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Tokyo!

Publicado: junho 24, 2009 em Cinema
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Tokyo! (2008 – FRA/JAP/ALE/COR) 

Por mais antagônica que possa ser a união entre as histórias (Merde, um ser asqueroso em nada se equivale à delicadeza do rapaz se apaixonando pela entregadora de pizza, por exemplo) há sim muita unidade nos estilos de direção que se complementam, na fotografia de tons vivos e vibrantes. E, por mais que o dedo de cada diretor esteja presente em seu trabalho, há esse flerte com o fantástico, com o bizarro, e nesse quadro geral Tokyo é sim um filme uniforme.

Três visões da metrópole nipônica, três inserções dentro da loucura de uma megalópole que engole seus habitantes. Em Interior Design, Michel Gondry recorre ao HQ para contar a vida de um casal em busca de novas perspectivas em Tóquio. Passando alguns dias de favor no cubículo de uma amiga, e a jovem sem conseguir emprego sente-se a cada dia mais inútil até chegar ao ponto de transformar-se numa cadeira. A visão de Gondry é delicada e divertida, tanto pelo aspirante a cineasta, quanto pela anfitriã enfrentando a falta de liberdade, culminando na esposa degradando sua alma numa sucessão de insucessos (desemprego, carro guinchado, dificuldades em reaver os equipamentos do marido).

Desde o primeiro instante é escatológica a história de Leos Carax, o Sr. Merde sai do esgoto da cidade com sua barba ruiva, sua roupa verde e os olhos esbugalhados e leitosos. Comendo dinheiro, fumando, atacando as pessoas, o “monstro do esgoto” aterroriza a população enquanto caminha livremente pelas calçadas até esconder-se num bueiro. Carax acompanha em planos sequências todas a selvageria cometida por Merde, até que o mesmo é preso. Surge então outra figura esquizofrênica, um advogado francês (que mais parece pai de Merde) e apresenta-se como sendo o único a traduzir as palavras do monstro. Seria Merde um francês no Japão livre para agir da forma como gostariam os franceses? Sem papas nas línguas, ele solta o verbo, diz odiar os japoneses e a bizarrice não para nem após a condenação.

Num ritmo oposto surge Shaking Tokyo, abordando os hikikomori’s, espécie de japoneses na faixa dos trinta anos que vivem enclausurados em casa, sustentados pelos pais, comunicando-se com o mundo via telefone ou internet (e viva o delivery). Em seu mais brilhante trabalho, Bong Joon-ho trata dessa Tóquio introvertida, nesse romance sutil (que facilmente tornar-se-ia um longa), entre este homem enclausurado, que de repente apaixona-se por uma linda entregadora de pizza. Motivado pela paixão, o enclausurado cria coragem para sair de casa, após dez anos longe das ruas (a cena em que ele tenta tirar a bicicleta do meio das plantas é sacal).

rebobineporfavorBe Kind Rewind (2008 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

O novo filme de Michel Gondry não deixa de ser uma divertida, e histérica, homenagem ao cinema. De início alguns diálogos absurdos, arestas para todos os lados, e os sinais de comédia escrachada que perdurarão até o fim (e serão o que há de melhor). Não importam os meios, o relevante é que dois amigos buscam uma solução urgente para o vhs do filme Os Caça-Fantasmas, que, inexplicavelmente (quer dizer, a explicação está no filme, por mais inverossímil posa ser) perdeu seu conteúdo.

Decidem então, eles mesmos gravarem o filme, às pressas, do-jeito-que-sair-saiu, e terminam por transformar uma locadora à beira da falência, num sucesso estrondoso com as tais fitas suecadas (resumindo, versões gravadas de maneira tosca pelos dois amigos). Imaginem Jack Black e Mos Def num momento Ed Wood, regravando Robocop, Conduzindo Miss Daisy, ou A Hora do Rush. Tipo de filme que pouco importam os desdobramentos, queremos mesmo é nos divertir, e o final, parodiando Cinema Paradiso, encerra essa grande comédia de forma bela e emocionante.

brilhoeternodeumamentesemlembrancasEternal Sunshine of the Spotless Mind (2004 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Definitivamente ele está na moda, foi rápido que Charlie Kaufman se tornou um dos nomes mais bem quistos no momento. Com seus roteiros inventivos, originais e que transformam um filme num complicado jogo de quebra-cabeças para o público, caiu nas graças de uma indústria que pouco espaço dá a quem foge da cartilha. Suas amalucadas histórias, escapando das fórmulas prontas, são a nova vedete do público fã de ser guiado (conduzido) por roteiros cheios de sacadas. Aqui, o roteirista volta a trabalhar com o diretor Michel Gondry em mais uma trama com suas marcas registradas.

A trama vem do romance envolvendo o introvertido Joel (Jim Carey) e a espevitada e impulsiva Clementine (Kate Winslet), que como ela mesmo gosta de dizer, muda de personalidade ao mudar a cor do cabelo. A clínica Lacuna descobriu uma maneira de apagar lembranças indesejáveis das pessoas. Desapontada com o andamento de seu relacionamento, Clementine decide apagar Joel de sua memória. Ao descobrir, um Joel amargurado se propõe a fazer o mesmo, mas no meio do processo arrepende-se. Para que Clementine não seja apagada, Joel tenta encontrar um lugar em sua mente para escondê-la, uma corrida frenética dentro de sua memória.

Entre tantas artimanhas, Kaufman quase tenta esconder que se trata de uma comédia romântica. Nos momentos cruciais, nas cenas em que o puro sentimento (o amor, eterno combustível do gênero) precisa ser evidenciado, a história naufraga. Falta o essencial e sobram dois atores competentes em seus personagens. Na eterna tentativa de fugir dos clichês, o roteiro derrapa em suas invenções e nas esquecíveis histórias de seus coadjuvantes. Grande parte do problema está no própria dupla direção-roteiro, que, se por um lado mostra suas armas antes do tempo e não consegue embalar no apelo amoroso, por outro encontra inusitadas e deliciosas saídas para completar sua história de maneira divertida. É um filme de uma ideia linda, amplamente romântica, e que funciona perfeitamente bem em separado ao todo. Mas, o peso de carregar com humor, de ter uma grande sacada a cada nova sequencia, é sempre um fardo que a abundância criativa quer dar conta e se distancia do harmônico. Será que Kaufman traz um prestígio parecido ao que Woody Allen oferecia no passado? Afinal tantos coadjuvantes de luxo que parece que todos querem trabalhar num filme dele.