Posts com Tag ‘Michelangelo Antonioni’

Professione: Reporter (1975 – ITA/FRA) 

A recém-encerrada Mostra com filmes de Michelangelo Antonioni (exibida nos CCBB’s e Cinesesc) foi uma grande oportunidade de (re) descobrir um dos maiores cineastas italianos. E para não passar em branco pelo blog, escrevo aqui um pouco sobre Profissão: repórter, que quase, foi quase, superou Depois Daquele Beijo (Blow-up) como favorito em sua filmografia.

Em muitos dos seus principais filmes, Michelangelo Antonioni propunha a experiência cinematográfica por completo, através de uma imersão mais profunda do que propriamente no roteiro. Tempos mortos, imagens reflexivas, como se fossem um respiro entre o virar de uma página e outra, numa espécie de literatura cinematográfica. Aqui um jornalista (Jack Nicholson) na África, troca de identidade com a de um outro viajante. Gosta da brincadeira, mergulha totalmente nessa nova identidade.

Não importa o que veio antes na vida do jornalista, e nem mesmo o que virá depois. Somos apenas testemunhas desse caminho que Locke percorre agora, uma espécie de traficante de armas, vagando pelo deserto ou voltando a sua casa na Europa. E, desse caminho, Antonioni esbanja a arte da linguagem do cinema como forma de narrativa entre som e imagem. Planos abertos, cortes, enquadramentos inesperados, som e imagem em tempos diferentes até se fundiram no mesmo momento, e o genial e engenhoso plano-sequencia final, todos elementos que costuram esse fiapo de trama, que alguns podem achar chata, outros contundente, mas que, no fundo, se coloca apenas como artifício para Antonioni modernizar essa entidade que chamamos cinema.

Anúncios

anoiteLa Notte (1961 – ITA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

À tarde, a visita a um amigo hospitalizado. Pequenos sinais do desgaste matrimonial, os 10 anos de vida juntos pesam numa relação quase resumida apenas como convívio. Na segunda parte da Trilogia da Incomunicabilidade, o clássico de Michelangelo Antonioni parte de uma premissa simples, um dia na vida dessa casal, dia este encerrado com uma festa, numa mansão, na alta sociedade de Milão.

No mesmo ano, Alain Resnais lançava O Ano Passado em Marienbad, em escalas diferentes, porém ambos se apresentam numa desdramatização narrativa Anotinioni é mais retilíneo na história, carregam sempre o drama para a impossibilidade de comunicação calcada nas cicatrizes diárias de um relacionamento, é mais duro e menos poético que Resnais.

O escritor (Marcello Mastroianni) de sucesso, e a esposa (Jeanne Moureau) encontra na mansão o resumo de suas decepções e necessidades de liberdade, até mesmo toques de vingança, muito mais trazidas pelos comportamentos dos parceiros. Eis que entra em cena a filha (Monica Vitti) do industrial, dono da mansão, jovem, arisca, geniosa. Ela representa a total libertação, a rebeldia pelo conforto financeiro familiar. Naturalmente nascem jogos comportamentais, a comunicação nebulosa, a decepção, o peso do matrimônio numa noite em que os limites são reconsiderados, e um relacionamento é colocado na tênue linha de sua salvação ou naufrágio.

 Blow Up (1966 – ING) 

Fotos aparentemente insignificantes, quando ampliadas revelam um possível assassinato. A trama corre basicamente por esse ponto. Quer saber, deixe de lado toda essa história, porque ela demonstra-se insípida, evasiva, em alguns pontos até mesmo absurda. O filme não é sobre isso, não se trata de um suspense sobre quem ou por que alguém foi assassinado. Nem mesmo a possível paranóia tomando conta do fotógrafo Thomas Thomas (David Hemmings) é capaz de nos instigar.

Michelangelo Antonioni nos oferece um explosivo e estiloso retrato da década de sessenta, a relação juventude x arte. Olhadas separadamente, algumas seqüências podem parecer completamente deslocadas, mas essa década de libertação não foi assim deslocada? Festas ilimitadas, sexo livre, apresentações musicais inflamadas, pintura, fotografia. Todos esses mundos estão lá, e Thomas desfila por cada um deles. Toda seqüência da apresentação da banda The Yardbirds é Antonioni tirando uma fotografia da década.

Já de início, temos a sessão de fotos com a modelo naquele irresistível modelito preto, o fotógrafo delirando, contagiando a moça, a busca pelo melhor ângulo, no final da sessão os corpos estão um sob o outro, quase realizando o ato sexual. É um momento de tirar o fôlego. O prestigiado fotógrafo Thomas será nosso chefe de cerimônias nessa viagem pelos anos sessenta, roupas, cabelos, desejos, teremos amostras de tudo que marcou aqueles anos inesquecíveis.

Mas não podemos nos esquecer que há toda a história das ampliações, do assassinato, e ao misturar a efervescência da época, ao calor da trama, temos um dos filmes mais inventivos e flamejantes, Antonioni partindo para um caminho diferente de sua filmografia, em muitos aspectos, mas que enlouquece seu público por esse senso criativo em resumir a efervescência, através do conto escrito por Julio Cortazar.

 

oabismodeumsonhoLo Sceicco Bianco (1952 – ITA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Era apenas o segundo filme dirigido por Federico Fellini, o primeiro em que estava sozinho na função. “Um sonho é um abismo fatal” é a máxima exposta no final do filme, e que Fellini, e o co-roteirista Michelangelo Antonioni, buscam provar. Os recém-casados Ivan (Leopoldo Trieste) e Wanda (Brunella Bovo) chegam a Roma para desfrutarem da lua-de-mel. Os planos estão todos anotados na caderneta de Ivan. Seu tio virá pegá-los no hotel, pela manhã. Depois a visitação da cidade ,incluindo alguns pontos turísticos, até mesmo um encontro com o Papa está marcado. Wanda está muito mais preocupada com um outro endereço em particular, a ingênua moça pretende realizar seu grande sonho de conhecer o Sheik Branco (Alberto Sordi).

O tal Sheik Branco é um personagem de uma fotonovela. Wanda é fã incondicional do ator, a ponto de escrever-lhe cartas melosas com a singela assinatura de Boneca Apaixonada. Conhecer todos os atores, que ela acompanha pelos jornais, causa tamanha excitação, que a jovem despista o marido para uma rápida saída. Levada pela emoção de finalmente conhecer seu ídolo, ela perde a noção do tempo e da vida, e parte, com o elenco, para um cenário distante do centro de Roma.

Sempre com muitos toques de humor, em Wanda está estampada a perda da ilusão, a descoberta que aquele mundo fantasiado em sua mente não existe. Enquanto Ivan sofre, das tripas coração, para não sujar o nome da família, onde já se viu uma esposa desaparecer na noite de núpcias? O encontro homogêneo de humor e drama está concentrado em Leopoldo Trieste, seu personagem atrapalhado e apaixonado cativa com humor, e ainda consegue representar toda a crise que enfrenta naquele estranho dia. Nele está contida a arrogância do homem-chefe-de-família e que mesmo sendo um romântico inveterado, não pode permitir que sua honra seja suja. Alberto Sordi traz humor, mas de um modo caricato, Trieste parece muito mais espontâneo. De maneira leve, Fellini acerta exatamente onde mirou, dando os primeiros passos de sua brilhante carreira.