Posts com Tag ‘Niels Arestrup’

opalaciofrancesQuai d’Orsay / The French Minister (2013 – FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Comédia que ganha o público pela repetição e pelo cansaço. Não há nada de humor relevante no jovem Arthur Vlaminck (Raphaël Personnaz) que chega como assessor de linguagem do ministro. Muito menos no chefe de gabinete, o ponderado Claude Maupas (Niels Arestrup) que trabalha como o coração do Ministério do Exterior. O charme é mesmo do ministro (Thierry Lhermitte), que age de forma espontânea, as vezes incompreensível (meio Gilberto Gil), e suas manias, tratatas à repetição trazem o que se pode chamar de charme.

O classicismo do diretor Bertrand Tavernier não parece combinar muito com comédias, é de Lhermitte e sua performática presença, a frente das câmeras, que o filme consegue se desenvolver entre disputas internas e toda a burocracia governamental. A sátira sobre as loucuras do comando de um país é narrada de maneira elegante e patina em todas as cenas em que Lhemitte não marque presença (por mais que Arestrup tenha ganhado o César de ator estrageiro e demonstre seu costumeiro refinamento). O fato é que o jo vem assessor não decola, seu protagonismo é engolido pelos demais em cena, até Julie Gayet pode mais que o atrapalhado e sem graça Personnaz.

Foi a primeira vez que assisti a festa de premiação do César, o equivalente ao Oscar da Academia Francesa de Cinema. E é impossível não comparar as festas de cerimônia, e imagino eu, não se encantar com a versão francesa. Basta conhecer um pouco mais do cinema francês, e na platéia ver Arnaud Desplechin, Roman Polanski, Léa Seydoux, Bérénice Bejo, Mathieu Amalric e tantas outras estrelas.

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Primeiro, mesmo em sua autohomenagem e celebração de seus melhores, o cinema francês não perde oportunidade de homenagear a maior indústria do cinema, q Hollywood do cinema americano (não em quantidade de filmes, que se sabe que Bollywood e Nollywood profuzem mais filmes). Quentin Tarantino e Scarlet Johansson (ela com homenagem a sua carreira).

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A cerimônia é enxuta, sem parada para intervalos comerciais, sem firulas e delongas. A platéia quase comanda o show. Algum premiado exagera nos agradecimentos? Não tem música alta e nem microfone que se movimenta, a platéia começa a bater palmas e a pessoa “se toca”. Aplausos mais efusivos também para os preferidos, quando as indicações são citadas antes da entrega do prêmo.

cesar-ceciledefranceCécile de France comandou a festa, com graça e leveza, humor e carisma. protagonizou um numero musical, cantando e dançando, e nem precisou sair do palco para apresentar todos os mais de 20 prêmios. César é uma aula de como promover a indústria, de forma chique e agradável, com direito a tapete vermelho, estrelas e flashes, sem perder o glamour.

Sobre a premiação, foi a primeira vez que um filme de estréia foi o grande premiado. Les Garçons et Guillaume à table ! (dirigido e protagonizado por Guillaume Gallienne) ganhou 5 Césars (Filme, Ator, Roteiro Adaptado, Montagem e Filme de Estréia), supreendendo os favoritos Azul é a Cor Mais Quente e Um Estranho no Lago.

Guillaume_Gallienne_Sucesso popular, com 2,5 milhões de ingressos de cinema vendidos, superando os celebrados filmes eróticos (com temática de gays e lesbicas) pode ter uma escolha pelo popular, ou uma total demonstração de que a Academia Francesa ainda não está preparada para consagrar o tabu da libertação sexual. Nessa discussão, fica o texto interessante da Première sobre o assunto.

Outros premiados foram Roman Polanski como Diretor (por Venus in Fur), Sandrine Kiberlain como Atriz (por 9 Mois Ferme). Entre os Coadjuvantes, Adèle Haenel (por Suzanne) e Niels Arestrup (por Quai D’Orsay). Os favoritos se contentaram com o prêmio de revelações, masculina para Pierre Deladonchamps (Um Estranho no Lago) e Adèle Exarchopoulos (por Azul é a Cor Mais Quente). Filme Estrangeiro foi outra surpresa já que havia Blue Jasmine, Django Livre, A Grande Beleza e Gravidade) foi para Alabama Monroe.

Alguns links de videos dos premiados

perderarazaoÀ Perdre La Raison (2012 – BEL) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Joachim Lafosse filma tragédias sociais. Sempre num ritmo sereno, angustiante, como se montasse um quebra-cabeças ao trágico. A sensação de incômodo penetra no público, o comparam a Haneke, mas ele segue outra linha, outro tipo de incômodo, são tragédias “mais reais” e nada metafóricas. É o desgaste da vida que influencia o cineasta.

Trata-se de um filme sobre desgaste, sobretudo emocional. Do amor contagiante de dois jovens (Émiliie Dequenne e Tahar Rahim) ao olhar desolador dela, numa cama de hospital, na cena que abre o filme, há uma longa jornada onde a sensação de manipulação pelo controlador e dócil (Niels Arestrup) causa a destruição da autoestima e do autocontrole.

O roteiro é baseado numa história verídica ocorrida na Bélgica, o que torna tudo ainda mais horrorizante.  A relação delicada de total dependencia do casal, ao homem que tanto ajudou o garoto a sair da pobreza no Marrocos, tornando-o uma espécie de “filho adotivo” e desse modo, imerso em gratidão, funciona como mecanismo de destruição familiar, principalmente na figura da garota que vê seus sonhos naufragarem numa vida de mãe e dona de casa.perderarazao2

Lafosse se encontra nela, sufoca sua personagem, enclausurada no trabalho como professora que nada mais parece a extensão de sua casa, cheia de filhos. O desgaste familiar serve como combustível, mas o diretor não consegue dar eloquente gravidade a essa relação, quase transformando-a numa transtornada com pouca razão. O incomodo está lá, o grau de tensão não. Como sempre, Lafosse filma bem, mas seu impacto acaba abafado, de um jeito ou de outro.