e as biografias escondidas por Miguel Gomes num curta sobre doces fluxos de memórias. O cinema português segue produzindo pouco, mas muito bem. O japonês Isao Takahata promete ter entregue seu último trabalho, e o resultado é um primor ao refletir as tradições culturais orientais com leveza e sofisticação.

No topo da lista Pahn e Diaz, os dois revivendo cicatrizes dolorosas de seus países. Seja pelos bonecos do Cambodja, ou pelas florestas filipinas, os horrores das ditaduras sem que a violência precise ser exposta. Seus filmes são registros hipnóticos de um cinema rigoroso, que usa da simplicidade para aproximar-se de seus próprios personagens, e do virtuosismo de seus diretores para cativar os que enxergam novos rumos para o cinema. A conjunção exata entre fazer arte e contar histórias.

No Letterboxd deixo a lista mais completa com meus 25 filmes favoritos do ano.

O Top 10 do Circuito Comercial

  1. A Imagem de Falta, de Rithy Pahn
  2. Era uma Vez em Nova York, de James Gray
  3. Cães Errantes, de Tsai Ming-Liang
  4. Bem-Vindo a Nova York, de Abel Ferrara
  5. Mais um Ano, de Mike Leigh
  6. Amar, Beber e Cantar, de Alain Resnais
  7. Boyhood – Da Infância à Juventude, de Richard Linklater
  8. Vic + Flo Viram um Urso, de Denis Côté
  9. O Abutre, de Dan Gilroy
  10. O Ciúme, de Phillipe Garrel

aprincesadrafrancaLa Princesa de Francia (2014 – ARG) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Da janela de um apartamento, um longo plano-sequência ao som de Schumann, presencia (bem de longe) uma quadra de futsal. A visão é parcialmente coberta pelo telhado de uma casa. O jogo vira uma grande brincadeira com os coletes dos jogadores. Uma brincadeira de misturar e confundir que o diretor Matías Piñeiro vai performar, habilmente, com um grupo de jovens e os envolvimentos após o retorno de Victor (Julián Larquier Tellarini).

Shakespeare, cinema/teatro, as pinturas do francês William-Adolphe Bouguereau. Piñeiro nos faz recordar tantas referências, e ainda assim apresenta um estilo próprio, peculiar, devastadoramente atraente. A câmera se posiciona inclinada (alguns centímetros acima do que fazem os Dardenne), pelas costas dos personagens, que se beijam escondidos, conversam. O retorno de Victor é estopim para amores antigos, novos, o reencontro com a namorada. O roteiro cheio dessas referências culturais (ao público, e aos personagens) cria tantos vai-e-vens que se permite repetir cenas, multiplicando a mesma situação em múltiplas possibilidades. Todas simples, triviais, porém completamente antagônicas aos envolvidos.

O grupo monta Shakespeare (Love’s Labour’s Lost) no rádio, enquanto isso discutem referências, atualizam o que se passou no 1 ano em que Victor esteve fora, vivem amores e traições. Piñeiro é sutil, mas o domínio que tem de tudo é notável. Traz a excelência da criatividade de Resnais, a leveza de A Esquiva de Kechiche, o descompromisso de uma Nouvelle Vague renovada. A câmera é inquieta, porém suave, trafega pela movimentação de seus personagens num ballet onírico. Trata do amor, com linguagem jovem, permitindo que a desconexão das cenas traga uma pluralidade às complicações amorosas da vida moderna. Um dos melhores filmes do ano!