Posts com Tag ‘Nicolas Winding Refn’

demoniodeneonThe Neon Demon (2016 – EUA/DIN/FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

De novo queridinho do cinema (com o sucesso de estilo de Drive) a decepção retumbante (Só Deus Perdoa), muitos esquecem que Nicolas Winding Refn tem alguns filmes antes de Drive. Mas, é fato que seu nome ganhou fama internacional ali, e por isso as comparações tenham esse como principal ponto de controle. Novamente presente na competição principal em Cannes, seu filme era aguardado como uma incógnita e o filme tem presença forte dos seus dois últimos filmes mesmo, apontando para um caminho que refn está solidificando.

O uso das cores e o exercício estilístico da imagem são definitivamente a característica mais forte dessa fase da carreira de Refn. Algumas das cenas são deslumbrantes, com luzes estouradas, ou com fundos que confundem o que é chão, o que é teto, verdadeiros jogos hipnótico de ótica. E o cineasta também não tem nenhuma preocupação em parecer cheio de referências a outros cineastas, é facilmente perceptível um clima futurista de Lucy ou Ex-machina, aliado a violência gráfica de filmes de Park Chan-wook, e boas doses da excentricidade de David Lynch, tudo bem localizado dentro da estética de Refn.

A narrativa vaga pelo abstrato, mas tem foco bem claro em seu tema. A jovem Jesse (Ellen Faning, tão enigmática quanto o filme pretende ser) chega a Los Angeles para tentar a vida de modelo. Ali encontra um mundo doentio e cruel, o lado mais egocêntrico e narcisista, a competição desenfreada e a inveja, lado a lado com o culto a beleza. Relações vazias e promíscuas, o sexo como jogo de poder e sedução. Nada de novo no mundo da moda, mas com essa roupagem hipnotizante, enigmática, que circula pelo mistério e a insegurança.

 

Invictus• Semana de algumas noticias tristes. Teve o acidente fatal de Paul Walker, mas a grande lamentaçãoé daquele, que talvez fosse, a maior unanimidade mundial, Nelson Mandela dedicou uma vida pela luta por justiça. No cinema foi retratado várias vezes, no link um especial relembrando alguns desses filmes, e outros prestes a chegar [UOL Cinema]

• Outro tristeza foi a confirmação, nos EUA, da, inestimável perda, de uma enorme quantidade de filmes mudos. Custos altos, poucos cuidados, películas e histórias que se perderam [UOL Cinema]

• Estamos dando adeus a 2013, e o próximo ano já está chegando. E os Festivais estão se mexendo, saiu a lista de Sundance, o rei do cinema independente, sempre com muitos filmes para se ficar de olho [Sundance]

• A temporada do Oscar começou para valer, lista de melhores na [Time], [National Board of Review] e [NYFCC]. 12 Years a Slave não é tão favorito assim? Vejam e tirem suas conclusões sobre os favoritos do próximo ano.

•Interessante artigo sobre a inexistência de cinemas na Zona de Mata, enquanto Pernambuco se destaca com inúmeros lançamentos destacados, como Som ao Redor e Tatuagem. Coisas de Brasil [UOL Cinema]

• Entrevista dessa semana no [Slant Magazine] é com o Oscar Issac, protagonista do novo filme dos Coen, Inside Llweyn Davis, que logo estreia no Brasil

• A [Variety] entrevistou Nicolas Winding Refn, diretor que parecia virar sensação com Drive, mas depois do fracasso de Só Deus perdoa, sabe-se lá o que vem por ai.

• Encerrando com o trailer do O Espetacular Homem-Aranha 2 [Youtube]

onlygodforgivesOnly God Forgives (2013 – FRA/TAI/EUA/SUE) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Nicolas Winding Refn utiliza a força das cores como poucas vezes se viu no cinema, são berrantes, sólidas, praticamente perfeitas. Causam um vislumbre visual único, poderoso, impactante. Refn segue seu trabalho estilístico que já fora celebrado em Drive, seu cinema é violento, e puro estilo.

Mas esse estilo é tão soberbo que não permite espaço para o restante, Refn praticamente se coloca como um Tarantino sem grandes diálogos ou o espaguete que faz de Quentin o sucesso pop. Não, Refn faz mais o papel do estiloso autoral, aquele que não deixa espaço para discussão, e faz questão de vir à tona com uma história, no mínimo, não digestiva.

É a vingança, como em Kill Bill, há também uma loira capitaneando (no caso, Kristin Scott Thomas), mas estamos na Tailândia, entre boxeadores, o tráfico e um código de ética de marginais. Refn trabalha com a violência em câmera lenta, aliás com cada cena como se fosse definitiva, tenta fazer do timing seu trunfo, mas há tão pouco para preencher esse timing (além das cores tão preponderantes), que qualquer passo dessa vingança só parece com história contada por uma criança bem mimada.

Drive (2011 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O solitário-caladão (Ryan Gosling) divide sua vida entre o trabalho de piloto-dublê, em produções em Hollywood, e os “bicos” como piloto de fuga em assaltos planejados pela máfia. O filme faz questão de identificá-lo como um sujeito que parece não ter passado, futuro, perspectivas, ambições. Ele simplesmente vive sem prazeres, sem sonhos (talvez até o tenha, piloto de stock-car, mas talvez seja o sonho de seu amigo-chefe), nenhuma direção.

Quando o solitário conhece a vizinha Irene (Carey Mulligan), um raio de sol quase brilha no céu cinzento do sujeito, que permanece caladão, fechado, mas agora até sorri, invariavelmente. Do interesse mútuo vem a confusão amorosa, mas não é exatamente esse o mote do filme. A razão de existir é o exercício estilístico do cineasta dinamarquês Nicolas Winding Refn, seu universo de referências praticamente se impõe como uma colagem de vários cineastas (temos Tarantino, Lynch, Sofia Coppola, Scorsese, até Kar-Wai). E, dessa salada cinéfila que se constitui seu próprio estilo, sim porque há tantas colagens e referências que se tornam sua própria assinatura.

Desconstruindo gêneros, um filme de ação com narrativa lenta, personagens silenciosos. Um filme violento com cenas em câmera lenta e música pop estilo anos 80. Um filme de máfia pontuado por uma cena de beijo antes de uma luta, no elevador. Uma sequência de perseguição eletrizante e momentos tolos de um flerte sem jeito. Essa miscelânea toda traz um cinema dos anos 70-80 dialogando com algo muito contemporâneo, e funciona bem. Alguns frames são praticamente quadros magníficos, o uso de cores mortas (o cuidado com sombras e tons de verde e vermelho). Tudo hermeticamente pensado, tão pensado que as vezes peca pela artificialidade. Nesse exercício todo, Refn não deixa seu filme decolar, mantendo-o na mesma vibração de seu protagonista low-profile, quase um Clint Eastwood atrás do volante que por não ter “passado” nada teria a perder/temer.