Posts com Tag ‘Michael Haneke’

Happy End (2017 – AUS) 

O novo retrato de Michael Haneke da sociedade europeia, através de uma família disfuncional burguesa, não apresenta nenhum avanço em sua filmografia. O título (um sacarmo sintomático para quem conhece sua obra) carrega a ironia básica que sempre ousou pela ousadia com que provoca o estômago do público. Dessa vez, cai no cansaço de uma fórmula de personagens problemáticos e provocações mordazes.

No centro uma garota que precisa passar um tempo com o pai, encontra uma famila que só permanece pelas aparenças. Haneke tenta se adaptar às novas tecnologias, há presença forte das redes sociais, tela na vertical para imitar um celular, e outras artimanhas. Mas, o problema do filme está mesmo nessas relações ácidas e no sabor, pretensamente amargo, com que Haneke tenta enxergar toda a sociedade europeia capitalista. Beirando quase a ingenuidade, Haneke está anos luz além de toda sua filmografia.


Festival: Cannes

Mostra: Competição Principal

osetimocontinenteDer Siebente Kontinent (1989 – AUT) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Ainda não sei em sua fase televisiva, mas, desde sua estreia nos cinema (com este filme), seus casais de protagonista sempre se chamam Anna e George, se eles têm uma filha, sem nome é Evi. Michael Haneke é assim, método, calculista, um engenheiro capaz de comandar as emoções do público, de forma discreta, e um tanto sádica.

A ideia veio de um artigo de jornal. Haneke filma um casal (Birgit Doll e Dieter Berner) austríaco, de classe-média, entediante. Empregos estáveis e rendas confortáveis, uma linda e doce filha. Ao dar importância de protagonista a cada objeto em cena (a mesa do café, o aquário, o relógio, a placa do carro, Haneke encontra o incomodo que sempre instaura na plateia. Como também, traz o foco para além dos personagens, como se tudo fizesse parte do todo, de forma igualitária.

Cansados daquela vida, ausente de emoções, eles planejam se mudar (destino Austrália, referencia ao título, um mito de sol e felicidade para os europeus). Nesse ponto que toda atmosfera criada por Haneke faz sentido, os minutos finais são angustiantes, é nítido o que vem pela frente, mesmo que os olhos não queiram acreditar. A tv como último refúgio é apenas um dos questionamentos.

amour_emmanuellerivaAmour (2012 – AUT/FRA)

Michael Haneke mostra o rigor de sempre, talvez mais conservador que seu normal, ainda mais meticuloso no tom de sua direção precisa e carregada. Por mais que uma história de amor, de um casal de terceira idade, toda narrada em tom de despedida, não pareça fazer parte do universo do diretor, o estilo de Haneke está impregnado em cada frame.

O casal inerpretado por Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva, principalmente ele, dá show. Ela sofre um derrame, ele resume sua vida a cuidar da esposa, preenche todos os espaços, sufoca até a filha do casal (Isabelle Huppert). O filme narra a beleza da dedicação ao outro, as poucas cenas resumem o dia-a-dia de pequenas tarefas, sempre com a ausência total de emoção que é tão cara a Haneke. Sai o sentimentalismo, entra a beleza dessa dedicação desgastante, que nos cativa mesmo pela frieza do cinema de Haneke, que se não parece inspirado, consegue dialogar melhor com um público bem maior que o seu habitual.

O Castelo

Publicado: dezembro 14, 2012 em Cinema
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ocasteloDas Schloß (1997 – AUS/ALE)

Adaptação do livro homônimo e inacabado de Franz Kafka parece perfeito para o universo criado pela obra de Michael Haneke. Um agrimensor (Ulrich Mühe) chega a um vilarejo após ter aceitado uma proposta de emprego. Lá encontra o Castelo, um local secreto que administra o vilarejo, onde a população não pode entrar sem permissão prévia, um verdadeiro mistério embastecido por uma burocracia intransponível.

As barreiras e meandros que o impossibilitam de entrar no Castelo também o mantém longe da atividade ao qual fora contratado, tudo surge inexplicável, as condições são apenas impostas ao agrimensor que passa a viver naquela sociedade de maneira heterogênea, porém profunda. Tudo não soa como absurdo? Como alguém é contratado e não lhe é permitido realizar o trabalho e nem entrar em contato com quem o contratou e quem o proibiu? Qual a força da burocracia nisso tudo?

Como sempre Haneke só levanta questionamentos, seus cortes secos, as sequencias sem glamour, o sexo no chão de um bar, a bagunça inimaginável de um memorando entre milhares de papéis jogados no chão da sala de um dos administradores do Castelo. Se Haneke questiona, nunca será Kafka o que dará respostas, o cineasta segue a linha do incomodo (mesmo que não haja violência), aqui a violência é social no absurdo cerceamento dos direitos de um homem que não se torna escravo de ninguém, mas escravo do sistema.

codigodesconhecidoCode Inconnu: Récit Incomplet de Divers Voyages (2000 – FRA/ALE/ROM)  estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Estava louco para rever Cachê, após assistir Código Desconhecido não me contive e no dia seguinte corri ao cinema. No meu entender esse filme serviu como esboço para que Michael Haneke desenvolve-se aquela que seria sua obra-prima (Cachê). Há algumas semelhanças, parte delas são marcas do estilo próprio do cineasta, outras não são tão gratuitas. E não é só do tema que estou falando, ressalto a incompreensão presente nos personagens (ou melhor, na vida humana), a estante cheia de livros no apartamento de Anne, seu modo de se vestir. Desde pequenas coisas às obsessões de Haneke.

Por me parecer um esboço, o filme tornar-se-ia, plausivamente, irregular (sem procurar desculpas para suas falhas). Quando se fala em fragmentos, falamos em pedaços de histórias, em pequenos esquetes sem começo, sem fim que acabam ligadas, de alguma forma, ao contexto geral.

As principais cenas do filme foram filmadas em longos takes sem cortes, a xenofobia está escancarada em cada uma dessas pequenas histórias que se entrecruzam. É no primeiro longo plano-seqüência que os personagens principais interagem, há um garoto que fugiu do sítio que morava com o pai, procura a namorada de seu irmão, quer refúgio. Ela (Anne) é atenciosa, mas deixa claro que ele não pode ficar, se despedem. Irritado o garoto joga um papel amassado numa mendiga (imigrante romena), um rapaz negro traz o garoto pelo pescoço a fim de obrigá-lo a desculpar-se pelo insulto causado.

Temos ainda um jovem francês, um negro e um imigrante, e o incômodo que eles causam. Os comerciantes querem se livrar da mulher mendigando, e o garoto negro, que almejava justiça e respeito, se torna o bode expiatório que vai parar na delegacia.

Temos a incompreensão entre raças, faltava a guerra. Georges (o namorado de Anne) é fotografo de guerra, vive nos perigos do front, presenciando o horror daquela estupidez. Uma discussão com uma amiga que não entende o porquê desse trabalho, quem estaria interessado em ver tais horrores, qual o intuito?

Haneke se põe na pele de Georges, defende o seu cinema. A imigrante é deportada, mas prefere mentir e voltar a Paris a ficar em seu país, mendigando consegue ajudar mais sua família. Chega de contar a trama, ela é toda marcada por pequenas situações, conversas, discussões, pseudo-explosões emocionais, tudo voltado para a incompreensão em diversas formas. A violência está presente o tempo todo, a xenofobia, o ódio, o interesse próprio, o egoísmo e o egocentrismo, Haneke monta um quebra-cabeças torto, mas suas peças são claras e objetivas. O Código Desconhecido a que se refere é esse código de conduta que não está escrito em livro nenhum, em lei nenhuma, mas é seguido por toda a sociedade, devorando o próximo. E se depois de tudo isso, você também achar que o filme é irregular, lembre-se, há Juliette Binoche, e ela dispensa comentários.

aprofessoradepianoLa Pianiste (2001 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Explosivamente contido. Estranha essa expressão, não? Desconexa, antagônica. Assista com atenção especial à interpretação de Isabelle Huppert e tire suas conclusões. A atriz parece implodir a cada segundo. Ao mundo é fria, contida, seca. Dentro de si explosiva, inflamada, impetuosa. Dona de uma capacidade nata de transmitir emoções, ou a ausência delas. Ela não é o filme, é maior que ele.

Uma recatada professora de piano morando com sua possessiva, capaz de controlar todos os horários, os gastos e até os assuntos da filha. Dentro dessa vida tediosa, a quarentona encontrou uma solitária válvula de escape para fugir de sua realidade, frequentar cinemas pornôs, cabines eróticas e outros ambientes excessivamente masculinos, válvula de escape para extravasar sua sexualidade, seus instintos de voyeur, e traços masoquistas.

Até encontrar um jovem que descaradamente demonstra-se interessado nela, seu comportamento esnobe não afasta o rapaz. Seus instintos sexuais libertam-se, suas fantasias ganham a possibilidade de ser realizadas. Paixão, o desejo, os jogos sexuais, dá se início de uma relação sem precedentes, sem limites, participantes à deriva.

Michael Haneke faz uma negação ao romance, um relacionamento desapegado completamente ao romantismo. Focado nos desejos sexuais, em toda a repressão sexual pela qual passava essa mulher solitária, forte por fora e insegura por dentro. Discutir a posição e os limites até onde podem chegar, homens e mulheres, no assunto sexo, é apenas uma das variantes. O comportamento aparentemente “masculino” de Erika assusta não só Walter (Benoît Magimel), como o público.

Seu ar de dominadora, as exigências e fantasias, atitudes completamente fora do padrão “feminino”. A professora perde-se entre seus desejos e o amor, demonstra-se incoerente a si própria. A atmosfera criada por Haneke, a maneira “classuda” como constrói a trama, a relação sexo/personalidade introvertida, há algo a se pensar nisso tudo, a se discutir: há direitos iguais entre homens e mulheres quando se fala em sexo? Os homens estão preparados para assumir um papel diferente do que se espera na relação sexual?

Por outro lado Haneke desfila sua mise-en-scène, os planos longos, posicionados milimetricamente, guardam distancia para nos colocar com distanciamento, porém presentes no cenário. O cineasta não só constrói sua atmosfera, como representa-a em sua maneira de filmar, o poder da imagem extrapola rumos, conceitos e ideais. Cada cena nos sufoca, de uma forma cada vez mais densa. As marcas registradas de Haneke fazem com que surjam sensações diferentes, estamos sendo sempre surpreendidos pelo depois, pela respiração ofegante, a frustração após atos e diálogos, o que acontece após o ato principal. Há alguns planos geniais, o filme é um conjunto de planos geniais, principalmente a última meia-hora. E quando você começa a identificar várias características-obsessões do diretor, apreciar o todo fica melhor ainda.