Posts com Tag ‘Nouvelle Vague’

Frances_HaFrances Ha (2012 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Depois do fiasco retumbante de seu filme anterior (Greenberg), o cineasta Noah Baumbach tenta fugir um pouco da cena indie americana, buscar refugio na Nouvelle Vague francesa. Na maneira de filmar temas com um quê de fugaz, juventude, Na presença constante da trilha sonora francesa, e até mesmo o preto e branco da fotografia. Em dado momento do filme, a citação a Jean-Pierre Léaud, no fundo Frances Ha (Greta Gerwig) quer ser o célebre Antoinel Doinel de Truffaut, com aquele jeito atrapalhado e o retardar do amadurecimento.

Resta saber o quanto de Greta Gerwig há em Frances Ha, a protagonista escreveu o roteiro com Baumbach, mas pode, muito bem, estar falando dela mesma. Essa nouvelle vague, à americana, para mulherzinha, guarda pouco do frescor pretendido, e sobra muito do histerismo e de uma imaturidade à la Peter Pan. Frances não quer crescer, e os a sua volta não conseguem desenvolver diálogos que possam encontrar a magia do movimento frances de décadas passadas. Os jovens continuam em festas, se embebedando para falar das aflições, se apaixonando, tentando se estabelecer profissional e pessoalmente, mas Noah Baumbach não tem a tarimba de Godard, aquela de transformar o simples no belo e inspirador.

gravity• Festival de Veneza: já está rolando, mas este ano não teremos a Repercussão no blog porque estarei viajando nos próximos dias, assim como não haverá o Links nas próximas semanas em virtude da viagem. Por outro lado, estarei lá, no Festival de Toronto, em breve as novidades de lá. Por enquanto, alguns destaques da crítica do festival de Veneza [Joe] [12 Years a Slave] [Under a Skin] [The Wind Rises] [Night Moves]

• Gravity (foto acima): o filme que abriu Veneza agradou, e muito, a crítica. [Metacritic]

• Oscar: quer conhecer os favoritos ao próximo Oscar? Acompanhe as notícias do Festival de Telluride, todos os favoritos passam lá [Uol Cinema]

• Nouvelle Vague: para quem ainda não viu os filmes, a programação do MIS está imperdível [MIS]

• VMA: o prêmio da MTV deu o que falar, ou melhor, Miley Cyrus e sua performance ridícula deu o que falar. [Salon]

 

Les Quatre Cents Coups (1959 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

De crítico da Cahiers du Cinema a um dos cineastas precursores daquele que talvez seja o maior movimento cinematográfico da história, a Nouvelle Vague, François Truffaut surgia definitivamente como diretor de cinema aqui, com um filme tão autobiográfico e que causou furor no Festival de Cannes. Nascia a saga de Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), que nesse filme resumia a própria vida do jovem ator, assim como a do diretor. Duas vidas coincidentes se encontrando ao acaso do destino.

O filme caminha suntuosamente pela perda da inocência, a deliberada vontade de impor-se, a autoafirmação tão pertinente à juventude. Truffat caminha pelo labirinto da idade, parece conhecer seus atalhos, abstraindo a inconstância pueril, os acessos rebeldes e a maneira jovial e imatura de uma personalidade em processo de formação. Doinel vive em seus treze anos a vontade de descoberta, a certeza de já poder caminhar por suas próprias pernas.

Porém a liberdade desejada esbarra no autoritarismo do professor, seu seguido implacável, ou no desprezo da mãe e a fraca presença do padrasto. Como toda criança num casamento esfacelado, ele se torna um peso, foge de casa, prefere viver ao esmo nas ruas de Paris sob a guarida de seu fiel amigo René (Patrick Auffay).

De pequenos delitos ao reformatório, Doinel é a figura da força da libertação pelo próprio espírito libertário. Parece incorrigível, quando é apenas carente, perdido, marginalizado pela falta de estrutura a sua volta que o apoiasse. Na cena da entrevista ele se apresenta sem máscaras, a verdade de uma criança exposta de maneira crua, totalmente nua, Truffaut alcança o ápice de seu cinema logo em seu primeiro filme.

osincompreendidos2Jean-Pierre Léaud possui um desejo de revolta enrustido, um ar infante, mistura com sapiência essas explosivas e peculiares formas de se expressar alcançando com maestria a onipresença de um garoto dessa idade. Truffaut faz de seu filme de estreia um acontecimento atemporal, que nunca perde-se pelo tempo, sentimentos vivenciados por jovens de todas as partes, de todas as localidades. Problemas rotineiros que permeiam gerações, a falta ou não de tato dos familiares provoca a predisposição para as escolhas dos filhos. Truffaut enlaça seu roteiro com um humor leve, tolo, em imagens de profunda poesia, a chegada ao mar, a citada entrevista com a psicóloga, enveredamos por respostas para compreendermos parte das causas, nunca a solução.

Jules et Jim (1961 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Um filme sobre o amor livre? Adaptando o livro de Henri-Pierre Roché, o cineasta François Truffaut revive a Paris da Belle Époque com toda sua efervescência, o mundo das artes impulsionando jovens pelas ruas, cafés e boates. Transpirando um mundo de descobertas, de pontos de vista, opiniões defendidas com afinco e uma soberba compassível. A ebulição parisiense transcendendo aos corações que quase nos enganam em não sofrer.

Um narrador em ritmo quase alucinante apresenta o início da sólida amizade entre o francês (Jim – Henri Serre) e o alemão (Jules – Oskar Werner) nos primórdios do século XX. Inseparáveis, essa amizade de tão intensa, chega ao ponto de não ferir o amigo ser a maior preocupação quando cada um defende sua pátria na Primeira Guerra Mundial. Truffaut resgata a suavidade das relações e a fragilidade dos sentimentos no encontro desses três, Jules conhece Catherine (Jeanne Moreau), se apaixona, é o primeiro sinal de ruptura da estrutura, ele pede ao amigo “ela não”.

O triângulo amoroso é inevitável, Catherine é um espírito livre, Jules e Jim mantêm a amizade como uma rocha. Nasce um relacionamento tão complexo e sem fronteiras, Truffaut mantém o ritmo narrativo acelerado, impõe a efervescência de Paris a esse estranho caso de amores faceiros, de instabilidade harmônica, de uma trama envolvendo liberdade e a completa ausência da sensação de posse. Mas também brinca com congelamento de imagem, ou a sutileza da liberdade na corrida na ponte, se não são vidas sem limites, ao menos são sensações ilimitáveis.