Posts com Tag ‘Nicole Garcia’

Mal de Pierres (2016 – FRA) 

O novo drama de Nicole Garcia é uma bem cuidada produção de época, que jamais decola como filme de autor. Adaptação de um livro de Milena Agus, tem em seu cerne o drama da mulher (Marion Cotilard) que almejava casar e viver por amor, mas teve uma vida regrada pela família e convenções sociais, até descobrir a paixão por um soldado (Louis Garrel) à beira da morte.

A opção é sempre por um espírito poético, pela ternura sentimental em cada plano, sem que tais sentimentos eclodam, necessariamente, ao público. Entre a paixão e a loucura, o filme mistura essa sensações em sua própria narrativa, enquanto Cotilard sofre, enlonquece, e jamais amadurece com o passar do tempo. Facilmente compreensível ter sido tão esnobado na competição principal de Cannes, ainda que tenha sido muito lembrado nas indicações ao César.

 

 

gare-du-nordGare du Nord ( 2013 – FRA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Claire Simon é mais conhecida como documentarista, vira e mexe e se aventura na ficção. Dessa vez ela parte da ideia de que a estação Gare du Nord é um pequeno resumo do mundo. Não está enganada, uma das 3 maiores estações de trem/metro do mundo, numa cidade que abriga todas as nacionalidades, toda as línguas, o local é realmente um pequeno ecossistema humano. E, dessa forma, poderia dar cabo a tantas histórias, tantas pessoas.

A trama tem um tripé, Ismaël (Reda Kateb) e sua pesquisa para mestrado, Mathilde (Nicole Garcia) professora de história, e Sacha (François Damiens) conhecido na tv pelas pegadinhas e câmeras ocultas. Cada por sua razão, os três estão sempre na estação, procurando alguém, ou coletando histórias, enquanto se entrecruzam. Nessa tentativa de romantizar um documentário, Simon perde o controle desde o início, seja com diálogos pouco interessantes, com a quantidade de temas e personagens, ou apenas com o desinteresse que ela causa pela frouxidão de sua condução.

Porquoi Tu Pleures? /Bachelor Days Are Over (2011 – FRA)

E há os que piram, suas mentes entram num estado de ebulição que transformam a reta final da data do casamento em dias de angústia, incerteza, total insegurança. A estreia na direção da atriz Katia Lewkowicz retrata os quatro dias anteriores ao casamento desse sujeito (Benjamin Biolay) com sua noiva (Valerie Donzelli) que simplesmente desapareceu. Na despedida de solteiro com os amigos ele se apaixona por uma cantora de boite (Sarah Adler) o que ajuda a mergulhá-lo numa crise de questionamentos sobre o porquê de se casar. É clichê, é óbvio, mas incrivelmente parece um mau que assola quase todos os casais. A câmera tenta ser esperta, ágil, sair dos enquadramentos óbvios e ainda se aproximar desse personagem perdido, com uma grande interrogação em suas feições.

Nesse caos pessoal segue o próprio filme e narrativa, a relação com os amigos, ou com sua mãe (Nicole Garcia) interessada apenas no status de casado do filhinho e com a irmã (Emmanuelle Devos) que guarda com ele um misto de relação entre carinho e conflito. Desses dilemas não se resolvem nem o filme, e nem seus personagens, quando Valerie Donzelli entra efetivamente em cena o filme ganha fôlego, sua presença oxigena, seu sorriso parece ter as respostas que todos procuram, se o intuito era transpor esse conflito e incerteza, o filme é certeiro em sua irregularidade, como obra não passa de um resultado repleto de imperfeições e com algum carisma (aliás, abre e fecha com depoimentos desnecessários e abstratos do grupo de amigos desse homem prestes a ser levado “à força”).

L’adversaire (2002 – FRA)
 
Uma frase de efeito e os dizeres de baseado em fatos reais, o clima é pesado, a fisionomia de Daniel Auteil sempre preocupada, fechada, triste, chegando ao deprimente. Nicole Garcia embaralhou a estrutura narrativa, alternou os fatos cronologicamente, tudo na tentativa de trazer um algo mais, porém não se conseguir além da tristeza mórbida, das falsas feições de arrependimento que carrega o protagonista. A verdade é que parece impossível acreditar que alguém tão respeitável aparentemente tenha criado e protagonizado um jogo tão sórdido de mentiras a ponto de manter todo círculo social à sua volta incapaz de perceber a verdade que o roteiro tenta esconder para fazer um suspenso, cuja a trilha sonora tenta elevar a um drama fúnebre (e realmente é se levarmos em conta o desfecho). No fundo, Nicole Garcia tinha em mãos uma história inusitada e seu tom é tão pacato que mesma a dor parece ser mecânica. Emanuelle Devos, como é sexy essa mulher, um charme só dela.

meutiodamaericaMon Oncle D’Amérique (1980 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela
O cineasta Alain Resnais e o biólogo Henri Laborit se dispuseram a analisar o comportamento humano, e suas variáveis, tendo por base de comparação o comportamento primitivo dos animais. O roteiro é baseado nos estudos de Laborit, que é o narrador da história. Esteticamente, o filme assemelha-se bastante com um vídeo de aula de ciências, onde ouvimos os conceitos propostos, e as imagens confirmando cada raciocínio. Claro que Resnais transforma isso em cinema de gente grande, trabalhando em cima de três personagens que têm suas vidas intercaladas.

De início, uma bagunçada chuva de imagens e frases disparadas sem muito sentido aparente. Elas formam uma espécie de resumo do que será a vida de cada um dos personagens centrais. Depois, o desenvolvimento de cada um desde a infância, René Ragueneau (Gérard Depardieu) torna-se um administrador burocrático de uma tecelagem e se vê pressionado quando colocam outro funcionário na mesma função da dele. Janine Garnier (Nicole Garcia) foi ativista comunista quando jovem, abandonou a família para ser atriz. E por fim, o burguês Jean Le Gall (Roger Pierre), que administra uma rádio estatal e decidiu separar-se da esposa para ficar com Janine.

Laborit divide o cérebro humano em três partes, estuda três humanos, explora três fases animais do comportamento. Manipula as ações dos personagens para provar suas afirmações. Com homenagens a clássicos do cinema e um humor de tom lisonjeiro, Resnais imprime ritmo tenro. Amadurece seus personagens, brinca com inteligência num roteiro repleto de consistentes teias. Nicole Garcia marca presença forte em cena, domina com ternura e presença marcante. O entrecruzar de personagens, e as experiências comparativas, dão mais do que embasamento empírico, trazem mesmo um frescor renovado que ganha esmero na fotografia cativante de Sacha Vierny. Por fim, Laborit conclui que usando a mente para dominar os outros as coisas nunca vão mudar.