Posts com Tag ‘Nadav Lapid’

The Kindergarten Teacher (2018 – EUA) 

Remake americanos de filmes estrangeiros sofrem quase sempre na comparação, porque resgatam a história, nem sempre o melhor do cinema que havia. Esse é o caso desse trabalho da diretora Sara Colangelo, homônimo do filme israelense de Nadav Lapid, sobre a professora que se torna tão maravilhada pela poesia precoce de um seus alunos, que a admiração se torna obsessão.

A trama é a mesma, o pai ausente, a professora que ama poesia e o garoto que solta versos, mas só quer ser uma criança normal e brincar, quando possível. O filme traz o incômodo através dos comportamentos da professora, que algumas vezes ultrapassa a irresponsabilidade. O peso da cultura está em seus discursos aos filhos, a babá do garoto, a todos a sua volta. E acompanhamos, passo-a-passo, o desequilíbrio gerado por sua compulsividade em notar e intensificar um possível dom precoce. É bem possível acompanhar, com interesse, o desenrolar desse relacionamento, tentar compreender as fragilidades dessa mulher madura, enquanto Colangelo busca a visão intimista e delicada, mas fica bem aquém do que Lapid oferecia com o filme original.

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Policeman

Publicado: agosto 12, 2015 em Cinema
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policemanHa-Shoter / Policeman (2011 – ISR) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Foi na última Mostra SP que descobri o cineasta Nadav Lapid, com o longa A Professora do Jardim da Infância. Imediata necessidade em buscar outros trabalhos. Sua carreira guarda um média-metragem, um documentário, e este longa-metragem antecessor ao exibido no festival paulistano. Lapid chega com a força de quem resgata nova vida ao drama do povo judeu e as questões que assombram Israel. Político sim, porém de forma obtusa e urgente, sofisticada e pungente.

Da vida de um grupo de policiais de elite, a um outro grupo, de jovens, idealistas e responsáveis. Ambos israelenses, judeus. Lapid parte da gravidez da esposa de um dos policiais. A nova vida que se aproximada, a expectativa do primeiro filho. Drama antagônico que vive o pai que descobre que o filho está prestes a cometer um ataque, uma loucura, que pode lhe custar a vida.

Até que o filme junte esses dois grupos, e fica claro, desde o início, onde será o ponto de intersecção, Lapid documenta os passos cotidianos, o idealismo, as aspirações e inspirações, até mesmo os códigos de ética. A fraternidade e a revolta, sem deixar de ser político, em momento algum, Lapid oxigena os mesmos conceitos e obsessões de um cinema que sente a urgência de explorar a nítida aflição de seu povo. Com novo ânimo e virtuosidade fílmica, surge um novo cineasta capaz de sutilezas e contundência, de profundidade e inquietação através de uma assinatura autoral e particular.

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Menor quantidade de problemas com atrasos, cancelamento de filmes e etc (ainda houveram, é bem verdade). Um belo leque de clássicos recheando uma programação que destacou boa parte dos principais filmes que estiveram presentes nos grandes festivais de 2014. A Mostra SP volta a recuperar seu prestígio, filas, sessões lotadas. Foi a melhor edição após a opção pelo ineditismo. Ainda falta muitas coisas, o pecado mais grave continua sendo a Central da Mostra, ter que se deslocar fisicamente, quanto os que tem pacote deveriam escolher seus filmes via internet, sem dores de cabeça.

Foi a Mostra da eleição Dilma x Aécio, da propaganda da Folha vaiada em inúmeras sessões, foi a Mostra da retrospectiva de Pedro Almodóvar (que não veio ao evento), da falta de água em São Paulo. Dos filmes russos de ácida crítica à política, de confirmação da boa edição de Cannes 2014. Uma edição de menos holofotes e mais exibições. A volta das sessões da meia-noite que tem seu charme.

O mais importante são eles, os filmes, e quantidade de grandes, ou bons filmes, foi bem mais interessante. Como todo ano, abaixo destaque para os que mais me agradaram nessa edição da Mostra SP:

O Filme

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  • Do que Vem Antes, de Lav Diaz

Segundo ano consecutivo que o filipino emplaca meu filme preferido na Mostra SP.

 

Os Melhores:

  • Dois Dias, Uma Noite, de Jean-Pierre e Luc Dardenne
  • Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan
  • Acima das Nuvens, de Olivier Assayas
  • Leviatã, de Andrey Zvyaginstev
  • Relatos Selvagens, de Damian Szifron
  • A Professora do Jardim de Infância, de Nadav Lapid

aprofessoradojardimdeinfanciaHaganenet (2014 – ISR) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Os atores chegam a bater na câmera de tão fechados os planos, na primeira cena uma cotovelada, por exemplo. É uma proximidade além do cinema, quase aflitiva. Os olhos azuis da professora do jardim de infância, Nira (Sarit Larry) tornam-se imensos e ambiciosos, os do garoto Yoav (Avi Shnaidman) profundos e tocados pela carência – que mais tarde teremos ferramentas para julgá-la. O menino é interpretado como prodígio, versa poemas sobre amores não correspondidos, de maneira espontânea. A professora se encanta, transpõe sua própria ambição de poeta frustrada ao garoto, assim como a babá utiliza os versos do garoto para sua pretendida carreira de atriz.

O diretor Nadav Lapid costura sua história de obsessão com belas sequencias, ora um plano-sequencia virtuoso de crianças brincando num escorregador, ora da chuva que cai e a professora tentando impor inspiração ao garoto que só queria sua soneca. Lapid constrói os perigos das obsessões de forma quase lúdica, do amoroso ao perigoso. A relação aluno-professora vai além da sala de aula, as lentes de Lapid além do cinema tradicional. Há muito da sensibilidade feminina, assim como da virilidade masculina, nas interrelações, mas, acima de tudo está o jogo de obsessão capaz de transformar comportamentos, Nira parte a abdicar de sua própria vida, em prol da poesia que ela tanto admira, e de um talento que talvez só ela enxergue, mas que passa a sua prioridade compulsiva.