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Nära Livet (1958 – SUE)

Ingmar Bergman também era o cineasta da alma feminina, aquele capaz de produzir ensaios sobre as aflições e a feminilidade, o homem que captava nuances e as tranformava em poderosas representações de sensações, pouco, ou nunca, reproduzidas. Um filme sobre três mulheres grávidas dividindo um quarto de hospital, por uma noite, e o mundo de dúvidas, angústias, as incertezas, as idas e vindas de amores.

O cineasta sueco resume em três personagens, a grande maioria das possibilidades, sensações e tormentos das que carregam outra vida em seus corpos, e no quanto essa é uma experiência transcendental. Num mergulho tenso por condição física e psicológica dessas mulheres, Bergman vai desde a alegria intensa à decepção, num piscar de olhos. E os faz com a tensão de um dia de hospital pode causar. A dor que pode estar no psicológico, a maneira de se relacionar com sua própria gravidez, a intimidade que surge de outras grávidas.

O filme é sobre essa coisa inexplicável chamada maternidade, seja ela indesejável, com complicações ou interrompida espontaneamente. Ninguém passa ileso a uma experiencia dessas, casamentos desmoronam, relacionamentos se refazem ou desfazem, a mulher dialogando com seu próprio corpo e estado de espírito enquanto carrega em seu ventre o milagre da vida. Bergman deixa de lado os bebês para manter seu foco na mulher, na grávida, e nesse mundo de novas possibilidades que está nascendo.

Nattvardsgästerna (1963 – SUE)

Segunda parte da Trilogia do Silêncio, é nesse capítulo em que Ingmar Bergman mergulha mais profundamente no silencio de Deus, e nos questionamentos dos humanos sobre sua existência. A missa se realiza numa pequena paróquia numa vila de pescadores na Suécia, são poucos os presentes, serão eles os personagens orbitando em torno do pastor cuja vida passa pelos questionamentos de sua fé.

Questionamentos estes que começaram após a morte de sua esposa, em discussões com sua amante, os dois se embatem por essa frieza do pastor após perda irrecuperável. Na sacristia a esposa do pescador pede para o pastor ter uma conversa com seu marido que anda em depressão após os jornais terem noticiado a possibilidade da China criar sua bomba atômica. Enquanto isso um sacristão dificiente julga que o sofrimento de Jesus não foi tão grande assim, durou apenas 4 horas, o dele é muito mais sentido e longo.

Poucos diálogos de planos longos e fechados no personagem que tem a palavra, o filme praticamente se desenvolve dentro da igreja, um universo claustrofóbico, o pastor questiona sua vida e sua fé, mas não consegue um segundo de paz interior com tantos problemas dos outros que ele precisa (mesmo que não se sinta capaz de) lidar e “resolver”. Bergman é contudente em seus questionamentos, a dor e o silêncio estão tão presentes quando a fraqueza da fé e o peso da necessidade de acalmar tantas almas aflitas. O filme abre e fecha com uma missa, demonstra a hipocrisia de um homem que passa todo o intervalo entre as duas celebrações perguntando e duvidando de sua fé

Vargtimmen (1968 – SUE)

Em dado momento do filme, o pintor (Max Von Sydow) perturbado por seus fantasmas e os personagens de suas pinturas explica que a hora do lobo é aquele hora da madrugada onde a maioria das pessoas nasce e morre, a hora em que os pesadelos nos invadem. O filme é narrado por sua esposa, Alma (Liv Ullmann) lendo seus diários e conversando com a câmera sobre os fatos ocorridos recentemente.

Impossível definir o que é verdade, se é que há verdade, ou apenas uma grande alucinação. A historia claustrofóbica não nos permite adentrar em sua personalidade, e sim, sofrer com essas pressões fantasmagóricas. Seja da ex-amante, ou da velha que tira o chapéu e a pele do rosto que sai junto, ou ainda do senhor que tanto lembra Bela Lugosi. Ingmar Bergman não cria apenas esse clima perturbador com requinte, ele nos faz mergulhar, o peso dos ombros das alucinações que o fazem perder o controle recai sobre nós, vivemos a hora do lobo, não sabemos como sair dela.

Aos “frasistas” de plantão, Bergman cria uma série daquelas que podemos carregar como ensinamentos. O cineasta faz esse mergulho psicológico de forma que o clima de terror pode anular nossas próprias vidas por alguns minutos de tão entregues às presenças daqueles personagens que entram e saem, misteriosamente, sem que haja qualquer sentido além desse senso falta de controle. Um mergulho no “eu” de alguém perturbado, afastado da sociedade não só fisicamente, como psicologicamente, obcecado por um castelo, pelo convívio com… sabe-se lá quem.

Extremely Cloud & Incredible Close (2011 – EUA)

Por que alguns filmes são extremamente melodramáticos e voce detesta, e outros voce gosta? Qual é o segredo, dentro desse universo sentimentalóide, que diverge ao ponto de causar satisfação ou ódio eterno. Afinal, a trilha sonora está lá para intensificar o drama, as emoções são lançadas à-flor-da-pele, a sensação de que o mundo parou para assistir aquele momento inigualável, e voce simplesmente acha aquilo um porre, ou vê lágrimas surgirem em seu rosto. Quem terá explicação para este dilema? Eu, essencialmente, detesto melodrama, posso sentir o açucar escorrer pelos cantos da tela. E por que, mesmo sentindo os momentos melodramáticos, me vi, literalmente, dentro do drama desse garoto e me emocionando com tudo aquilo? Não sei, mas o cineasta Stephen Daldry tem alguma coisa que me mantém conectado.

 Seu quarto filme, todos emplacando indicações ao Oscar. E, ele é um contador de histórias, seus filmes não possuem nada de “autoral”, são adaptações eficientes de livros, sempre causando comoção, sempre expondo o intrínseco de seus personagens. Aqui temos um garoto (o excelente Thomas Horn) lidando com a morte do pai (Tom Hanks) no World Trade Center. Daldry, busca total aprofundamento das características do garoto, sua inquietação, a criatividade, persistencia e dificil relação social. Obcecado pelo pai, sai numa busca desenfreada pela fechadura de uma chave (que ele encontrou nas coisas dele, num armário). Essa busca de uma agulha num palheiro, invade casas de desconhecidos para trazer um pouco da relação da cidade com as “vítimas” do atentado de 11 de Setembro.

Max Von Sydow, aparece na segunda metade, e ajuda esse garoto na busca incessante, seu velhinho misterioso (que perdeu a fala) traz nova luz ao filme, e na grande cena o garoto “alucinadamente” descreve sua saga até aquele ponto, é de tirar o folego. É claro, que todos os elementos, convergem para os momentos de melodrama elevados à enésima potência, basta voce ter comprado o drama daquele garoto, ou achar aquilo tudo um porre. O segredo de Daldry talvez seja esse, aos que ele consegue aproximar dos seus personagens, fará emocionar em um momento ou outro. Afinal, o problema desse garoto não é o Terrorismo, mas, simplesmente, a perda do pai.