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Maya

Publicado: julho 17, 2019 em Cinema
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Maya (2018 – FRA)

O novo trabalho de Mia Hansen-Love é um novo capítulo de frescor em sua filmografia. Uma viagem à Índia num prisma bem diferente do que estamos acostumados pela visão ocidental naquele país. Ao invés do estranhamento com relações sociais, alimentação e outras características, o protagonista tem é um fascínio admirável pelo país que o acolheu quando criança. E, logo após um trauma complicado (o filme tem início quando ele, jornalista, é liberado por terroristas sírios e retorna à França), busca refugío onde guarda boas lembranças.

Sem dúvida é um personagem cheio de feridas em busca de cicatriz, e como um road movie, nos faz viajar por diferentes lugares, aproveitar a paisagem, lidar com a pobreza com naturalidade, redescobrir o amor. Pode até parecer clichê na questão romântica, com tantos contrastes e sonhos diversos entre eles, mas a cineasta filma com tanta leveza que mesmo as questões mais complexas (como a predatória sede imobiliária) são duras, mas com sabor especial. Mia Hansen-Love mantém a riqueza de seu cinema através de uma disfarçada simplicidade, e mostra uma Índia a ser descoberta.

oquestaporvirL’Avenir / Things to Come (2016 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A cada filme a diretora Mia Hansen-Love refina ainda mais sua forma sutil e fluida que contar histórias, aliás tais histórias que parecem tão rotineiras, e pouca cinematográficas, mas que sob sua visão tornam-se atraentes e revigorantes. O amor adolescente em Adeus, Primeiro Amor, ou o drama familiar de O Pai das Minhas Filhas, são ótimos exemplos.

Hansen-Love tem, desta vez, Isabelle Huppert como a professora de Filosofia que tem o princípio de desmoronamento de sua vida numa crise familiar. A instabilidade da casa em que vivia com seu maridos e dois filhos, traz a esta professora a possibilidade de renovação, podemos até chamar de recomeço, é o “o que está por vir” do título, sem fugir dos dramas, mas sempre se entregar a eles.

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Eden (2014 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O cinema de Mia Hansen-Love sugere a comparação a um avião planador. Seus filmes sobrevoam personagens com leveza, observam num voyeurismo contemplativo. A sutileza ocupa o espaço do peso dramático, ela sempre opta pelo singelo, se permite evitar o profundo, sem que se esquive das dificuldades (a morte do pai em O Pai das Minhas Filhas, a fase problemática do protagonista neste novo filme). Hansen-Love surge como um novo expoente do cinema novo francês, mas, mesmo selecionado para o Festival de San Sebastian, seu novo trabalho se coloca apenas num segundo escalão de destaques do ano.

Baseando-se livremente na vida de seu irmão, Hansen-Love foca seu olhar na cena eletrônica francesa, que nos anos 90 começou a ganhar destaque (tendo como seu grande nome o Daft Punk). Paul (Félix de Givry) surge nessa época num duo de house-garage, e por meio de capítulos (que constituem 20 anos), o filme traça o perfil de alguém que tentou viver da música, aproximou-se do sucesso, mas não conseguiu solidificar a carreira. O filme vai da empolgação aos amores frustrados, das raves e amizades até os desprazeres provocados por excesso de drogas, as expectativas e decepções maternas. A palavra Eden remete a um “local de prazeres”, e a vida de Paul sempre foi um eden inconsequente, um sonho levado ao extremo do possível.

Do mundo underground, a visão de Hansen-Love é bela, recheada desse contemplativo que equilibra o ritmo das músicas e a “vida loca” da juventude. Com naturalidade, o filme dosa essa equação entre pura agitação e leveza, num travelling de 180º filma  a galera vibrando com o setlist de Paul, a câmera trafega lentamente, os corpos pulam ao ritmo da música, é um conjunto que só fica harmônico no filme. Há outras cenas desse tipo de beleza, a cineasta não parece interessada em ir muito além da cena musical da época, nem mergulhar nas profundezas de Paul, prefere essa posição intermediária de quem observa tudo sem julgamentos.

Filmes de Mia Hansen-Løve aqui na Toca: O Pai das Minhas Filhas | Adeus, Primeiro Amor

Un Amour de Jeunesse (2011 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Dois jovens apaixonados, o mundo é lindo, o universo faz sentido. Sem decepções, vivendo à beira das descobertas, a felicidade latente. Enquanto, a ela, esse amor é tudo na vida. Ele almeja mais, um pássaro querendo fugir da gaiola, descobrir o mundo. Ele parte com amigos a uma viagem na América do Sul, ela sofre, não pode entender como ele precisa mais do que aquele amor pode oferecer. Podemos ter 15, 25, 35 anos, amor é sempre amor, e quando ele vem, tem essa mania de fugir da razão, de ser quase absoluto e capaz de preencher quase todas suas necessidades. Aos 15 anos voce não entende, aos 25 não sabe, depois disso já deveria ter apreendido que ele é parte essencial da sua vida, jamais tudo.

Camille (Lola Créton) é daquelas pessoas que jamais saberá, seu amor por Sullivan (Sebastien Urzendowski) chega ao sufocante. Logo ele, um espírito livre, daqueles que quase não conseguem fincar raízes. Amam-se, se querem, vivem ritmos de vidas tão opostos. A cineasta Mia Hansen-Løve traz o frescor da Nouvelle Vague, narra a história desse primeiro amor, como quem observa, com leveza, o vento soprar em uma árvore. Jamais interfere no melodrama que empaca a vida de Camille, quando as cartas param de chegar a sua caixa de correio, enquanto ele está viajando. Ou quando essa jovem amadurece, vivendo uma nova relação com um de seus professores de arquitetura, vivendo o entusiasmo da profissão, e o equilíbrio no amor.

Até que Sullivan reaparece em sua vida, sempre seremos as mesmas pessoas ou apreendemos com o passar do tempo? Existem mesmo amores mal-resolvidos? Se identificar com a racionalidade de Sullivan ou com o peso que o amor causa em Camille não é tão impossível, e dessa forma, Hansen-Løve está nos tocando, nos fazendo entender personagens, reviver emoções, e até pensar em quão ridículos podemos ser em certas ocasiões. E, acima de tudo, está permitindo que esses personagens fluam por si mesmos, entre alegrias e decepções.

Le Père de Mes Enfants / The Father of My Children (2009 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza
Neste drama familiar de Mia Hansen-Løve, mergulhamos na crise profissional do produtor de cinema Grégoire Canvel (Louis-Do de Lencquesaing). Não só os detalhes das produções, mais intensificamente nos problemas financeiros, em conseguir rolar sua dívida ou conseguir novos empréstimos. Todos, à sua volta, são apenas elementos a intensificar o desespero desse workaholic, parcialmente ausente do lar, do convívio com sua esposa e as três filhas graciosas.

Por meio de cenas cotidianas, Hansen-Løve nos mergulha nessa vida caótica, atribulada, nessa situação que o consome. Chegamos ao ápice, ao limite do suportável. Tempo para uma quebra, sai de foco o pai, o filme assume como protagonista a própria produtora, e principalmente a filha mais velha, adolescente. O tom do filme muda, não o estilo de Hansen-Løve, e sua mão suave, sob uma família em reconstrução, lidando com tantos problemas, as vezes incapaz de soltar as amarras de um peso insuportável. Mais que um filme otimista, Hansen-Løve oferece uma visão realista, onde o drama dá lugar ao cotidiano e as formas para simplesmente lidar com as peças pregadas pelo destino.