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Hacker

Publicado: julho 29, 2015 em Cinema
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hackerBlackhat (2015 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O insucesso de seu lançamento nos EUA jogou o filme diretor para home vídeo no Brasil, mesmo tendo Chris Hemsworth encabeçando o elenco. Soa muito como uma variação de Miami Vice, desde o romance do protagonista com uma oriental (aqui Tang Wei), e mais principalmente nas obsessões mais latentes de Michael Mann. Troca-se a quadrilha de tráfico de drogas por hackers, as metralhadoras dividem espaço com vírus e notebooks.

Mann não é adepto de roteiros elaborados, seus thrillers são carregados de emoção pela atmosfera, ou pela própria angustia dos personagens. Aqui, não é diferente, a estrutura simplificada (hacker caçando as pistas de onde está outro hacker) está disfarçada pela caçada global, os policiais e as discussões sobre jurisdicação mundial. Se o roteiro é essa formalidade no cinema de Mann, e sua forma de filmar é o vislumbre de seus adeptos, Hacker me parece menos inspirado. A proximidade com Miami Vice, as peripécias exageradas de um hacker (esse nerd brutamontes metralhando inimigos), nem são a problemática.

A tentativa de mergulhar no mundo dos bytes, sinais luminosos invadindo os mainframes, ainda não se acertou nos filmes de crimes cibernéticos. Mann fica no meio-fio, nem tão técnico (nos assuntos da informática), e nem tão explícito na solidão que afronta seus personagens. Ainda filma cenas de tiroteiros, como poucos, mas Blackhat parece um filme mais bruto na ação, claro no romance, mais próximo de um trabalho típico do gênero.

miamiviceMiami Vice (2006 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Confesso que na época do lançamento, por total falta de desconhecimento da carreira de Michael Mann, boicotei categoricamente o filme. Era a fase de um tsunami de seriados dos anos 80 voltando ao cinema, uma adaptação mais caça-níquel que a outra. Mas o caso era diferente, aliás, bem diferente. Só os passos finais da maratona, com os filmes de Mann, para contextualizar melhor o filme, a filmografia, e os novos rumos tomados.

Mann entrou o novo século inspirando nova fase, com Ali (biografia do boxeador Muhammed Ali) o cineasta dava sinais de preferir retratar mais o biografado, e menos sua história. A narrativa é fragmentada, como se fossem pequenos conjuntos de cenas, cada uma de uma época, não necessariamente preocupadas em contextualizar o público de tudo. Se fazia, muito mais, de trazer o público para sentir Ali. Em Colateral, ele retoma o filme policial, a noite prateadas, o ritmo suntuoso, cadenciado. Muito charme.

O seriado oitentista era obra sua, não é a primeira vez que Mann revisita sua carreira (o próprio refilmou seu telefilme L.A. Takedown, se tornando o sensacional Fogo Contra Fogo), e unificando características de seus dois filmes anteriores, Mann reinventa as possibilidades do gênero. Há os policiais (Colin Farrel e Jamie Foxx), os traficantes (Luis Tosar), as armas e perseguições, o plot que daria um típico episódio do seriado, e a mulher sensual (Gong Li) que um dos protagonistas irá se apaixonar (Farrel). Mesmo com todas essas características, o filme em nada se parece com um thriller policial. A suave desconexão, os enquadramentos oblíquos, diálogos suprimidos pelo entrosamento.

É um filme hipnótico, a noite volta a ser protagonista, e as imagens noturnas panorâmicas que jamais se viu em tamanha beleza. A lancha, os olhares, eles flutuam pelos fotogramas, causando essa hipnose de charme. O roteiro já não é tão importante, o detalhismo de Michael Mann descobre outras formas de explorar suas obsessões. Os corpos não são filmados com a fluidez e leveza de Kar-Wai, mas com uma brutalidade genuína, em planos nem tão fechados, ainda assim invasores.  Mann olha para seus trabalhos passados e quer fazer melhor, é um perfeccionista, mas, acima de tudo, um cineasta que segue desbravando trilhas inexploradas, dando a seus filmes charme próprio.

oinformanteThe Insider (1999 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Um filme sobre grandes corporações e seu poder além das leis, o lobby das grandes indústrias de tabaco, a falta de lisura da imprensa quando atingem seus interesses comerciais. Tenho essa impressão, de que você não entendeu nada do filme, se acredita que são estes seus temas. Uma impressão ofensiva, a bem da verdade, mas o filme de Michael Mann se apresenta tão rico em camadas que tornar as subtramas complementares seria como torná-lo um drama moral e quadradinho.

Há um embate forte entre dois personagens complexos: o executivo (Russel Crowe) e o jornalista (Al Pacino). Cada um deles carrega sua carga ética, e seus interesses próprios. Por isso que, mesmo jogando do mesmo lado (se é que se pode dizer isso), há tantas cenas de embate entre eles. Discussões, acusações e argumentações. No fundo eles querem a mesma coisa, a entrevista bombástica que traria a tona verdades da saúde pública. Porém, há meandros, interesses e desconfianças, A relação de confiança parece prestes a ser quebrada, e o jogo é este, mantê-la inquebrável.

O jogo de tribunais entre corporações envolve tabagistas e jornalistas, Mann tem esse poder de manter as coisas grandes como subtramas imprescindíveis, mas de dar valor as pequenas relações (afinal, são elas que perfazem os acontecimentos). Seja as discussões entre jornalistas (nisso, afigura de Christopher Plummer é essencial), seja no peso da situação financeira confortável ruir frente as verdades que o executivo demitido estaria prestes a expor. Mann cria o clima exasperante, o suspense em sua forma mais acolhedora e claustrofóbica, pelo âmbito psicológico. Tudo tão imperfeito quanto real, tão eloquente quanto assustador. Nos planos fechados na casa do jornalista, ou nos planos abertos que amplificam o poder da dúvida do executivo, tudo tão pensando, quanto milimetricamente realizado para ser esse filme que te sufoca a ponto de não ser mais tão importante a tal verdade, e sim os mecanismos que marcam os bastidores de uma matéria polêmica.

fogocontrafogoHeat (1995 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Tenho essa leitura de que o gênero “filme policial” veio ocupar a lacuna deixada pelo Western. Espécie de atualização do gênero para esse novo ambiente urbano que se formou com o desenvolvimento. Eles continuam durões, empunhando armas, normalmente em caçadas entre vilões e o mocinho. Nesse critério de western atualizado, Fogo Contra Fogo nasceu clássico. Michael demorou anos entre o primeiro roteiro que escreveu, e finalmente filmá-lo a contento. Tentou que outro diretor encabeçasse o projeto (quando seu nome ainda não tinha o peso), tentou tranformá-lo numa série de tv (dessa ideia saiu L.A Takedown), e finalmente voltou ao proeto, com orçamento e dois dos maiores astros: Al Pacino e Rober DeNiro.

A trama foi baseada numa história real, um policial de Chicago, nos anos 60, que viveu uma caçada contra um criminoso meticuloso. Em quase três horas, Michael Mann é meticuloso em construir a relação de rivalidade/admiração entre policial (Pacino) e chefe da quadrilha (DeNiro). Lados opostos, personagens que se assemelham, seja na solidão, seja na adrenalina de perigo que os contamina, ou na integridade de sua integridade.

fogocontrafogo2Como uma panela com água no fogo, a fervura com que o policial aproxima-se na caçada de seu alvo torna o filme um labirinto que encurrala a quadrilha, enquanto isso, suas vidas seguem. Cada um deles tem seus laços afetivos: mulheres, filhos, família. As vidas não param no tempo, seguem simultaneamente, e Mann dá cabo dessa teia de relações complexas e problemática com alguns destes personagens. Dessa forma desenvolve frentes, constrói camadas e mais camadas, são mágoas e frustrações. Casamentos se acabando, outros em crise, amores surgindo. A vida náo para, as inventigações seguem, os planos de um novo assalto também.

A elegância com que filma a cidade: noturna, as luzes. A explosão que o policial carrega em sua vida (a cena em que ele leva a tv embora, por exemplo), são pequenos peticos deixados por Mann, enquanto prepara o público para as grandes cenas, tiroteios e perseguições em que o cineasta destila seu estilo, alucina com essa elegância transformada numa violência romântica. Cenas de tirar o fôlego, e ainda tão plasticamente bem planejadas, O embate num café, o plano e contra-plano, cada um desvendando seu oponente, o assalto ao banco e as perseguição nos minutos finais. O novo western, um clássico desde sua concepção.

cacadordeassassinosManhunter (1986 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Num daqueles hiatos inexplicáveis, me dei conta que mal conhecia a carreira de Michael Mann. Rapidamente já corrigindo essa falha, me deparo com o primeiro filme lançado com o serial killer Dr. Hannibal Lecktor (Brian Cox). O filme é o mesmo que mais tarde foi refilmado como Dragão Vermelho, e facilmente percebe-se semelhanças físicas na interpretação de Cox e Hopkins. Mann é um cineasta virtuoso, que vai além dos gêneros, seu filme tem reconhecíveis assinaturas autorais (principalmente a elegância).

Intrigante a força de Lecktor, ele não aparece do que mais que duas cenas, é um serial killer preso cujo policial (William Petersen) que o prendeu busca ajuda para entender outro serial killer à solta. Mesmo com poucos minutos em cena, Lecktor se coloca tão vilão quanto o assassino principal, é figura-chave na trama. O clima de tensão é o mesmo que da famosa trilogia com Hopkins, tudo com a elegância de Mann e a atmosfera do cinema dos anos oitenta. Michael Mann é o cara diferenciado que realiza filmes que podem agradam seletos grupos ou grande parte do público.

condenadoavitoriaThe Jericho Mile (1979 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Folsom Prison serviu como cenário para o primeiro telefilme dirigido por Michael Mann. O cineasta demonstra interesse nas relações entre gangues, as quais são divididas por etnias (negros, brancos, mexicanos). O protagonista, Murphy (Peter Strauss), corre pelo pátio da prisão, ao som empolgante de Sympathy for the Devil (Rolling Stones), sem um rumo definido, apenas pelo prazer de correr. Os enquadramentos e cortes se repetem, nos pés, em plano geral, ou nas gangues que assistem o corredor solitário. Enquanto Murphy se destaca, a ponto de se discutir a possibilidade dele competir nas Olimpíadas, a prisão permanece sob as regras de convivência internas, do tráfico à violência como forma de dominação.

Esses dois momentos se relacionam, é quando Mann aproxima o lirismo e o ritmo contagiante, com o retrato duro da violência. Desde seu primeiro filme, por meio de personagens que primam pela veracidade das escolhas, pelo mundo fora-da-lei, sinais de um estilo que seria personificado em seus trabalhos no cinema. O final é belíssimo numa espécie de rito da liberdade do indivíduo, mesmo para quem cumpre pena perpétua.

Não, infelizmente não estou na Lido de Veneza cobrindo o festival de cinema. É uma pena. Estou retomando a ideia que havia planejado para um blog próprio, porém achei melhor incorporar na Toca. A ideia é simples, acompanhar a repercussão da imprensa sobre os filmes que estão em Veneza (foco na mostra competitiva, pequenos highlights). Como em Cannes a ideia foi bem aceita, vamos seguir com a brincadeira (até porque faço isso, estou só dividindo as minhas pesquisas). Algo como Os Links do Dia, especificamente sobre Veneza.

O pontapé inicial veio com Mira Nair num filme fora da competição. Ok que ela tenha algum prestígio com parte do público, e que ganhou o Festival há alguns anos (Casamento à Indiana), ainda assim parece um nome fraco para uma seleção que tem Mallick, de Palma e PTA (entre outros). O juri desta edição será presidido por Michael Mann.

‘The Reluctant Fundamentalist’ traz o 11 de Setembro, paquistaneses, fundamentalismo islâmico e capitalismo americano, já se pode imaginar o que vem por aí. A recepção não foi nada animadora, assim como os últimos filmes de Mira Nair não tem agradado, como principal estrela o filme é encabeçado por Kate Hudson.

Críticas: The Guardian – In-Contention – Carta Capital – Hollywood Reporter

Termômetro: pé atrás

‘Stories We Tell’ foi destaque nesse primeiro dia. O documentário de Sarah Polley, explorando histórias de sua própria família (pai, mãe), parte das imagens captadas com uma câmera super-8 enquanto divide com o mundo um grande segredo pessoal. Peter Bradshaw do The Guardian foi um que amou o filme.

Críticas: The Guardian – The Playlist Digital Journal

Termômetro: de olho