Sexta-feira 13

vendredi-13Vendredi 13 “Friday the “13th” (2016 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Em branco e preto, imagens de jovens colocando flores na rua, ascendo velas, e com semblantes desiludidos prestando homenagem aos que morreram nos atentados de Paris, no Bataclan. Nicolas Klotz volta poderoso com seu média-metragem que deveria apenas ser um filme com o radialista Michka Assayas (irmão do cineasta) durante seu programa semanal de rock na rádio Inter.

A ocasião se tornou especial, intercalando as imagens das ruas e do discurso emocionado de Michka, em planos bem fechados e intimistas, principalmente no pedido de Bono Vox para que ele tocasse Peace on Earth (U2) naquele momento. O filme é bem categórico em fugir do óbvio num tema deste tipo, e ainda assim retratar o luto e desconsolo, de toda uma sociedade, frente tal brutalidade.

Paria

pariaParia (2000 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Pelas ruas de Paris, a noite de Reveillon da chegada dos anos 2000, tendo dois sem-teto como figuras centrais. Inicialmente, o filme os coloca num ônibus que recolhe mendigos, que serão levados e tratados num abrigo. A história volta 36 horas na vida de Victor (Cyril Troley) e Momo (Gérald Thomassin), construindo assim a primeira parte da Trilogia dos Tempos Modernos (precedido por A Ferida e A Questão Humana).

Com câmera na mão, muitas vezes focado a nuca dos personagens (no melhor estilo dos Dardenne), o trambiqueiro Momo, e o recém-desempregado e despejado Victor, rapidamente se tornam figuras simpáticas ao público. Seja pela malemolência de Momo, vendo sua grande chance ao aceitar um casamento arranjado, seja pela devoção amorosa de Victor pela garota com quem está flertando. Ambos sobem naquele ônibus com outras parias da sociedade, desprezados, esquecidos, os completamente excluídos.

Marginais, gozadores, extremamente grosseiros, ou apenas pessoas excluídas e ridicularizadas. O diretor Nicolas Klotz apenas os focaliza como esses parias perdidos na noite de Reveillon, dando voz ao destino cruel, enquanto traz à tona a questão da imigração (no casamento arranjado, nos presos em uma batida policial), são os protagonistas da noite, num canto escuro da cidade-luz, que todos só querem esquecer. O tom até otimista com que Klotz-Perceval sobrecarrega os personagens traz outros elementos que serão obsessivos nos trabalhos seguintes da dupla, como a fétida ferida do mendigo. Porém, Paria se difere dos demais trabalhos pela dureza mais crua, a exposição regada ao swing que Gérald Thomassin consegue imprimir com maestria.

Perfil: Nicolas Klotz e Elisabeth Perceval

Klotz_Perceval2469webHá poucos dias foi publicado um pequeno post, intenção era apenas de resgatar os filmes vistos e dar luz à retrospectiva. Este post é mais completo, ainda resgatando aqueles textos, mas dando possibilidade de dividir outros trabalhos desse casal cuja obra é fascinante e plural.

Ao se debruçar, um pouco, na vida de Nicolas Klotz e Elisabeth Percival, é fácil notar que a obra criada pelo casal se mistura integralmente com a vida deles, com seus ideaism, aflições, preferências culturais. Enfim, a visão de mundo deles está impressa em seus filmes. Da relação com o teatro ao jazz, da literatura ao prazer em discutir política, e, sobretudo, na ingenuidade do amor como real esperança de dias melhores.

Foi no teatro que se conheceram, na década de 70. Construindo juntos a carreira e a família (dois filhos, também ligados a cinema e música). Ela assinando os roteiros, e ele assumindo a direção (agora, ambos dividem os créditos de direção). A retrospectiva que passou pelo Rio de Janeiro em 2014, e essa semana foi exibida no Cinesesc, é quase completa, certeza que não por implicância dos próprios autores. Os dois primeiros longas, As Noites Bengali e La Nuit Sacrée não agradam a Klotz, perdemos a chance de conhecê-los.

Nesses filmes já havia algumas das questões fundamentais que formatam a carreira do casal: imigração, amor ingênuo, discriminação, relações humanas. Entre os quatro longas de ficção principais (Paria, A Ferida, A Questão Humana e Low Life), o casal se debruça em filmar ensaios e documentários, filmes experimentais que surgem como ideias a serem incorporadas em próximos longas, ou que ajudam a complementar essa dicotomia entre obra e via pessoal. A imensa vontade de discutir com o público, sempre com simpatia, mas, acima de tudo, com essa proposição de dálogo aberto quase os coloca sob o rótulo que temos dos franceses de: cultos, eruditos, que devem viver de vinho e reflexões intelectuais.

Segue abaixo texto para alguns (infelizmente) dos filmes que foram apresentados nessa retrospectiva, incluindo o lançamento mundial de Zombies, e já sabendo que eles andaram filmando por São Paulo, para o próximo trabalho do casal. Fica a expectativa pela possibilidade de conhecer toda a obra do casal.

brad_meldhauBrad Mehldau (Brad Mehldau, 1999 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Parte da série Jazz Collection, do canal ARTE, o documentário acompanha o jovem jazzista por uma turnê na Europa e EUA. Quase um ensaio, com muita câmera na mão e super-close-up’s, Klotz consegue captar além do músico, seja nas conversas de bastidores (entre cigarros e copo na mão), seja nas gravações de grandes trechos de show. É a possibilidade de imersão na música, na inspiração, e nas inúmeras possibilidades de improvisação. Um jazz filmado entre o caótico e o belíssimo.

 

 

lesamantscinemaLes Amants Cinéma (Les Amants Cinéma, 2008 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O documentário dirigido pela filha do casal, Héléna Klotz, trata dos bastidores da filmagem de A Questão Humana (o filme mais conhecido do casal). A intimidade bruta, desde momentos de se ouvir jazz em casa, na sala de móveis antigos, a toda problemática construtiva do filme, o documentário faz essa criação imperfeita do período de criação. Inseguranças, brigas de casal na sala de montagem, as fragilidades e incertezas do trabalho em grupo, e da própria obra em si.

É intrigante a possibilidade aberta de conhecer ainda mais a intimidade (profissional e pessoal) de Klotz e Perceval, as personalidades individuais e acongruencia no rtimo de trabalho. Ensaios, ideias, bastidores de filmagens, mas, acima de tudo, um documentário sobre dois amantes do cinema, cujos filmes transcendem na própria energia do casal.

 

 

 

3447082_3_7d52_le-vent-souffle-dans-la-cour-d-honneur-ou-les_d3725e05281f13bf9e1c1dbe956c76bbLe Vent Souffle dans la Cour D´Honneur (Le Vent Souffle dans la Cour D´Honneur, 2013 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Outro telefilme para o canal ARTE, dessa vez a abordagem dos bastidores e os fantasmas do Festival de Teatro de Avignon, porém sob o estilo mais intuitivo e ensaísta, e menos informativo. Klotz e Perceval registram depoimentos de alguns dos principais autores do festival, que atualmente recuperou sua importância no cenário europeu. Cenas de arquivo dos anos 60 (carregadas de teor político, pré movimento estudantil de 68) contrapõem-se ao cenário fantástico, e aos depoimentos da nova geração de autores consagrados.

É um documentário sobre teatro, sobre movimento, sobre espaços, e também sobre política e cultura. Mas, principalmente, sob o teatro em si. O tipo de abordagem permite a fluidez da própria arte, e as possibilidades de absorção de seus aspectos, mitos e fantasmas, numa homenagem reflexiva sobre o próprio teatro e suas vertentes.

 

 

ceremonybrazzaCeremony Brazza (Ceremony Brazza, 2014 – AFS/FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O próximo longa-metragem do casal deve se chamar Ceremony. Este aqui é um daqueles trabalhos que devem estar presentes, foi filmado na África do Sul, parte integrante do projeto Diálogos Clandestinos. Surgiu após o convite para ministrar aulas de cinema no país. Um ensaio bastante abstrato de dança, cultura e encenação. Abre e fecha com um dançarino energético, inquieto, que dança freneticamente contra sua sombra. É uma interessante visita do casal que tanto filmou a imigração africana na Europa, agora ele resgata a cultura local num mergulho da câmera por corpos, formas e sons, como se fosse um daqueles filmes de museu cujas pessoas entram e saem rapidamente.

 

 

Zombies (Zombies, 2008-2015 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Os zombies, mas não aqueles que o cinema americano propagou. Enquanto Godard tem se enveredado por ensaios que questionam a forma, e atacam a cultura americana (entre outras coisas), o casal Klotz e Perceval resgata a arte sob a metafórica personificação dos mortos-vivos, que vagam sem rumo pela vida, vão muito além dos vampiros de Jarmusch (Amantes Eternos).

Foram 4-5 noites de filmagem com atores de workshop de teatro ministrado pelo casal. A trilha sonora é composta de uma única musical instruimental (de Ulysse Klotz, outro filho do casal), e acompanha poemas e textos de autores como Allen Ginsberg, John Giorno e Robert Walser. Luzes, cores, e zombies trazendo à tona temas como a violência, ou melhor atrocidades (como na cena alegórica da encenação de um revolucionário morto por um soldado arrependido), ou a sintuosa dança da mulher com um machado na mão (todo sob um vermelho penetrante).

A abstração, o lúdico, a junção de textos, som e imagens nos torna um submarino submergindo sob a rígide dos autores que contemplam a figura dos zombies como a perfeita tradução da atual bárbarie que se tornou a relação humana entre povos nesse mundo caótico de indiferença e desumanidade.

O Cinema de Klotz e Perceval: A França dos Excluídos

Klotz_Perceval2469web

Chegou ontem a São Paulo, no Cinesesc, a retrospectiva da carreira do casal Nicolas Klotz e Elisabeth Perceval. Só um de seus filmes foram lançados comercialmente no Brasil, alguns passaram em festivais, mas nunca um leque tão grande de possibilidades de conhecer a obra do casal (mesmo que incompleta). Um cinema profundo, tendo foco claro essa França dos excluídos. Enquanto corro para as exibições, compartilho aqui textos de 3 filmes imperdíveis.

A Ferida

A Questão Humana

Low Life

 

 

Links da Semana

blackcoalthinice Festival de Berlim divulgou hoje os vencedores, contrariando o favoritismo de Boyhood (do Linklater que ganhou direção), o Urso de Ouro ficou para o noir chines Black Coal, Thin Ice. Conheça a lista completa de vencedores [Berlinale]

Grande notícia que o filme brasileiro Hoje Eu Quero Dormir Sozinho, dirigido por Daniel Ribeiro, ganhou o Teddy Awards e o prêmio FIPRESCI na mostra Panorama [Indiewire]

• O trailer de Praia do Futuro, que representa o Brasil na Mostra Principal do Festival de Berlim. Filme dirigido por Karin Ainouz [Youtube]

• Entrevista com Hayao Miyazaki sobre aposentadoria, Oscar, Vidas ao Vento, e seu estúdio [Indiwire]

• Dica do RD, Ethan Hawke e Julie Delpy no Jimmy Kimmel [Parte 1, Parte 2, Parte 3]

• Pessoal de São Paulo já deram uma olhada na programação do Verão de Clássicos da Cinemateca? Vale uma espiada [Cinemateca Brasileira]

• e como os Legos estão no cinema, nada melhor que uma versão-Lego dos indicados a Melhor Filme no Oscar [Revista Exame]

• Mico da Semana: video onde um apresentador de tv confunde Samuel L Jackson com Laurence Fishburne ao vivo. [Sky]

• No Caixa Cultural (RJ), a imperdível Mostra sobre o Cinema de Nicolas Klotz [Cinefrance]

Acompanhe nossas atualizações: curta a fanpage e siga nosso twitter @michelsimoes

Low Life – 35ª Mostra SP

Les Amants de Low Life (2011 – FRA)

De cara o filme pede revisão. Não parece possível absorver, em meio a um festival e tantos filmes vistos (em sequência), todos os conceitos e a experiência de vida, que o casal de autores Nicolas Klotz e Elisabeth Perceval, pretendem dividir com o público. O cinema de Klotz se coloca como um ponto de intersecção entre Godard, Bresson e Garrel, usando como fundo a questão política dos imigrantes ilegais (tema recorrente em sua carreira, aliás o filme dialoga muito com os dois anteriores do cineasta, A Ferida pelo tema da imigração e A Questão Humana pela estrutura, e na força de diálogos, por vezes abstratos), para desembocar numa história de amor cuja “separação” deixa em torpor psicológico o casal.

O casal Carmen (Camille Rutherford) e Charles (Luc Chessel), e seu grupo de amigos, são jovens engajados em questões centrais, se envolvem em protestos contra políticas de Sarkozy, sempre carregados com um ar intelectual e essa necessidade de engajamento, de protesto. O foco inicial é esse juventude unida, em torno de seus idéias, ávida por colocar em prática (ou expor ao mundo) seu jeito de pensar, o fim das injustiças. É dessa forma que Carmen conhece o poeta afegão que veio estudar na França Hussain (Arash Naimian), numa ação policial em busca de imigrantes ilegais.

Os jovens se encontram em festas, noites discutindo filosofia, política, é o misto dessa vontade de ser adulto aliada a imaturidade, a motivação que traz garra, mas nem sempre coerência. O filme mergulha de forma perfeita nesse universo jovem, nessa rotina de estudos/protestos e vida social. O ar intelectual (incomoda alguns) está marcado em cada fala, ele dá voz ao casal Klotz-Perceval, e eles começam a tratar do amor (alguns conceitos lindos e tão verídicos aparecem), a apimentar ainda mais essa trama. Carmen deixa Charles (sujeito instável, enigmático) e se apaixona por Hussain, a relação deles é linda, parecem integrados desde o primeiro instante, mas é óbvio que sua ilegalidade será descoberta pela polícia francesa. A falta de liberdade, o medo da extradição consome o casal e os isola do mundo exterior, hipnotizados pela necessidade de ficarem juntos eles não percebem que estão à deriva, instalam uma nova órbita que não podem manter por muito tempo.

Esse é meu tipo de filme, esse é meu tipo de amor, aquele é meu tipo garota. Carmen só não é minha musa da Mostra porque Camila Pitanga está imbatível, mas Carmen é aquele tipo de garota com a sensualidade certa, com senso crítico, com opinião própria, aquela pra você passar horas deitado na cama falando do tudo e do nada.

A Questão Humana – 31ª Mostra SP

aquestaohumanaLa Question Humaine (2007 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Nicolas Klotz oferece um dos filmes mais esquemáticos e intrigantes dos últimos tempos. Nada é simples, muito menos pouco pensando. De uma aparente conspiração empresarial, dos que almejam assumir a presidência de uma empresa, o filme passa a um profundo estudo da questão humana, de princípios de humanidade, e correlações de multicomplexidade social, criando uma fascinante analogia, entre administração corporativa e o massacre nazista.

Um estudo precioso de personagens e suas correlações, quase um thriller, sem nunca se afastar do mundo corporativo, vivendo apenas de relações humanas e do passado como emoldulador da herança pscicológica de caca um deles. Sua estrutura, não-clara, transforma-se num deleite a cada nova sequência. Um universo de possibilidades que se abre, segredos desvendados que vão muito além do mundo empresarial. A todo momento Klotz está promovendo a discussão, a possibilidade de refletir sob as garras do capitalismo e, principalmente, aos pilares das relações pessoais nesse mundo contemporâneo.

A segunda metade do filme é de revelações, mas, essencialmente de proposições, teorias, e de uma mise-èn-scene capaz de cenas curtidas, com cortes precisos, nos permitindo o tempo ideal de tentar absorver. As imperfeições do psicólogo (Mathieu Amalric), que trabalha no RH da empresa em questão, dão ainda mais peso a essa questão humana proposta, tão ingênuo para uns, e astuto para outros, seus momentos de desequilíbrio, a relação com sua namorada e com as mulheres que flertam com ele, e o joguete na mão dos poderosos da empresa. Até a narração em off, no fim, com tela escura, o público atônito a tantas proposições e essa analogia da carnificina empresarial de uma desumanidade vil e econômica. E a trilha sonora então, genuinamente escolhida, para enriquecer cada espaço entre silêncio e som.