Posts com Tag ‘Michel Franco’

Nova Ordem

Publicado: março 7, 2021 em Cinema, Mostra SP
Tags:,

Nueva Orden / New Order (2020 – MEX)

O novo filme do sempre polêmico Michel Franco segue a escrita. Violência, humilhações, não faltam explorações de cenas chocantes nessa criação de um México distópico onde eclode uma série de protestos violentos, doentes são expulsos de hospitais pelos protestantes, o resultado é o exército assumir o controle e ir muito além do toque de recolher.

Propor reflexões ou criar um cenário e explorar a partir dele o que seriam suas consequências? Franco prefere essa opção visual, prefere a brutalidade, opção exploratória de pobres e ricos oprimidos pela Nova Ordem. O diálogo é direto com o avanço global da extrema direita, tornando exageradas questões como corrupção do sistema, imposição da intolerância acima das liberdades. Por outro lado, há doses de uma anarquia, completamente oposta ao conceito da militarização, de cada um querer seu ganho, é a individualização dos interesses e da sobrevivência. Além da violência enxergo ecos de um encontro de Conto de Aia e Ensaio sobre a Cegueira, mas óbvio que Franco só se aproveita desses conceitos para criar um caos onde a desigualdade social é mantida, mas o medo se torna o sentimento geral.

chronicChronic ( 2015 – MEX) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O segredo do roteiro, premiado na última edição de Cannes, é de oferecer detalhes de David (Tim Roth) de forma gradativa, para que o público só consiga compreende-lo melhor quando já estiver bem familiarizado com ele. Enfermeiro especializado em doentes terminais, David é tão dedicado que não parecer ter vida própria além do trabalho.

É outro típico trabalho de Michel Franco, em meio de seus longos planos fixos, o cineasta mexicano apresenta a miséria humana da situação. Explora, pacientemente, e sadicamente, os momentos íntimos dos pacientes (banhos e todo tipo de excreções), enquanto demonstra a indiferença, e sentido de obrigação, dos familiares para com os pacientes.

Franco explora momentos que quase ninguém quer ver, assim como seus filmes anteriores (Daniel e Ana, Depois de Lúcia), o indigesto como fio condutor. Para, paulatinamente, adentrar a vida pessoal e compreender os dramas de David. Poderia ser piegas e bonito, mas não, Franco está sempre em busca do choque entre imagem e reação do público, em causar afastamento, e assim conduz outro de seus filmes rumo à frieza que lhe é peculiar.

Depois de Lucia

Publicado: março 14, 2013 em Cinema
Tags:,

despoisdelucia

Después de Lucía (2012 – MEX) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A cruzada de Michel Franco é contra temas que alcancem o limite do revirar o estômago. Vai muito além do que Haneke, nesse quesito. Porém, seu objeto de observação é o cotidiano, abalado por situações grotescas. Sua profundidade é apenas a dor, o sofrimento. E também, do como lidar dentro desse mundo contemporâneo e tecnológico.

A sequencia inicial já nos deixa boquiabertos, o motorista tira o carro do mecânico, dirige por uma avenida, e de repete para. Na pista do meio, sem mais nem menos, desce e larga as chaves. Com nossa curiosidade aguçada, ele narra a relação de uma garota com seu pai, e os novos amigos de escola, após a recente morte da mãe e mudança de cidade.

Franco entra no mundo dos vídeos da internet, da juventude descobrindo drogas e sexo, e cria um jogo macabro de abuso, por quem detém algo que voce não deseja que ninguém veja. Mas até onde vai o limite desse poder? O quanto se pode suportar calado os maustratos? Franco filma os abusos, um pior do que o outro, mostra a juventude dominada por seus próprios líderes, incapaz de se rebalar temendo represálias. A força narrativa do cineasta controla exatamente o que ele pretende apresentar, é também um manipulador nato, e obriga que seu público tenha estômago.

danieleanaDaniel & Ana (2009 – MEX) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Um casal de irmãos ricos é sequestrado. Não há pedido de resgaste, nem mesmo um longo cativeiro. O interesse dos seqüestradores é especialmente bizarro. Eles obrigam os irmãos a praticar sexo frente às câmeras. A premissa é exatamente essa, dura, direta, chocante (a cena da filmagem é acachapante, de sensualidade inexistente, de asco gritante).

O cineasta Michel Franco, vencedor do Camera D’or, trata de uma história real (segundo os créditos tratada exatamente como ocorreu, apenas os nomes foram trocados), e por incrível que pareça, o filme serve como uma denuncia de casos que se repetem mundo a fora (que tipo de pervertido se interessaria por um filme desse naipe?). Sem um discurso panfletário, sempre câmera fixa, e normalmente planos abertos, dando exata e aterrorizante dimensão de espaço (seja dentro da casa da família, seja no carro, ou nas ruas da cidade). Chega a sensação, em alguns momentos, das paredes se moverem, tamanha sensação de estranheza e pavor que os irmãos sentem.

Na trama, Ana (Marimar Veja) e Daniel (Dario Yazbek Bernal), eram muito unidos até então. Ela preparando-se para seu casamento, e ele um garoto sociável, descobrindo o sexo com sua namorada. Após o incidente, não conseguem demonstrar nada além de silêncio, introspecção e perturbação. Todo esse desconsolo pode ser notado a cada olhar vago, a cada movimento desanimado e sem perspectiva dos atores. A vida segue, para eles parece que não. Pessoas marcadas como gado, sentimentos corrompidos, e o choque por tamanha brutalidade e falta de escrúpulos por um crime tão desalmado.