Posts com Tag ‘Michael Shannon’

The Shape of Water (2017 – EUA) 

O novo conto de fadas de Guillermo del Toro é romântico, da voz aos marginalizados, é bastante ousado sexualmente, algumas horas divertido, em outras canastrão com seus vilões. A atmosfera de O Labirinto do Fauno é transferida para um laboratório militar dos EUA em plena Guerra Fria. Espiões soviéticos infiltrados e um estranho anfíbio capturado das águas do Amazonas são as obsessões militares da base.

Nasce a improvável história de amor entre o monstro e uma faxineira muda, del Toro toma todos os cuidados com o tom romântico: da graça e leveza de Sally Hawkins, quase em hipnose, à trilha sonora aconchegante e a beleza com que a fotografia escura e de tons pesados (muito verde musgo) oferece num contraste entre sentimentos e ambientes.

O romance está lá, assim como todo o vilanismo da cúpula militar (Michael Shannon) em caricatura, violência e cegueira. Personagens periféricos são pouco desenvolvidos para que o romance comova, ainda que sempre envolto nesse universo da beleza impossível e dos marginalizados buscando seu espaço para encontrar sua felicidade.


Festival: Veneza

Mostra: Competição Principal

Prêmio: Leão de Ouro – Melhor Filme

desconhecidaComplete Unkown (2016 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Rachel Weisz tem esse ar enigmático que poucos tem aproveitado no cinema. Wong Kar-Wai usou seu lado triunfante numa cena de My Blueberry Nights em que a atriz entra pelo bar e todos assistem petrificados. O diretor Joshua Marston tinha a faca, o queijo, e até a goiabada nas mãos para desenvolver ainda melhor esse lado mistério que Weisz expressa naturalmente.

Sua personagem é uma mulher misteriosa, uma bióloga que de repente aparece na festa de aniversário de Tom (Michael Shannon), de mera desconhecida, a culpada por reascender a chama de um esquecido passado, num jogo de mentiras e múltiplas personalidades.

Não fosse a evidente limitação criativa de Marston, o leque de possibilidades que o filme/personagem oferecem poderia desembocar num apetitoso reinicio do jogo (que a cena da dupla com Kathy Bates e Danny Glover deixa apenas um gostinho no ar). Ao contrário, o filme afinal caminha para uma resolução mais fácil, preguiçosa e conservadora.

Nocturnal Animals (2016 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Elogiado e premiado na última edição do Festival de Veneza, o estilista de moda, Tom Ford, volta aos cinemas para seu segundo longa-metragem. De cara uma provocação ao mundo onde construiu sua carreira, num primeiro momento, mas que pode ser interpretada de maneira bem mais ampla. Mulheres obesas, dançando nuas, com alegria que modelos magérrimas fariam, expondo seus corpos sem pudores, numa galeria de arte burguesa.

Esse é o mundo profissional de Susan (Amy Adams), tão gélido e elegante quanto os planos que Ford usa e abusa (lindos, porém desnecessárias, frios quando queria ser tão quentes). Com esses planos frios que o cineasta tenta criar o universo sentimental de Susan, a decepção tanto amorosa, quanto profissional, e a estranha sensação de proximidade com o ex-marido (Jake Gyllenhaal) que acaba de lhe enviar seu recém-acabado primeiro romance.

A narrativa se divide, o passado e o presente de Susan se misturam à narrativa da história que o livro trata (uma família brutalmente agredida e violentada numa estrada vazia). O roteiro busca paralelos, de todo modo quer provocar sua protagonista, levar sua autoestima ainda mais ao chão, enquanto isso encena cenas de tensão e violência. Flerta com os últimos filmes de Denis Villeneuve, e cria um desengonçado arquétipo de um filme que tenta ser ácido e definitivo. O todo é de um caos didático que mesmo abusando dos planos fechados e melancólicos de Amy Adams, Tom Ford passa longe de se colocar na posição do cineasta que ele acredita ter se tornado.

midnightspecialMidnight Special (2015 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Na tv, o ano de 2016 já foi marcado pela série Stranger Things e todas suas referências (que viraram até piada) a famosos filmes dos anos 80 (ET, Goonies e outros). Porém, antes mesmo da série do Netflix fazer sucesso, Jeff Nichols lançava no festival de Berlim sua nova parceria com Michael Shannon, em temática parecida a toda essas referências.

Confesso que Nichols tem sido alvo de algumas decepções, seus filmes geram enorme expectativa e o resultado não tem respondido a toda a expectativa criada. E, dessa vez, a distância entre esperado x resultado foi ainda maior. Vejamos se Loving (seu novo filme que figura postulante a indicações ao Oscar) seja diferente.

Na trama, já entramos diretamente no jogo de gato e rato, um pai (Shannon) tentando proteger seu filho, a todo custo, de uma estranha seita religiosa e do próprio FBI. O garoto usa um óculo que cobre seus olhos, sem eles um estranho raio de luz sai de seus olhos. Entre as peças do quebra-cabeças, que lentamente começa a fazer sentido, a presença extraterrestre se torna cada vez mais evidente, porém sem a mística que os filmes dos anos 80 possuíam. Não se cria identidade nenhuma com personagens, resta uma perseguição que o cinema já apresentou versões mais inspiradas.

amorpordireitoFreeheld (2015 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Outro daqueles casos de bonitas e comoventes histórias que no cinema se tornam melodramas pegajosos. A aposta era alta com um elenco tão renomado, mas o filme dirigido pelo pouco conhecido Peter Sollet é apenas outro draminha para conquistar plateias fáceis.

A história é simples, clama por justiça quando um casal lésbico (Julianne Moore e Elen Page) compram briga com vereadores de um pequeno Condado pela igualdade de tratamento de pensão, quando uma deles está prestes a morrer de câncer. Cria-se um palanque onde os famosos atores tem suas aparições para defender a justiça, beirando um filme de tribunal. Enquanto isso, Moore se entrega ao trabalho de maquiagem que a deixa cada vez mais caquética. Não há nada de dramaturgia ou cinematográfico que se possa aproveitar, além da história que está sendo encenada.

TheIcemanThe Iceman (2012 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A história verídica de Richard Kuklinski (Michael Shannon), um assassino de aluguel trabalhando para máfia. O filme dirigido por Ariel Vromen, e com a presença de um elenco repleto de nomes de peso, nunca consegue sair do lugar-comum de filmes de mafiosos frios, que mantêm sua “profissão” às escondidas da família.

Vromen aposta na interpretação de Michael Shannon e na constante repetição de diferentes tipos de morte. A impossibilidade de sair da inércia na direção condena o filme a uma charmosa reconstituição das décadas entre 60 e 80, e a frieza que tornou Kuklinski notório, um assassino de centenas de encomendas.

homemdeacoMan of Steel (2013 – EUA) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

O povo que veio de Krypton gosta de quebrar uma vidraça. É um empurra-empurra frenético, com vidros dos prédios quebrando por toda Metrópolis (Manhattan, não?). Senti falta mesmo foi da kryptonita, do romance acontecendo naturalmente, dos segredos e do Clark Kent (Henry Cavill) de óculos no dia-a-dia jornalístico. Até da cabine telefônica senti falta. Para algumas dessas questões, o roteiro encontra novas soluções, porém a essência é realmente outra.

A história do homem de aço dirigida por Zack Snyder, como no trailer dava sinais, ganha os contornos definitivos da última fase dos filmes de Terrence Malick. Como se cada momento fosse único, o foco em detalhes que tornam a vida do Super-homem suprema, magnífica, um deus. A trilha sonora vai além até, busca algo épico no melhor estilo Senhor dos Anéis, é tudo grandioso, definitivo, estamos diante do filme dos filmes, do herói dos heróis.

Sobra muita coisa patética, principalmente nas aparições dos dois pais de Clark (Russel Crowe e Kevin Costner). Porém, não é exclusividade deles, só olhá-lo de capa na sala de interrogatório, ou gritando contra o vilão (Michael Shannon) por ter atacado sua mãe, momentos constrangedoras não faltam. E os jornalistas do Planeta Diário então, Laurence Fishburne até relembra seus momentos de Matrix.

A trama tenta se concentrar no conflito de ser alguém tão diferente do restante dos humanos, a busca pelo autoconhecimento, pelo controle de seus poderes, e o se encontrar na vida. Por isso, Clark na adolescência vive as mesmas rebeldias que nós, prefere ser nômade, até a chegada dos visitantes indesejados, até ser descoberto por Lois Lane (Amy Adams) e se tornar o herói mundial. Enquanto trilha esse caminho, desperdiça a chance de conquistar o público, dando lugar ao perfeccionismo impressionante dos efeitos especiais, e um ego inflado do tamanho da força do homem de aço que segura uma estação perfuradora de petróleo, mas não quer matar uma mosca.