Posts com Tag ‘Nanni Moretti’

minhamaeMia Madre (2015 – ITA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

A mãe de Nanni Moretti faleceu durante o período de filmagens de seu último filme. Trabalhando seus dramas pessoais, o cineasta italiano resgata esse capítulo de sua vida. Ele assume o personagem coadjuvante do homem que larga o emprego para cuidar dos últimos dias de vida da mãe, e principalmente abrir os olhos de sua irmã de que ela chegou à reta final.

A irmã é a verdadeira protagonista da história, alter-ego do próprio Moretti, uma Margherita (Margherita Buy) dividida pelas dificuldades da filmagem de seu próximo trabalho, os cuidados com a filha adolescente e a situação da mãe. É tudo muito bonito pela nítida comoção de Moretti com o conteúdo, por outro lado soa como um próprio adeus do cineasta (rumores de que seja o último filme de Moretti), e dessa forma um tanto preguiçoso, com muitos planos americanos e a carga dramática contida de quem quer prestar uma homenagem sem exagerar em nenhum ponto sequer.  John Turturro tenta ser o alívio cômico, marca registrado dos filmes de Moretti, mas seu ator excêntrico, que esquece as falas, não chega a ser nada marcante para o filme.

cannes2015E ontem se encerrou mais uma edição do badalado, amado/odiado Festival de Cannes. Não tem jeito, ele é o balizador do ano, a maior plataforma de lançamento dos filmes que devem figurar entre os mais falados do ano e presentes em outros festivais. Da tela do meu computador, ou do celular, estive acompanhando mais um ano de críticas, repercussões, tweets e podcasts. Críticos torcendo por alguns filmes, odiando outros, enquanto por aqui se espera, ansiosamente, a oportunidade de conferir grande parte da lista de filmes que complementou todas as mostras do festival.

Mas o festival inicia, verdadeiramente, algumas semanas antes, com a divulgação dos filmes selecionados. Cada festival tem suas características, mas todos querem estar em Cannes, afinal é a grande vitrine para venda de direitos de distribuição no mundo todo. É o parque de diversões do arthouse. Os primeiros sinais de surpresa vieram com a divulgação, nomes considerados certeiros na Competição Oficial foram parar em mostras paralelas, dando espaço para outros diretores que já figuravam em edições anteriores do festival, mas nunca com tal destaque. Assim, Miguel Gomes (ok, seu filme de 6h não coube no escopo da Competição), Desplechin, Kawase e Apichatpong Weerasethakul forma preteridos.

cannes20153Antes eram apenas especulações de nomes e títulos, agora, são especulações baseadas nas opiniões dos outros. Ainda assim, no resumo o festival traz expectativas positivas, ainda que alguns tenham decepcionado fortemente. Mesmo só tendo ganho o prêmio de direção, Hou Hsiao-Hsien sai como o queridinho da imensa maioria. Desde sua primeira exibição se torna o filme mais aguardado do ano. Outro que deixou muita gente vislumbrada foi Carol de Todd Haynes (Rooney Mara levou o prêmio de melhor atriz, empatado com Emanuelle Bercot por La Loi Du Marché) num melodrama requintado. Também grandes elogios para Saul Fia, do estreante húngaro Laszlo Nemes (Grande Prêmio). São os quase unanimes da Competição, com Mia Madre (possível último filme de Nanni Moretti) também desperando boas does de elogios.

cannes20152A segunda leva é de filmes curiosos, ou de diretores eficientes. Agora todos querem falar sobre Dheepan (vencedor da Palma de Ouro), o francês Jacques Audiard havia batido na trave com O Profeta, mas seu cinema é daqueles que preenche as salas de cinema alternativo sem que cause grande comoção. São boas histórias, narradas de forma eficiente, thriller ou drama, longe das construções sofisticadas de alguém como Hsiao-Hsien. Seu novo filme é sobre imigração ilegal de um rebelde de Sri Lanka. A recepção foi positiva, mas não vi uma lista sequer em que o filme estivesse no top 10 do festival.

 

Festival é assim mesmo, sua importância está na exibição, a premiação é a cereja do bolo. Afinal, o júri é formado por poucas pessoas, ligadas ao cinema, e portanto fica muito pessoal. Os irmãos Coen presidiram o júri, a escolha por Audiard me parece até coerente com o que se esperar dos Coen, por mais que não sejam estilos semelhantes. O humor negro dos Coen pode até ecoar na vitória de The Lobster (prêmio do júri), se bem que Lanthimos vai muito além do humor negro, e, pelo visto, teremos que aturá-los por mais um tempo. Mountains May Depart, de Jia Zhang-Ke também causou boas impressões, drama político acerca de algumas década de sua China.

Os italianos pareciam vir com tudo, Sorrentino era o grande favorito (antes do festival começar), e nem ele, e nem Garrone conquistaram a maioria. Joachim Trier, Stephane Brizé e Dennis Villeneuve, e até Kore-eda agradaram. O restante ficou entre o medíocre (Michel Franco levou roteiro, muitos detestaram) e as vaias (a maioria não entendeu a presença do filme de Gus Van Sant).

 

cannes20154Das mostras paralelas, As 1001 Noites, de Miguel Gomes, encantou, os romenos Porumboiu e Munteau, além de Apichatpong e Desplechin foram só elogios. Deixando assim essa sensação estranha de um festival que tenta forçar uma renovação, deixando de lado alguns de seus pesos pesados, para apostar em jovens (que talvez não sejam as apostas corretas). Cannes pode se dar ao luxo de colocar nomes tão importantes na Un Certain Regard ou na Quinzena dos Realizadores, mas, pelas repercussões, não foram os jovens cineastas que demonstraram a renovação.

A vitória francesa, e até a escolha na abertura de um filme francês que nada agradou, demonstram uma tentativa de olhar para dentro da própria indústria francesa. Percebe-se um destaque menor ao cinema americano nessa edição (por mais que houve exibição de animação nova da Pixar, e o novo Mad Max tenha figurado entre os melhores do festival), ainda assim é perceptível esse movimento de tentar renovar. E a cerimonia de entrega dos prêmios então, várias apresentaç~eos musicais, um clipe de homenagem, um flerte forte para o formato de festa que o Oscar promove (não deu certo). Cinema não é um esporte, nem uma ciência exata, viva a pluralidade, e as opiniões distintas. E se o júri não escolheu o melhor filme, que pena, porque daqui alguns anos, o que vai se lembrar é da Palma de Ouro para Jaques Audiard.

Habemus Papam (2011 – ITA)

A idéia de Nanni Moretti foi genial para uma comédia, um papa que ao ser escolhido entra em crise existencial. Mote perfeito para a entrada de um psicólogo (o próprio Moretti) no Vaticano, combustível para sátiras, provocações e humor requintado (“então é aqui que são guardados os remédios que não chegam a Roma”). A situação se estende, o papa parte numa busca por suas memórias, por identificação e autoconhecimento, enquanto o psicólogo socializa com os cardeais, promove inimagináveis torneios esportivos (imagine os velhinhos jogando vôlei dentro do Vaticano, começa divertido, mas passa do ponto. Aliás, o filme todo é cercado de aspectos esportivos, logo no começo os cardeais se encaminham para a votação de escolha e as famosas cores das fumaças e um jornalista tenta os entrevistar como se fossem jogadores de futebol chegando no estádio perfilados a caminho do vestiário).

Passada a genialidade da idéia, o filme se divide nesse psicólogo que parece saído de um filme de Woody Allen obcecado por torneios absurdos, e do peso do drama pessoal do papa (Michel Piccoli) que parece carregar a dor do mundo em suas costas, explosivo (e até mal-educado) querendo encontrar no teatro algum alento para sua vida. Nanni Moretti perde a mão, o drama se torna aborrecido (e não convence), a sátira passa do ponto, e ficamos com o gosto daquele adoçante que começa doce e termina com um gosto meio amargo na boca pelo resto do dia (amargo não, apenas decepcionante).