Posts com Tag ‘Michael Caine’

Dunkirk (2017 – RU) 

Christopher Nolan e sua grandiloquência atacam novamente. E parafraseando a canção de Gal, o cineasta britânico vem “no céu, no ar, na terra”. É o recordar de uma derrota, mas também de uma vitória histórica. Segunda Guerra Mundial, soldados britânicos e franceses são a cada dia mais encurralados, por tropas alemães. Churchill planeja a retirada das tropas na região de Dunquerque, na França. É Nolan revisitando um fato histórico, sem se afastar de seu estilo que causa tantas contestações e paixões, entre cinéfilos e críticos pelo mundo.

Seja na praia, onde soldados desesperados tentam embarcar nos navios. Seja no ar, onde três caças tentam proteger a retirada das tropas. E seja no mar, onde a batalha pela sobrevivência continua com ataques contínuos dos inimigos, Nolan se cerca do som perturbador de explosões (ou da trilha sonora que insiste em trazer suspense aonde se vê tragédia). O filme exibe o horror da guerra como nunca antes visto, tal a sensação de veracidade, de presença naquela praia, entre tantas imagens belas e chocantes. Tamanha beleza capaz de questionar se suas intenções são a de uma mensagem antibelica, ou fetiche pelo espetáculo.

Nunca veremos um soldado alemão em cena, afinal é a história da retirada de mais de 330 mil homens, e Nolan não nos poupa de momentos de nacionalismo, de sentimentalismo barato. A segunda metade está repleta de momentos em que a eloquência dos atos de heroísmo sobressaem, enquanto a primeira parte funciona como um espetáculo, quase mudo, de reconstituição de ataques contra soldados indefesos, que nada podem além de esperar o ataque mortal. Essa dualidade é prato cheio para criticas, mas é inegável que Nolan leva os filmes de guerra a um outro patamar, sua defesa é pelos indefesos, seja qual for a nacionalidade, seja  qual for o lado em que empunha suas armas na guerra. Não deixa de ser uma extravagancia, mas filma com beleza alguns dos momentos mais hediondos da humanidade, e quando é para fazer espetáculo, Nolan sabe como poucos aproximar o cinema autoral dos Blockbusters, e nisso Dunkirk é inesquecível.

youthYouth (2015 – ITA/FRA/SUI/RU) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Os últimos filmes de Paolo Sorrentino tem clara predileção pela terceira idade. O escritor de A Grande Beleza (que lhe rendeu o Oscar de Filme Estrangeiro), o roqueiro de Aqui é o Meu Lugar, até mesmo o político de Il Divo, estão todos passando pela crise da velhice. A diferença crucial entre estes filmes é a abordagem do cineasta italiano, que a cada vez flerta com o abstrato, o subjetivo. Isso, sem falar em quão pedantes eles se tornam.

Um hotel luxuoso abriga uma série de celebridades, em férias, que tentam se afastar dos holofotes da mídia. Atores e cineastas, músicos, jogadores de futebol, até a Miss Universo se hospeda ali. Os personagens que serão desenvolvidos orbitam a vida do regente Fred Ballinger (Michael Caine). Entre diálogos repletos de “experiências de vida” e imagens superlativas que provocam o contraste entre velhice e juventude, Sorrentino tenta estabelecer a melancolia da idade avançada, enquanto os jovens sofrem por outros tipos de mazelas e arrogâncias.

São tantas imagens plasticamente bonitas, tantas alucinações metafóricas, aliadas os discursos sobre passado ou bom-senso, é tanto que Sorrentino busca poetizar seus fotogramas, que a arrogância de discurso de seu cinema vai chegando a proporções em que ignorá-lo seja o melhor caminho. Parte do público poderá encontrar identificação, mas de modo geral Sorrentino coloca seus filmes num pedestal inalcançável como se assisti-los fosse uma experiência transcendental de clareza da vida.

InterestelarInterstellar (2014 – EUA)  estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Chistopher Nolan não se conteve com dominar Gotham City, ou penetrar nos sonhos e mudar completamente as vidas dos que dormiam, o diretor precisava de mais, o planeta já não era o bastante para sua mente megalomaníaca (palavras de quem gosta de seus filmes, e muito em muitos deles). Nolan partiu para o espaço, a salvação da humanidade em outra galáxia, vamos abandonar a Terra (esgotada) e transferir a humanidade para outra localidade.

Vejo uma mensagem clara em sua Ficção Científica, ele mira em 2001 – Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick, mas o máximo que ele consegue atingir é um episódio, bem longo, e caro, de Doctor Who. A questão verossímel da história, o excesso de explicações para o público médio que só compra o que entende, nem me parecem o maior dos problemas. O filme é fraca dramaturgicamente, começando por como o fazendeiro (Matthew McConaughey) volta a sua vida de astronauta, passando por todo o drama de deixar a família pelo “bem da humanidade”, os ensinamentos de livros de autoajuda do cientista da Nasa. Resumo, o bolo é esburacado, deformado, q beleza gráfica apenas repete Gravidade, mas já perdeu o sabor de novidade.

Dessa forma, essa gigante nave espacial orbita pelos cinemas de forma meio desajeitada, nem tão ruim quanto parecem, porém incapaz de se movimentar, e escapar, da própria teia que o roteiro usa para aprisionar seu público. Tentar emplacar Anne Hathaway no Oscar é quase uma piada de mau gosto, Nolan parece incapaz de domar sua própria ideia, de tão grande que ela se tornou. Depois do espaço, quais as fronteiras que poderão contê-lo?

truquedemestreNow You See Me (2013 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Se David Copperfield fosse parar no cinema, o resultado seria um filme como esse. O diretor Louis Leterrier usa de todas as artimanhas e pirotecnias do cinema (desde efeitos especiais, a roteiros cheios de segredinhos) para criar esse entretenimento pipoca-tamanho-família. Um conjunto de tolices muito bem tramadas por um ritmo narrativo agradável e um grupo grande de atores famosos (Jesse Eisenberg, Isla Fisher, Woody Harrelson, Mark Ruffalo, Mélanie Laurent, Morgan Freeman, Michael Caine, Dave Franco).

Mais tarde a história abusa do “mentir ao público” e aquele show de mágica, misturado com roubo a banco, naufraga na paciência dos que cobram um minimo de coerência. Personagens caricatos, romances óbvios desde a primeira cena, e a transposição do mundo dos ilusionistas para o mundo do cinema, que deixa tudo mais fácil.

The Dark Knight Rises (2012 – EUA) 

Nada na carreira de Christopher Nolan se compara, em grau de grandiosidade, com este terceiro capítulo da saga de Batman (dizem ser o último, mas ficaram tantas questões e possibilidades abertas que fica difícil acreditar que seja mesmo o fim). O tom é de definição, de eloquência, tudo é faraônico. A história recomeça oito anos após o filme anterior, Gotham City (imagino eu nunca foi tão assumidamente NY) se tornou uma cidade pacífica, Batman desapareceu (até por falta de necessidade), o ricaço Bruce Wayne vive recluso.

Intrigas político-economicas e um vilão bombado, Bane (Tom Hardy), são as armas de Nolan para retomar o caos em Gotham. Mas como disse, dessa vez a gradiosidade é ilimitável, guerra civil e explosões por cada canto da cidade são apenas algumas das artimanhas poderosas do filme. A verdade é que o filme tenta não perder o folego, nesse quesito o som (e a trilha) são fatais, criando situações-climax a torto e a direito (principalmente nas revelações finais). Parte do público nem se contém, tamanha vibração.

Ainda há espaço para a sensualidade com Anne Hathaway numa irresistível mulher-gato (por mais que nunca seja batizada assim), e também para sequencias dramáticas exageradas, carregadas, realmente fracas (e nisso, a comparação com o Coringa de Ledger torna ainda mais sofrível tais cenas. Marion Cotilard e Tom Hardy, coitados). O desfecho parecia perfeito, Nolan estava prestes a fazer um golaço, mas peca um pouco depois da explosão-crucial, cria história onde não precisaríamos e perde a oportunidade de fechar com coragem essa trilogia.

Um filme de super-herói que pretende ser “humano”, fora das possibilidades tecnológicas, que deseja acreditar em superação, em insistir no sombrio e apostar na moralidade, Nolan vai muito bem quando enlouquece com cenas de ação impressionantes, e se enrola nos meandros da história.

Voltando à programação normal desse blog após uma viagem de 17 dias pela China!

Sleuth (2007 – EUA) 

Na versão original de 1972 (que adaptava uma peça de teatro), Michael Caine fazia o amante da esposa do escritor que tenta “negociar” o divórcio, para que possa se casar com a ex-mulher do tal escritor (Laurence Oliver). Dessa vez, Michael Caine é o escritor, e Jude Law assume papel do galã, do outro, do cabeleireiro e aprendiz a ator que tenta subir na vida. Se a transposição do teatro ao cinema, dentro do conceito de todo o filme transcorrer na casa do escritor, funciona bem, o filme dirigido por Kenneth Branagh não consegue passar de um exercício de dois atores brincando de atuar. Porque, o texto é frouxo, quase irresponsável com absurdos de um roteiro que deseja ser espertinho. Não vai além do arrogante.

Esse joguinho de gato-e-rato, de vingança e troca de acusações verbais rápidas ainda engana alguém? Não é possível. Com cinco minutos já temos um filme aborrecido, de personagens aborrecidos brincando de impautérios descabidos. Ou, a final, faz algum sentido, um homem ir interceder pelo divórcio de sua namorada, e aceitar um plano ordinário do ex-marido, para conseguir um dinheiro, que nem na proposta parecia tão fácil? Não desceu.

The Prestige (2006 – EUA/RU) 

Brincar com o tempo é um dos passatempos preferidos do cineasta Christopher Nolan. Em seus filmes, freqüentemente os flashbacks são de importância vital, o tempo em idas e vindas, e aqui não é diferente, na história de dois mágicos obcecados. E como foco de sua obsessão, a fama e o poder, colocam-se em segundo plano, em detrimento de uma rixa estabelecida entre Robert Angier (Hugh Jackman) e Alfred Borden (Christian Bale). De aprendizes a oponentes, que não medem esforços para prejudicar ao outro, roubar seus truques e ferir da maneira mais leviana possível. Nolan transforma a mágica numa obsessão compulsiva após um acontecimento mal-explicado leva à morte da esposa de um deles. Família, amor, dinheiro, nada é tão importante quanto a disputa mortal travada pelos promissores mágicos londrinos, nada perdoa nem seus entes queridos Cutter (Michael Caine), Sarah Borden (Rebecca Hall), e a pivô de muita discórdia Olivia Wenscombe (Scarlett Johansson).

Mesmo fazendo de maneira convencional, Nolan sabe impor ação e principalmente dar cadência à sua narrativa, sempre privilegiando roteiros engenhosos e bem arquitetados, o cineasta perde-se na grandiloqüência do próprio roteiro que escorrega feio nos últimos vinte minutos com soluções mirabolantes e outras pouco interessantes. O desejo de sempre oferecer um final inventivo e inesperado nem sempre surte os efeitos desejados, e pode transformar grandes truques em mera formalidade estilística.

The Dark Knight (2008 – EUA) 

Christopher Nolan dirigiu um filme alucinante. O assalto a banco, da primeira cena, é apenas o prefácio de um filme longo, que passa num tiro. Duas horas e meia que não se dá conta que se foram, tamanha agilidade na narrativa e capacidade de entreter. O cineasta britânico esquematizou seu filme em dois alicerces: roteiro e cenas de ação. No roteiro criou uma série de acontecimentos que oferecem ramificações, não só para esse filme, como para suas continuações, explicações para as origens dos vilões, pequenas aparições de vilões anteriores, isso sem perder o foco no homem da vez: Coringa.

Contudo, Gotham está infestada de mafiosos, e surge um promotor incorruptível que pretende colocar atrás das grades os bandidões, eis a figura de Harvey Kent. No meio disso, a continuação tão frágil do caso de amor de Bruce e Rachel, dessa vez um triângulo.

Se o roteiro dá cabo de toda essa série de coisas acontecendo, as seqüencias de ação são realmente eletrizantes, porém Nolan acelera tanto que há cenas em que se torna impossível distinguir o que está acontecendo, é pancadaria deliberada sob a noite sombria de Gotham. Aliada a canastrice cada vez mais exagerada de Christian Bale, temos um terreno completamente livre para Heath Ledger brilhar, e como brilha. Seu Coringa é um debochado, um genioso e astuto ladrão, daqueles que nunca tem nada a perder, e suas idéias infalíveis parecem vindas dos HQ, e dos desenhos infantis que marcaram minha infância. A lentidão no modo de falar, as expressões, Ledger barbarizou. A cena do interrogatório, desde já antológica, coloca todas as cenas de ação no bolso (isso sem falar nele vestido de enfermeira).

Há ainda duas discussões que Nolan teima incessantemente, uma é a discussão do herói, a necessidade da população em ter figuras cristalinas para focar suas esperanças, e essa lenga-lenga cansa. Outro ponto são as bombas colocadas em dois navios que tenta coloca um alento na discussão da alma humana, o egoísmo, e tantos outros valores que, num momento tão “delicado”, como aquele, são colocados a prova de maneira tão leviana, e com um resultado tão clichê.

A verdade é que O Cavaleiro das Trevas é uma epopéia épica inesquecível, um exemplo típico da magnitude que seu cineasta vem tomando, mas cuja interpretação de Ledger torna-se algo tão indescritível e atordoante, que mesmo seus tons exagerados são engolidos pela capacidade de criar sequencias de um exímio apuro técnico.

Batman Begins (2005 – EUA) 

Christopher Nolan reinicia a saga de Batman no cinema, pautando a história sob o medo, conduzindo o super-herói pelo processo de desmistificação de seus pesadelos. A lenga-lenga (para alguns) do início, que compreende a morte dos pais e a fase em que Bruce Wayne aprende artes marciais, e principalmente o processo de autoconhecimento, por mais bem colocada no contexto, chega a ser aborrecedora. Muito da culpa é do próprio Christian Bale, e sua face de canastrão. O rapaz equilibra-se entre o preciso e o não convincente, além de algumas das razões de seu personagem serem inconsistentes. Outra opção de Nolan foi a descentralização do vilão, temos três em níveis diferentes, o Espantalho, que deveria ser o principal, perde terreno para o carismático personagem de Liam Neeson, e por mais aterrorizante que possa parecer deixa o embate derradeiro para o líder da Liga das Sombras na cena do metrô.

A preocupação em rechear o filme com coadjuvantes de luxo tem acertos e exageros, Ken Watanabe entra apenas com seu nome, enquanto Michael Caine esbanja desenvoltura, e um típico humor britânico impagável (que não funciona com outros atores). Katie Holmes é um poço de graciosidade, porém em momento algum o romance com Wayne decola (não por culpa da moça). São essas pequenas coisas que diminuem o impacto do filme que promete reiniciar com sucesso a história cinematográfica do homem-morcego.

No quesito ação, não há nada a se queixar de Nolan. O diretor oferece esse lado extremamente humano de Batman, essa ausência de superpoderes que é substituída por armas mirabolantes, tornando assim o personagem mais próximo do público, quase algo crível. O batmóvel aparece para arrepiar os fãs, com um estilo bem diferente daquele usual, quase um tanque de guerra. As lutas têm cortes bruscos demais, mesmo assim funcionam com precisão milimétrica na arte de entreter. Nolan se notabilizar por ums dos maiores criadoes de entretenimento do cinema atual. O clima dark de toda a narrativa oferece aos morcegos função  chave para o surgimento de Batman, mas pode representar o tom dessa criação autoral de Nolan.