De Canção em Canção

Song to Song (2017 – EUA) 

Atualmente, é possível observar que A Árvore da Vida era o prenuncio da nova fase da carreira de Terrence Malick. Fase esta que testa a paciência de seus fãs, e pouco se esforça em angariar novos. Os três filmes a seguir (Amor Pleno, Cavaleiro de Copas e este novo) quase formam uma obra única, fechada nesse cinema sensorial, de narração em off com frases edificantes, enquanto a câmera baila por enquadramentos que buscam a intimidade máxima e elegante de corpos que se encontram ou que refletem o vazio.

Amor Pleno tinha o triângulo amoroso e a dor, já o Cavaleiro de Copas é ainda mais próximo que esse novo filme, ali um escritor (Christian Bale) vivia de festas luxuosas, sexo farto e grandes vazios. Malick mergulha seus personagens em Austin, o berço da cultura indie americana. Todos os personagens ligados a festival de rock, formando dois triângulos amorosos. Mesmo com a tendência de explorar a classe artística, não se nota em Malick a preocupação sua critica sobre o vazio existencial, a vida de luxos e luxúrias. Não, Malick parece mesmo sensibilizado pelo amor, pelas relações pessoais vindas do amor e do sexo. Além da separação, a dor, a reconciliação, o desprezo e a dependência. E seus filmes flutuam, sempre com as narrações em off que traduzem sentimentos, enquanto tentam ensinar (elucidar) ao público. Em todo esse contexto, surgem algumas cenas lindas, mas não deixa de ser um cinema cansado e circular.

Alient: Covenant

Alien: Covenant (2017 – EUA)

Realmente deve ser tentador ser o criador, ver seu filho (filme) explodir e tornar vida própria, e anos mais tarde retomar o projeto para contar as “origens”. Afinal, de onde surgiu o “oitavo passageiro” daquele Alien que, em 1979, arrepiou o público num dos melhores sci-fi horror do cinema? Prometheus marcou o retorno de Ridley Scott à franquia que catapultou seu nome, e Covenant é outra tentativa sua de retomar aquele sucesso arrebatador.

E não foi dessa vez, e talvez não ocorra mais. Ridley Scott mudou muito nesses quase quarenta anos, sua filmografia é bem eclética, mas se acostumou mesmo com os grandiosos e frágeis épicos de ação, como Robin Hood e Cruzada. Sua problematização sobre criador x criatura, máquina x humanidade, a perfeição, traz uma lenga-lenga muito aquém daquele show de suspense, imagens tão crus e ângulos de câmera tão inovadores (aspectos marcantes de Alien, o Oitavo Passageiro, que é seu segundo longa-metragem).

Temos de interessante a ideia de astronautas em casal, em busca de um planeta a colonizar. A intersecção com Prometheus se dá no planeta onde vão parar, exatamente onde estava o ciborgue interpretado por Michael Fassbender no capítulo anterior. O filme mais se parece com um Godzila ou Jurassic Park espacial, bem genérico, que carrega a áurea daquele Alien que causava tantos calafrios. Scott precisa tornar tudo grandioso, épico, dai sua necessidade de problematizar a questão da Criação, desembocando nos trinta minutos finais de tantas explicações e reviravoltas clichês.

Steve Jobs

stevejobsSteve Jobs (2015 – EUA/RU) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Espaço tão curto de tempo e tantos documentários e filmes de ficção sobre Steve Jobs, fica difícil oferecer o novo ao público que tão bem já conhece fatos e personagens dessa biografia. Essa nova abordagem é calcada num tripé, em três nomes: Michael Fassbender, Danny Boyle e Aaron Sorkin. E é o roteirista Sorkin a presença mais marcante, afinal a arquitetura meticulosa desse roteiro é a espinha dorsal de tudo.

Sem contextualizar, o filme ocorre em três momentos importantes de Jobs (Fassbender), minutos antes do lançamento de três produtos. Nos encontros nos bastidores se desenvolve todos os elementos dramáticos da vida de Jobs, encontros com amigos (Seth Rogen e Michael Stuhlbarg) que ajudaram a fundar a Apple, ou com a mulher (Katherin Waterson) cuja filha ele não quer assumir a paternidade, oou com o CEO (Jeff Daniels) que ele contratou. Sempre com a fiel escudeira, conselheira, secretária de luxo, Kate Winslet, cuidando dos detalhes da apresentação, do temperamento perfeccionista e maquinal emocionalmente de Jobs.

De tão preso a essa estrutura, que lembra muito esses bastidores de Birdman, com encontros tão coreogrados e personagem em constante movimento, a fórmula fica desgastada rapidamente. É uma ideia criativa para encurtar o tempo de contar a história, só que a disciplina de Boyle, que usa alguns pequenos flashback’s para o mínimo de contextualização necessária, acaba se tornando seu maior empecilho. A estrutura deixa o filme artificial, repetitivo, e excessivamente verborrágico.

A figura do anti-herói humanizado pelo arco dramático da relação com a filha, enquanto seus destemperos no trato profissional o tornam num monstro cuja “genialidade” ajudou a construir como mito. Que tenhamos um fôlego antes que sua biografia seja revisitada, muito menos sem essas sacadinhas falsamente não-emotivos, que Boyle tenta nos pregar.

 

Macbeth: Ambição e Guerra

macbeth-ambicao-e-guerraMacbeth (2015 – Reino Unido) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A versão do australiano Justin Kurzel (que ficou conhecido por Os Crimes de Snowtown), para o célebre personagem de Shakespeare vagueia entre o sereno e o pedante. O tom de definitivo se estabelece mais forte com os inúmeros planos fechados, feições de dor ou sujas de sangue, suor e terra. A fotografia de um cinza inebriante enquanto o inglês rebuscado dá o tom desse retrato de destruição pela ambição. De solidário militar a traidor do rei via visão (ou manipulação) de bruxas que anteviram a ascenção e queda de Macbeth.

E o filme é isso, a trama transcorre sobre a sede e a loucura, a transformação causada pelo fascínio do poder. Sempre em planos milimetricamente planejados, de um quê artístico, mas também vigoroso, que se ancora nessa personificação de Michael Fassbender como um deus da interpretação em possibilidades tridimendionais que o teatro não confere. Principalmente nas cenas de luta, que conseguem o interessante efeito de brutalidade, mesmo em câmera lenta. Kurzel tentando gerar o definitivo, ainda que seu resultado final seja bem sufocante e interessante.

Frank

frankFrank (2014 – IRL) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Há a quantia exata de estranho e pop necessária para uma banda despertar interesse via youtube, até ir parar no SXSW para tocar. Esse tal indie, desconexo, e ainda assim cativantemente pop. E há ainda o vocalista, Frank (Michael Fassbender) que não mostra o rosto, ao invés disso usa uma cabeça de boneco gigante, 24h/dia.

O filme dirigido por Lenny Abrahamson é, e não é, sobre a nova cena do rock, a relação sucesso x mídias sociais. O filme é sobre seus personagens, e eles passam um tempo, numa casa de campo, para gravar seu primeiro, e experimental disco. O jovem tecladista Jon (Domhall Gleeson) caiu de paraquedas ali, Sua veia nerd-pop não combina com o restante doa grupo, principalmente com a irritadiça (Maggie Gyllenhaal), mas Frank tem esse dom, quase pueril, de aglutinar pessoas, com uma doçura que não encaixa com o tipo de som que produz.

O roteiro é baseado em experiências vividas pelo próprio roteirista, Jon seria um ater-ego seu. Prefiro achar que o mote central não é Frank, pois sua perturbação mental tiraria o brilho do que há de melhor, e sim Jon e seu amadurecimento, as transformações. Porque é impressionante como ele é esnobado por todos, e ainda assim consegue trilhar os caminhos da banda até o SXSW, culminando com os desfechos de cada um dos integrantes. Frank carrega o peso da liderança, do excêntrico, mas é Jon quem dialoga com o novo público, mesmo se a ele falte o mais importante: talento musical.

X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido

X_Men_Days_Future_PastX-men: Days of Future Past (2014 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

O filme anterior preparava o caminho e este tem o enredo necessário para o reboot da franquia, e com isso a garantia de mais alguns filmes e muita bilheteria. Porém, se aquele vinha carregado de uma jovialidade oriunda dos jovens mutantes se descobrindo, e se unindo. O novo filme, com o retorno na direção de Bryan Singer, vem com o peso de um Os Vingadores (sem o humor, aquela farofa toda).

Os X-Men sempre carregaram o peso de um teor político, o embate entre mutantes e humanos. Professor Xavier (James McAvoy ou Patrick Stewart) pregando a paz e vida harmônica na Terra, enquanto Magneto (Michael Fassbender ou Ian McKelen) a luta. Recorrer a história HQ que traz viagem no tempo, leva Wolverine (Hugh Jackman) aos anos setenta. Singer é cuidado em ambientar a história do tempo, e esse cuidado são os méritos mais interessantes.

Além do cuidado técnico, o que se vê em cena é a perda das principais qualidades do filme anterior, o peso do drama cede espaço a um tom carregado, personagens desperdiçados dentro de um quarto, e o desperdício de reunir o elenco das duas gerações de X-Men. O reencontro dos 2 atores de Xavier, por exemplo, traz a cena mais constrangedora do filme. O momento anos 70 se desenvolve, enquanto o atual é mero trampolim, a fórmula não funciona bem enquanto Wolverine e os heróis rejuvenescidos tentam salvar os mutantes das poderosas sentinelas. Virou apenas mais um filme de heróis, com seus poderes, e uma abafada sensação de que o encontro de épocas poderia criar cenas épicas.

12 Anos de Escravidão

12anosdeescravidao12 Years a Slave (EUA – 2013) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Entristece um pouco pensar que Steve McQueen, um dos cineastas mais intrigantes da recente safra de novos diretores, vá ganhar o Oscar com o filme mais “convencional” de sua curta carreira. Este é apenas o terceiro longa. Favorito absoluto na corrida deste ano ao “careca dourado”, porém por mais consistente e fabuloso que seja seu filme, ficou de lado aquela perturbação de seus trabalhos anteriores em prol de uma história justa.

Porque, afinal, este é um daqueles filmes que precisavam ser filmados, uma daqueles histórias que precisavam ser contadas, e toda aquela ladainha blasé. Trata-se da biografia de um homem (cuja trajetória representa a de inúmeros outros à época). Um negro livre (Chiwetel Ejiofor), sequestrado e escravizado, durante 12 anos. Tempo suficiente para McQueen transpassar às telas toda a indignação com a escravidão.

12anosdeescravidao_2Injustiças, açoites e humilhações, qualquer sabe o que esperar dessa história. Capatazes impiedosos, fazendeiros sádicos (Michael Fassbender), todo e qualquer tipo de abuso nas relações raciais. A narrativa de McQueen é densa, sóbria, consistente. Aliada o tradicional ao seco, mesmo os momentos mais dramáticos tem ausência do melodrama, retrato estéril do estilo do cineasta. Por exemplo, na grande cena do filme, as chibatas no tronco, são de uma agressividade impar, o corte do corpo, o jorrar do sangue, impressiona mais o exercício cirúrgico do que a novela de um homem sofrendo todas as dores do mundo.