Posts com Tag ‘Maya Sansa’

Bella Addormentata (2012 – ITA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Marco Bellocchio resgata a polêmica da eutanásia que mobilizou a Itália com o caso da mulher que viveu 17 anos, em estado vegetativo, e o pai solicitou ao governo a autorização para eutanásia. Ele foge do que se poderia esperar de uma biografia/cronologia do caso. Traçando um perfil das pessoas envolvidas em casos semelhantes, mantendo a eutanasia como assunfo enfoque, em cada um dos núcleos, porém dando vida a cada um dos personagens/familiares dos que vivem sob aparelhos.

Com isso surgem romances, crises pai-filha, uma mãe que abdica de sua carreira para estar próxima da filha. Enquanto isso o país católico ferver, os políticos discutem o caso, manifestações nas ruas, uma confusão à italiana.

Fugir do óbvio é interessante, Bellocchio segue por esse caminho, por mais que a irregularidade de núcleos e personagens não permita um desenvolvimento mais interessante à trama. O painel de personagens não se transforma num retrato delicado, nem em sufocante, nem mesmo a questão política, Bellocchio mantém a panela tampada, um filme abafado.

bomdianoiteBuongiorno, Notte (2003 – ITA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O que não me sai da cabeça é o olhar distante e misterioso de Chiara (Maya Sansa). O recurso é usado inúmeras vezes durante o filme, ora soa como indeciso, em outras oportunidades inseguro, normalmente deprimido. Acima de tudo um olhar penetrante, vitrine de seus próprios sentimentos. A história baseia-se no livro escrito pela única mulher que participou desse tenebroso acontecimento histórico, tenebroso pelo crime hediondo, mas também pelas incertezas que até hoje ele sugere.

A história sob o braço feminino do seqüestro traz um olhar de humanidade ao filme, a personagem, que trabalha como bibliotecária numa repartição pública, passa por um momento conflitante. Sonha com diferentes caminhos para aquele seqüestro, discute com um amigo politizado que é contrário à violência. Em alguns momentos, parece ali só para estar próxima do namorado monossilábico, em outros, parece acreditar nos ideais do grupo, mas em instante algum aceita o desfecho trágico, lhe falta coragem.

Em meio a efervescente situação política italiana, um clã do grupo revolucionário de extrema esquerda, Brigada Vermelha, arquitetou o seqüestro do presidente do Partido Democrata Cristão, Aldo Moro (Roberto Herlitzka). A idéia seria trocá-lo por presos políticos, o ano 1978. Foram 55 dias de sequestro, o país mobilizado acompanhava as notícias do caso, o Papa Paulo VI interveio a seu modo, o primeiro-ministro Andreotti não cedeu, e Aldo Moro terminou assassinado.

Marco Bellocchio arremessa o público de pára-quedas no momento político, mesmo com o riquíssimo material televisivo, quem não viveu à época pouco sabe da importância de Moro, e das movimentações políticas que ele liderava. Bellocchio aponta a culpa do final trágico ao governo, transforma os sequestradores em intelectulóides, com um discurso panfletário em favor do proletariado, um bando de inconseqüentes. É mais fácil tratar o tema assim do que mergulhar nos meandros políticos, em todo o mistério que assombra o caso, onde muitos acusam o envolvimento de governantes interessados no sumiço de Moro.

Essa visão parcial do cineasta sugere foco essencialmente ao próprio público italiano, pouco da efervescência extrapola a tela para chegar ao espectador. Mesmo assim, a magia é forte em toda a seqüência do elevador. As pessoas correndo pela escada, cada abertura da porta do elevador assusta aos que o esperavam, e estes fogem instantaneamente. Enquanto isso, você ali sem saber realmente o que há lá dentro. E a trilha com Pink Floyd…

aintrusaLa Balia (1999 – ITA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

A Itália no início do século XX andava inquieta, os socialistas tomam as ruas em passeatas com suas grandes bandeiras vermelhas. O médico e professor aristocrata Mori (Fabrizio Bentivoglio) trabalha numa clínica de doentes psiquiátricos e leva uma vida artificialmente feliz com sua esposa, até que ela fica grávida. Ela não demonstra nenhuma satisfação em tornar-se mãe, e desde o parto não se força nenhum pouco por seu filho, o bebê acaba rejeitando o leite materno talvez sentindo essa rejeição. Sem outra opção, Mori procura uma ama-de-leite, entre as esposas dos presos políticos que estão sendo deportados. Annetta (Maya Sansa) é escolhida e acaba obrigada a deixar seu filho, recém-nascido, para morar nesta casa.

Um forte sentimento de ciúmes toma conta de Vittoria Mori (Valeria Bruni Tedeschi) ao ver seu filho sendo tratado, com muito afeto, por Anetta, e aceitando seu peito imediatamente. Essa situação criada por Vittoria toma dimensões incontroláveis, cada vez mais sente-se trocada, já que as atenções da casa são direcionadas para o bebê e sua ama-de-leite. O marido assiste pacato e acredita que com um pouco de tempo tudo se resolve, mas essa mulher mimada não consegue viver ofuscada e a crise conjugal é inevitável.

De um lado temos uma crítica a sociedade tal como foi formada nos primórdios do século, a dama paparicada por seus empregados é colocada para escanteio com a simples chegada de uma mulher simples e analfabeta. Levemente também tocamos no assunto da liberdade, na presença do médico insatisfeito e apaixonado pela paciente, ou mesmo em Anetta e seu amor pelo marido preso, desejando escrever-lhe uma carta de amor.

Marco Bellocchio dirige de maneira sutil, como uma narrativa lenta e correta, e algum exagerado prolongamento em cenas desnecessárias. Pela falta de objetividade do roteiro, nada nos faz vibrar, penetrar na história, talvez o erro esteja na eterna tranqüilidade de Fabrizio Bemtivoglio, onde seu personagem aceita tudo de maneira tão simples. Faltam momentos contundentes, uma escolha mais direta no que exatamente priorizar, não faltavam argumentos para se utilizar no filme. São crises conjugais, ciúmes e a sensação de ser dispensável para seu próprio filho recém-nascido que deve ser a relação mais próxima que alguém pode viver neste mundo. Baseado no livro de Luigi Pirandello.