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Dogman

Publicado: agosto 14, 2018 em Cinema
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Dogman (2017 – ITA) 

Por mais que se trate de uma história verídica, de um crime, que chocou a sociedade italiana, convém saber o mínimo possível antes de ver o novo filme do cineasta Matteo Garrone. Ele que já filmou a máfia em Gomorra, e criticou a exposição exagerada em Reality (só para ficar em alguns exemplos), vem com a história do pacato funcionário (Marcello Fonte) de um petshop, no subúrbio de Roma. Que joga futebol e tenta sobreviver de vida simples entre as mazelas da vizinhança.

Um ex-boxeador, viciado em drogas, perturba o bairro com sua agressividade e necessidade por alimentar seu vício. É Garrone, novamente, explorando a violência, só que, dessa vez, ela vem de onde menos se espera. Pode-se até compreender os caminhos que levaram ao crime, ainda assim é a forma como Garrone explora os tipos de violência que forma em seu cinema uma particularidade autoral.

Como cinema, a fotografia suja e a interpretação (premiada em Cannes) de Marcello Fonte fazem o contraponto mais positivo, quando o roteiro prefere demorar até o momento fatídico, buscando elementos no cotiadiano e nos relacionamentos da vizinhança para intensificar e justificar atos e personagens. Garrone ainda parece um cineasta com muito apetite, mas que ainda não acertou seu estilo, vide o fracasso de seu último trabalho (O Conto dos Contos), mas que prova ainda ser privilegiado nos festivais como um dos principais nomes do cinema italiano da atualidade.


Festival: Cannes 2017

Mostra: Competição

Prêmio: Melhor ator

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ocontodoscontosIl Racconto Dei Racconti / A Tale of Tales (2015 – ITA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Em seus últimos filmes, Matteo Garrone não se contenta com assuntos pequenos. Do retrato da máfia italina (Gomorra), ao mundo italianos dos reality shows (Reality), o cineasta parte agora mais profundamente em grandiosidade. São três contos do período das grandes monarquias, sempre cercado de fantasia, e o título já deixa bem expressada essa grandiosidade “O Conto dos Contos”.

Sim, Garrone quer realizar o filme definitivo, ele vem tentando, e passa cada vez mais longe. Este aqui carrega a pompa da idade média, três reinados e suas historias que sobrevivem desse quê de conto de fadas. Do rei que tem uma pulga gigante de estimação e por sua promessa acaba entregando a filha a um ogro, ao rei mulherengo que se encanta por uma voz de uma velha que consegue se tornar jovem, ou então a rainha que não mede esforços e consequências pela possibilidade de ser mãe. São apenas contos, tolos, interessantes, mas que jamais representam a eloquência que Garrone permanece em busca. Contos de fadas para adultos, envergonhados na sexualidade, e que buscam na estranheza a sua forma de se expressar moralmente.

realityReality (2012 – ITA/FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Já se sabe do fascínio mundial pelo Big Brother, pessoas confinadas numa casa, fingindo comportamentos e almejando o carinho do público para ganhar uma bolada. A possibilidade de se tornar uma celebridade instantânea, de um desconhecido para alguém reconhecido pelas ruas. Essas coisas mexem com a cabeça das pessoas, afinal, quantos milhares não se inscrevem tentando uma vaga na “casa”.

Matteo Garrone rascunha um breve estudo sobre esse fascínio, a expectativa de estar entre os escolhidos, estrelato, fama, dinheiro… Luciano (Aniello Arena) praticamente enlouquece, se vê perseguido por pessoas da produção à paisana, como se estivessem Reality2o testando. É interessante o grau de loucura do sujeito cheio das tramoias, renegando sua vida a uma esperança.

Filmando bem próximo aos atores, com fotografia suja, Garrone apresenta uma Itália conhecido do público, mas essencialmente de gente pobre e simples. As famílias falantes e que se intrometem nas vidas de todos, o jeito latino de dar “jeitinho” em algumas situações, e essa entrega ao “pão e circo” que desde Roma Antiga consegue hipnotizar o grande público. Pena que o cineasta, ao final, sucumba e se entregue ao mundo de fantasia de seu personagem, acreditando na própria ilusão que criou.

Gomorra

Publicado: outubro 21, 2008 em Cinema, Mostra SP
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gomorrahGomorrah (2008 – ITA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Matteo Garrone é bastante petulante ao sonhar, que retratando diversas histórias, em narrativa fragmentada, poderia fazer um raio-x da Camorra e das minúcias do seu funcionamento no submundo. De efeito prático, consegue apenas causar medo, demonstrar a fraqueza e delinqüência dos jovens, a dependência da população, o sangue que jorra diariamente. Seu filme é um panfleto, um olhar microscópico sob algumas influências da máfia siciliana. Sua preocupação não é a de nos identificarmos, por isso não sabemos exatamente quem são aquelas pessoas, o que pensam, como vivem, e por isso falta dramaturgia e desenvolvimento dos personagens.

O filme basicamente reflete a relação de cada um deles com a Cosa Nostra que é sinônimo de dinheiro, morte, poder. E num discurso carregado de fatos reais (nos créditos) temos a certeza de que aquelas são algumas das pequenas e terríveis verdades que assombram dia a dia da Itália (e todos os países do mundo). A Camorra anda enraizada na sociedade italiana há anos que mais parece um cancer incurável. Gomorra é um filme explosivo, de peças soltas pelo ar, e irregular por um próprio desejo de Garrone em se tornar definitivo.