Posts com Tag ‘Nelly Borgeaud’

ohomemquenaoamavaasmulheresL’Homme Qui Aimait Les Femmes (1977 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Na porta de uma igreja, os recém-casados recebem os cumprimentos de amigos e familiares. No outro lado da rua, Bertrand Morane (Charles Denner) vislumbra aquela cena e afirma com desprendimento contumaz: “Esses acreditam em Papai Noel”. Se suspeitava que François Truffaut exibia ligeira queda por belas pernas femininas, nesse filme, a confirmação vem numa overdose de dezenas delas desfilando pelas lentes do cineasta.

O filme tem início num enterro, porém há algo de pitoresco. Somente mulheres acompanham o cortejo pelo cemitério. O falecido possuiu cada um delas, e de algum modo, elas sentem-se um pouco viúvas daquele homem. Bertrand Morane (o falecido) apresenta-se como mais um alter-ego de Truffaut, dessa vez numa fase muito mais madura, ainda assim mantendo a essência principal: o amor incondicional pelas mulheres.

Bertrand é aquilo que podemos chamar de paquerador nato, mas não aquele galanteador conhecido como Don Juan. Seu estilo é muito pessoal, a conquista não é o mais importante em seus affairs. Seu desejo é de esquivar-se da solidão. Ele as ama com toda a força de seu coração, por isso apela para sua agenda de telefones quando não há mulher alguma em vista.

Em certo ponto da vida, Bertrand resolve escrever um livro com suas aventuras amorosas, se entrega completamente a este projeto e assim rememoramos cada uma dessas conquistas, e as persistentes e criativas maneiras que o fizeram triunfar. Entre suas memórias há o dia em que ao ser medicado, com uma doença venérea, o médico pede para que a mulher com quem manteve relações sexuais seja informada. Durante alguns segundos Bertrand reflete, até relatar ao médico a dificuldade dessa atitude, afinal, pelo menos houvera meia-dúzia delas nos últimos dias. Em outra ocasião contrata uma baby-sitter, e quando a moça procura a criança pela casa, Bertand afirma categoricamente ser ele próprio o bebê.

A mãe recheada de amantes, a iniciação sexual ainda garoto com uma prostituta, o trabalho de engenheiro com protótipos (barcos, aviões). São inúmeras as características a ser observadas que estão presentes em seus outros filmes, cada vez mais Truffaut reafirma traços autobiográficos em seus alter-egos. Nesse filme é a maneira de amar as mulheres que se torna o ponto de análise do cineasta, amá-las integralmente mas descompromissadamente não é o bastante, ainda que haja o tom machista, ele acaba adocicado por essa visão poética das mulheres como a elevação da alma desse conquistador. Até a fatídica morte do personagem demonstra quão incorrigível pode ser um homem quando se trata de um belo par de pernas. E Truffaut filosofa construindo um filme tipicamente seu, Charles Denner assim como as mulheres que contracenam com ele, parecem suavizar seus movimentos, mais uma vez uma acalentadora atmosfera conserva a platéia compenetrada.

meutiodamaericaMon Oncle D’Amérique (1980 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela
O cineasta Alain Resnais e o biólogo Henri Laborit se dispuseram a analisar o comportamento humano, e suas variáveis, tendo por base de comparação o comportamento primitivo dos animais. O roteiro é baseado nos estudos de Laborit, que é o narrador da história. Esteticamente, o filme assemelha-se bastante com um vídeo de aula de ciências, onde ouvimos os conceitos propostos, e as imagens confirmando cada raciocínio. Claro que Resnais transforma isso em cinema de gente grande, trabalhando em cima de três personagens que têm suas vidas intercaladas.

De início, uma bagunçada chuva de imagens e frases disparadas sem muito sentido aparente. Elas formam uma espécie de resumo do que será a vida de cada um dos personagens centrais. Depois, o desenvolvimento de cada um desde a infância, René Ragueneau (Gérard Depardieu) torna-se um administrador burocrático de uma tecelagem e se vê pressionado quando colocam outro funcionário na mesma função da dele. Janine Garnier (Nicole Garcia) foi ativista comunista quando jovem, abandonou a família para ser atriz. E por fim, o burguês Jean Le Gall (Roger Pierre), que administra uma rádio estatal e decidiu separar-se da esposa para ficar com Janine.

Laborit divide o cérebro humano em três partes, estuda três humanos, explora três fases animais do comportamento. Manipula as ações dos personagens para provar suas afirmações. Com homenagens a clássicos do cinema e um humor de tom lisonjeiro, Resnais imprime ritmo tenro. Amadurece seus personagens, brinca com inteligência num roteiro repleto de consistentes teias. Nicole Garcia marca presença forte em cena, domina com ternura e presença marcante. O entrecruzar de personagens, e as experiências comparativas, dão mais do que embasamento empírico, trazem mesmo um frescor renovado que ganha esmero na fotografia cativante de Sacha Vierny. Por fim, Laborit conclui que usando a mente para dominar os outros as coisas nunca vão mudar.