Posts com Tag ‘Michel Piccoli’

aguerraacabouLa Guerre est Finie (1966 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Na forma mais próxima do que Alain Resnais chegara de um cinema narrativo convencional, aliando-se do que é chamado cinema político. O filme não deixa de ser sobre membros ativistas do partido comunista espanhol, refugiados na França, durante o governo franquista. Mas, no meio das discussões politicas, da militância e dos perigos das entradas clandestinas, passaportes falsos e etc, está um homem (Yves Montand) que, ao mesmo tempo, entrega-se a seus ideais, se apaixona por uma mulher, e viver a indecisão da angustia que as escolhas perfazem.

Não, não espere um drama romântico, tais nuances apenas dão peso a conflitante consciência desse homem de ideias, de uma luta justa e perigosa. Charme que cega, sua Espanha ainda clama pelo tipo de militância a qual ele deu sua vida? As perguntas se tornam cada vez mais conflitantes, a clandestinidade como força de afastar-se da realidade. Qual guerra acabou? A guerra contra a ditadura, ou a sua própria guerra particular? Contra quem realmente luta Diego Mora?

abelaintriganteLa Belle Noiseuse (1991 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Sempre ouvi que era o grande filme de Jacques Rivette, em que uma mulher, escultural, ficava quatro horas nua em cena. E que o filme era só isso, e que era maravilhoso. Sim, o filme tem quatro horas de duração, e em pelo menos metade dele Emmanuelle Béart, em pelo, dá o ar da graça, como modelo para um pintor (Michel Piccoli). Ele tenta resgatar sua obra-prima, e finalmente entregar ao mundo sua Bela Intrigante.

São horas de trabalho, a jovem exposta em posições impostas, por vezes de maneira até violenta, pelo pintor que tenta encontrar inspiração para retratar a majestade daquele corpo. Mas, o filme de Rivette não é exatamente sobre essa relação pintor x modelo, nem mesmo sobre a arte de pintar, o processo. Seu filme é sobre montagem, ou, mais precisamente sobre a arte do “corte”. Filmes que fogem ao padrão do lugar-comum, normalmente vão ao encontro de uma precisão na arte da edição. Planos longos, curtos, eles dão o verdadeiro tom do filme, e Rivette parece aqui reverenciar essa característica tão técnica, e tão artística.

O corte é mais que preciso, ele é um personagem, a relação do pintor com sua esposa, ou da modelo com seu namorado, assim como os demais coadjuvantes, que circundam a história, enquanto os dois passam horas e horas trancados no ateliê, simplesmente pintando. Rivette encontra essa maneira de homenagear o trabalho artesão de um pintor, o processo como um todo, sem transformar aquela mulher deslumbrante num tronco, ou num abajur. E tudo isso se dá pelo corte, o tempo apurado de cada cena, longo e desgastantes, porém necessários.

vocesaindanaoviramnadaVous N’Avez Encore Rien Vu (2012 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

O altamente teatral, Alains Resnais, retoma esse diálogo entre palcos e cinema. Dessa vez coloca em cena uma versão de Eurídice, e usa alguns dos maiores atores franceses para contracenar e se integrarem a um grupo de jovens. O mote é simplesmente genial, a forma como Resnais encontra para reunir esse elenco (Sabine Azéma, Michel Piccoli, Mathieu Amalric, Lambert Wilson, Pierre Arditi, e Anne Consigny, a lista é extensa) e fechar a trama, é simplesmente sensacional.

Mas, o filme é mesmo sobre essa representação da peça, e os atores veteranos (utilizam seus próprios nomes) interpretam com um misto de carinho e paixão, ternura oriunda de um pedido especial de um grande amigo dramaturgo (Denis Podalydès). A história de amor de Eurídice e Orfeu, o jogo que mistura a projeção do grupo teatral e os veteranos que não resistem a simplesmente assistir, e voltam a atuar os papéis que viveram há muitos anos. Resnais traz vigor, sintetiza teatro e cinema, e realiza assim um dos melhores filmes do ano.

Habemus Papam (2011 – ITA)

A idéia de Nanni Moretti foi genial para uma comédia, um papa que ao ser escolhido entra em crise existencial. Mote perfeito para a entrada de um psicólogo (o próprio Moretti) no Vaticano, combustível para sátiras, provocações e humor requintado (“então é aqui que são guardados os remédios que não chegam a Roma”). A situação se estende, o papa parte numa busca por suas memórias, por identificação e autoconhecimento, enquanto o psicólogo socializa com os cardeais, promove inimagináveis torneios esportivos (imagine os velhinhos jogando vôlei dentro do Vaticano, começa divertido, mas passa do ponto. Aliás, o filme todo é cercado de aspectos esportivos, logo no começo os cardeais se encaminham para a votação de escolha e as famosas cores das fumaças e um jornalista tenta os entrevistar como se fossem jogadores de futebol chegando no estádio perfilados a caminho do vestiário).

Passada a genialidade da idéia, o filme se divide nesse psicólogo que parece saído de um filme de Woody Allen obcecado por torneios absurdos, e do peso do drama pessoal do papa (Michel Piccoli) que parece carregar a dor do mundo em suas costas, explosivo (e até mal-educado) querendo encontrar no teatro algum alento para sua vida. Nanni Moretti perde a mão, o drama se torna aborrecido (e não convence), a sátira passa do ponto, e ficamos com o gosto daquele adoçante que começa doce e termina com um gosto meio amargo na boca pelo resto do dia (amargo não, apenas decepcionante).

odesprezoO Desprezo (Le Mépris, 1963 – FRA/ITA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Um olhar é determinante. Brigitte Bardot, o spoder do desprezo, do título, está intimamente condensado em alguns dos olhares desferidos por aquele rosto fatal e angelical. Todo o conjunto de traços perfeitos, e estonteantes, a nos deixar embasbacados, como crianças admiradas por tamanha formosura, estão na verdade apenas nos distraindo para que a seguir sejamos estilhaçados pelo poder do desprezo contido naqueles olhos.

O primeiro plano nos insere no cinema dentro do cinema, uma câmera fixa filma um travelling de uma mulher caminhando em nossa direção, enquanto um narrador cita os créditos iniciais, e a seqüência termina com a câmera filmando a câmera. Depois, um corte. Camille (Brigitte Bardot) deitada na cama, de bruços. Completamente nua, a pouco terminara de fazer amor com o marido, e naquele instante estão os dois ali, a contemplar-se, a trocar palavras. Ele diz qualquer coisa, ela pergunta se ele gosta de seus joelhos, de suas coxas, de suas nádegas (oh, que nádegas). A imagem desliza lentamente pela pele dourada, pelo corpo perfeito, pela graça com que Camille passa os momentos pós-êxtase com o marido.

O filme mal começou e Jean-Luc Godard já nos causou paixão às duas coisas que o roteirista Paul Javal (Michel Piccoli) irá perder no decorrer do filme, o cinema e a esposa. Um arrogante produtor americano (Jack Palance) contratou Fritz Lang (o próprio em pessoa) para transpor às telas a Odisséia de Homero. Não contente com o material exibido, contrata o Paul para reescrever o roteiro, um simples trabalho e uma boa grana para quitar o apartamento, uma mudança estrutural na vida.

Não compartilho totalmente dos caminhos femininos sugeridos pela história (adaptação do romance de Alberto Moravia), uma visão um tanto mal-intencionada da mulher. A tradutora é um joguete do patrão, e ainda recebe carícias de Paul como se toda mulher fosse esse objeto libidinoso masculino. As mulheres vendem-se sem pudores, deixam de lados sentimentos por dinheiro, entregam-se ao mais repugnante dos homens e o único fascínio é o financeiro.

Mas o tom machista não diminui momentos como a longa discussão no apartamento do casal, onde em poucas horas expõem-se uma enormidade de desgastes e desprazeres pessoais. Inseguranças, desconforto, mágoa, enquanto decidem sobre o jantar, a viagem ou não a Capri, realmente aceitar o trabalho de roteirista, reformar o apartamento e quem vai ao banho primeiro. Tem-se um desfile de sentimentos trancafiados, prestes a emergir naquele matrimônio. O princípio do fim, o nascimento do desprezo. E ali descobri aquele olhar inebriante que Brigitte Bardot desferiu sem pudor e piedade, dói no peito.