Posts com Tag ‘Nicole Kidman’

The Beguiled (2017 – EUA) 

Ao descobrir o filme anterior, quase uma alegoria erótica masculina, dirigido por Don Siegel, em 1971, era de se esperar uma versão cujo o lado feminismo criasse outra leitura para a trama. Afinal, a carreira de Sofia Coppola tem essa vitalidade de trazer o ponto de vista feminismo ao cinema, coisa tão rara, infelizmente. A possibilidade dessa oposição é tentadora.

E realmente, Sofia dá seu toque de feminilidade. E o que, muito provavelmente, não é o que se esperava em tempos de “empoderamento”. Suas opções são sutis, porém definitivas. O estranho de seu filme (Colin Farrel) é mais dúbio, enquanto que quase todas as mulheres são colocadas como joguetes atraídas, pouco se conhece individualmente de cada uma delas. O clima de tensão, quase um filme de terror, ainda que exista, é suavizado. É uma visão mais romântica de um intruso que mexe com a libido de todas, e por mais que a versão anterior fosse machista, essa perde a oportunidade de diferenciar suas personagens, as tornando apenas escravas de uma possível escolha.

Talvez, o ideal fosse tentar não comparar os filmes, por mais impossível seja para quem o viu. Ainda assim, olhando para tudo que Sofia construiu até hoje, parece mais um filme preocupado com reconstruir vestidos, adereços e ambientes, do que explorar seus personagens, seja na questão da Guerra Civil que eclode fora daquela casa, seja na tensão sexual competitiva que enlouquece mulheres tão recatadas e imaturas. Quem mais se destaca é Nicole Kidman, que em sua caricatura entre equilíbrio, seu interesse e senso de justiça próprio, conduz o destino de cada um dos personagens, entre delicadeza e algum toque de brutalidade.

graceofmonaco-xlargeGrace of Monaco (2014 – FRA) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Grace Kelly (Nicole Kidman) dividida entre o próximo filme de Hithcock, Marnie, e a repercussão da opinião pública de uma princesa de Monaco atuando em Hollywood. Eis o dilema em que o diretor de filmes tão insosos, Olivier Dahan, se meteu para contar parte da biografia de Grace Kelly.

Há ainda a questão política, o príncipe Rainer III (Tim Roth) numa feroz guerra comercial com a França, riscos de retaliação militar, momentos tensos. Dahan transforma Grace Kelly num instrumento de “genialidade” da política internacional. Da futilidade da vida de princesa, e do casamento desgastado, em uma líder exemplar.

É triste como o filme não consegue sair das armadilhas que o tema lhe impõe. Mistura o conto de fadas da vida da princesa, com seus dramas pessoais, de forma a nascer um grande livro de autoajuda de como se reerguer das trevas e domar seus problemas. Nicole Kidman não consegue deixar de ser Nicole Kidman, Rainer acaba renegado ao papel de marido da princesa, o filme gira em torno de sua áurea, mesmo nas questões militares. Dahan e outro desserviço ao cinema mundial.

 

umalongaviagemThe Railway Man (2013 – AUS) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Surgiu como postulante ao Oscar, do ano passado, ate suas primeiras exibições. O naufrágio o levou ao ostracismo, e agora estreia, quase sem repercussão. O peso do passado para ex-combatentes da Segunda Guerra Mundial, o fantasma das torturas desumanas. Tantos e tantos filmes assumiram este como tema. Dessa vez, baseado no livro autobiográfico de Eric Lomax (Colin Firth), sob direção pasteurizada de Jonathan Teplitzky, temos um ex-soldado britânico aficionado por trens. Ao invés de desenvolver melhor o personagem, o filme traz um romance (Nicole Kidman), e o peso do mundo sob as costas desse sujeito metódico.

Por meio de flashbacks, a captura e trabalho na construção da estrada de ferro (aquela da ponte do Rio Kwai). O filme não consegue nada além de uma fotografia embacada, cenas de tortura e melodramas carregados de uma emoção nada comovente. A mesmice de histórias dolorosas que se repetem, sem que o cinema esteja ganhando algo além de lagrimas e lamentações.

De Olhos Bem Fechados

Publicado: outubro 16, 2013 em Cinema
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Deolhosbemfechados_Eyes Wide Shut (1999 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Pelo prisma de um casal, Stanley Kubrick sintetiza uma extensa análise sobre a relação humana com o sexo. Trata-se de um trabalho denso, e um desenho meticuloso de diversas variáveis resumidas em poucos personagens. Da prostituição aos desejos secretos, do mero flerte descompromissado a uma sociedade secreta de práticas sexuais não-usuais, casamentos em crise e a tentação fácil das ruas de Nova York.

Kubrick e sua narrativa instigante mergulham, em duas noites, da vida de um médico (Tom Cruise) e sua esposa (Nicole Kidman). Enquanto Cruise é colocado à prova de tentações e reage a descobertas surpreendentes de sua esposa, mantém um comportamento típico, masculino, padrão. É com Kidman que Kubrick brinca de mudar comportamentos, da garota ingênua que passou do ponto na bebida à mulher perversa, com desejos secretos, é ela que verbaliza e “testa” os comportamentos do marido. Dessa forma, o filme levanta a questão do padrão sexual masculino tão carnal e mecânico, enquanto o feminino com tantas nuances que se misturam entre prazer, amor e estabilidade.

A cena de discussão, no melhor estilo Bergman e seu Cenas de Casamento, leva o médico muito além de um mero desejo de vingança, ou ciúmes. Surge uma trama de suspense, por acaso ele mergulha num mundo fechado, impenetrável, perigoso. Kubrick deixa sua narrativa mais instigante ainda, invade salões e comtempla orgias. O cineasta está provocando a elite, como também o matrimônio e seu conservadorismo, e o faz de forma provocadora, escandalosa, e lenta, como se fosse um veneno que penetrasse lentamente pelas artérias. O veneno da libido, do desejo irracional, e da serenidade posta de lado por uma mente submersa pela cobiça

stokerStoker (2013 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

A estreia do coreano Park Chan-wook em Hollywood não traz grande brilho a uma carreira que explodiu, para, logo a seguir, cair num buraco negro sem fim. Os fãs surgidos com Oldboy vão se esvaziando a cada novo filme, demérito exclusivo do próprio cineasta que não acerta mais na fórmula, e esse aqui não deve ajudar muito.

Chan-Wook vem cheio de firulas na direção e na fotografia, que colaboram (até positivamente) com a atmosfera de suspense/terror, mas não resolvem o roteiro sofrível. Aliás, essa indefinição pelo gênero é mortal, a não opção pelo terror deixa o enredo ilusório, com conexões frouxas ao explicar comportamentos que se conectariam por relação de sangue. Os personagens apresentam-se estereotipados nas próprias carreiras dos atores, Nicole Kidman perdida, Mia Wasikowska esquisitinha, Matthew Goode galã caricato, nem nisso Chan-wook conseguiu, ao menos, inovar.

Hemingway & Gellhorn (2012 – EUA)

É com muito pesar que faço a comparação, mas ela não me sai da cabeça. O filme de Philip Kaufman mais parece um novo capítulo de As Minas do Rei Salomão e coisas do gênero, com um tipo aventureiro e uma loira que entra com ele nas aventuras. Ok, sem as doses de sequencias de ação ou de canibais, mas o espírito é o mesmo.

A ideia é a história de um romance, dos escritores Ernest Hemingway (Clive Owen) e da corajosa Martha Gellhorn (Nicole Kidman). Engajados, eles acabam na Guerra Civil Espanhola, como correspondentes estrangeiros ou interessados em escrever um novo romance (e também, viver entre eles um romance que está nítido desde a cena do bar). Kaufman perde o contexto histórico, a guerra explode pelas ruas, a presença bélica é maciça, mas o interesse do diretor é outro, o de promover a tensão entre o casal, cenas provocativas, muitas vezes insonsas.

O ápice do brega nessa produção da HBO é a cena de sexo durante o bombardeio. Mas, o filme pretende ser sério, traz uma Gellhorn recontando os fatos nos dias atuais com tom sisudo, enquanto o casal Hemingway e Gellhorn vive de amores e disputas pessoais e desfilam pela tela nomes importantes da cultura e da disputa militar espanhola.

Rabbit Hole (2010 – EUA)

Drama falsamente carregado sobre um casal lidando com a perda recente, o casamento desfacelado, a dificuldade em conviver todos os dias com as lembranças e toda aquela dor atenuante. John Cameron Mitchell vai além do convencional, juntamente com seus corretos atores Nicole Kidman e Aaron Eckhart, e nos faz lembrar bastante Sam Mendes e seu (pior) filme Revolutionary Road, num conjunto de consequencias que tendem a explodir, mas nunca chegam a nos dizer muita coisa. Não há grandes diálogos, não há grandes personagens, apenas duas pessoas que não sabem se correm ou se ficam paradas, que não sabem se vivem a rotina ou se reclamam da dor (um com outro), tudo falsamente perfeito e harmonico, tal qual a vizinhança arborizada de casinhas arrumadas e famílias (pretensamente) felizes. Para pessoas como eles, não há mais felicidade.

The Interpreter (2005 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Escolheram um país fictício, foi até melhor, seria injustiça mirar na história político-sangrenta de um país africano, e deixar que vários outros escapassem ilesos da imagem de genocídio, como se aquela fosse uma história isolada. Líderes que pregam a paz durante sua fase de guerrilheiros, e ao subir ao poder tornam-se ditadores implacáveis, promovendo verdadeiras carnificinas, pelo país, são a triste realidade de grande parte do continente africano.

O que ganha dimensões além da história é o cenário, o filme já ficou marcado como o primeiro gravado dentro da sede da ONU. Muitos cineastas tentaram permissões, e só Sidney Pollack conseguiu convencê-los a abrir os salões da organização. Talvez tenha sido uma escolha política, já que a ONU está com sua imagem fragilizada depois dos acontecimentos políticos no Iraque, principalmente na decisão dos EUA de não aceitarem o veto do Conselho de Segurança contra a invasão. Não importa, ao filme, a utilização desse cenário foi altamente benéfica, trazendo realismo.

E no grande salão que a trama tem seu estopim, quando por acaso a intérprete Sylvia Broome (Nicole Kidman) ouve um diálogo em que se tramava o assassinato do presidente Zuwanie (Earl Cameron) de Matobo. A situação política daquele país fervilhava, e Zuwaine pretendia discursar na ONU em buscar de apoio. Silvia procura a polícia, desconfiados os agentes trabalham com a hipótese do atentando, enquanto investigam a própria intérprete. Qualquer outro detalhe estragaria o thriller.

Pollack nos reservou boas doses de suspense, alguns deles realmente eletrizantes como a fantástica seqüência no ônibus. Porém, em vários momentos e com clichês a exaustão o filme se torna sentimental ao extremo. A cena em que o lenço umedecido limpa o rosto, com sangue, talvez seja o ápice desse sentimentalismo banal. Essa gangorra, de bons e maus momentos, traduz a irregularidade do filme, se o silêncio substituísse alguns diálogos já teríamos um resultado melhor. O agente secreto (Sean Penn) é usado pela interprete como bola de ping-pong, sua vida pessoal escancarada é a maneira encontrada pelo roteiro para dar um toque romântico à história.

Dogville (2003 – DIN/ING/ALE)  

Visualmente é diferente de tudo o que você já viu. Estruturalmente é uma crítica veemente, e vigorosa, a uma sociedade podre, que usa seu poder para dar as cartas, e conquistar seus objetivos, enquanto esconde suas fragilidades. O dinamarquês Lars von Trier filma num tablado negro de teatro, com riscas brancas demarcando casas, representando arbustos e animais. Poucos objetos em cena e a total ausência de muros. A câmera tremendo com grandes closes e cortes secos e bruscos. Nada de amadorismo, a obra é tecnicamente perfeita, com uma fotografia deslumbrante, e o filme tem seus propósitos para ser como está apresentando.

Dogville é uma pequena cidade no interior dos EUA, quase uma aldeia, onde poucas famílias sobrevivem pacatamente em meados da década de trinta. A jovem Grace (Nicole Kidman) aparece misteriosamente na cidade fugindo de gangsteres e é acolhida por Tom (Paul Bettany), que consegue convencer os habitantes da cidade a protegê-la, desde que ela demonstre ser confiável no prazo de duas semanas.

No início é tratada com muito apreço pelos moradores, mas gradativamente seus favores não são mais suficientes e a jovem passa a ser abusada, estuprada e humilhada por cada um dos seus novos amigos. Sem muros podemos acompanhar na mesma cena um estupro acontecendo enquanto pessoas lavam louça ou varrem seu quintal, em suas casas. Os homens sedentos por saciar seus desejos sexuais, as mulheres invejosas espezinham Grace, o que eram pequenos favores torna-se uma relação de vassalagem.

A relação trabalhista, o espírito capitalista, a falsa ingenuidade, a democracia, a amizade de aparências, uma artificial vida harmônica, a inveja. Não caia no erro de olhar Dogville como uma história normal e tentar entender cada fato, julgando, condenando ou justificando cada ação, esse raciocínio simplista tira a razão de ser do filme. Todo o texto é composto de metáforas e ironias que dissecam de maneira direta a sociedade americana (não especificamente, mas com grande intensidade). Cada personagem representa uma parte dessa sociedade moralista, arrogante e gananciosa, que não pensa duas vezes em usar seu poder para impor regras e decisões, o centro do egoísmo.

A cena que marca a entrada de James Caan em cena é triunfal, Nicole Kidman mostra novamente seu talento, John Hurt é o narrador da história e tem o timming perfeito. Dividindo o filme em dez capítulos (sendo um deles o prólogo), Lars von Trier conta sua fábula sem diminuir a intensidade de suas críticas, o poder de chantagear, o egocentrismo e o alto grau de aceitação são armas fatais nas hábeis mãos do diretor. Dogville é corajoso, inquietante e em nenhum momento desvirtua-se de seus princípios, o nome Thomas Edison não está ali por acaso. Nunca mais escutarei Young Americans (David Bowie) sem lembrar-me daquelas fotos.

The Others (2001 – ESP/EUA/FRA) 

O marido foi lugar na Segunda Guerra Mundial e Grace (Nicole Kidman) vive com os filhos numa mansão afastada nas Ilhas Jersey. As crianças sofrem de uma doença rara que não lhes permite exposição a luz do sol, por isso as janelas estão sempre fechadas, a iluminação toda a base de velas. Todos os empregados simplesmente partiram, sem maiores explicações, e três desconhecidos, se dizendo serem antigos empregados da casa, batem à porta pedindo emprego. As crianças dizem ver fantasmas pela casa, a mãe, religiosa fervorosa, não acredita e o conflito é inevitável.

Bem destacável a direção de Alejandro Amenábar, e sua capacidade de resgatar o clima de terror dos filmes dos anos quarenta, sem pieguice. A narrativa lenta, a atmosfera de suspense, a iluminação sombria, e, acima de tudo, a maquiagem das crianças – os rostos sem cor, os lábios vermelhos destoando da pele branquela, são essenciais para a imersão do público. O som de portas rangendo, os figurinos, o clima criado naquelas breu danado. Os Outros é uma das gratas surpresas do ano, com Kidman dominante tanto nas cenas dramáticas, quanto no suspense, uma atuação marcante. O desfecho e seu plot twist fica para os vinte minutos finais, quando a velocidade narrativa aumenta e as respostas começam a esclarecer o que se passa naquela mansão.