Posts com Tag ‘Nuri Bilge Ceylan’

A lista dos meus filmes preferidos do ano, entre todos que entraram em cartaz no circuito brasileiro.

top 10 2013 Circuito

nuvensdemaioMayis Sikintisi / Clouds of May (1999 – TUR) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Um cineasta de volta à sua cidade Natal, na mente a ideia para um novo filme, utilizando seus pais como atores. O alter-ego de Nuri Bilge Ceylan é Muzaffer (Ozdemir Muzaffer), aquele que se encanta com as paisagens bucólicas da Anatólia da sua infância, que demonstra pouco crédito com a inglória luta do pai, por aquilo que ele considera justo. E também, o que demonstra boa dose de egocentrismo, brincando com futuro das pessoas ou forçando seus familiares a atuarem.

Tudo isso faz parecer Muzaffer um carrasco, trata-se apenas da natureza humana. Cada qual está preocupado com sua realidade, Ceylan presta homenagem a Chekov nessa espécie de conto sobre a natureza humana, e sobre a sua Turquia. O pai (Emin Ceylan) briga por ganhar algumas terras (algo como uso-capião), o filho está mais preocupado com os rolos de filme desperdiçados, e faz pouco caso do jovem que largou o emprego sob a promessa de um trabalho em Istambul.

O pequeno garoto perambulado pelo vilarejo, Ceylan pode estar dividindo sua própria vida em alguns personagens, como pode apenas trazer um olhar doce e aprazível sobre suas raízes. De todos os modos, o faz com singeleza e as nuvens, que tanto permeiam seu cinema.

Bir Zamanlar Anadolu’da / Once Upon a Time in Anatolia (2011 – TUR) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Três, quatro viaturas (contendo não só os policiais como um médigo-legista, promotor e etc), nelas dois suspeitos e a polícia os levando a indicar onde o corpo da vítima fora enterrado. O cineasta Nuri Bilge Ceylan pega carona no estilo do novo cinema romeno, quase um live-action por entre regiões inóspitas turcas, cruzando uma única noite, deflagrando a rotina policial e principalmente o estilo de vida limitado dos habitantes de tais regiões.

É o filme policial sem glamour, o sono, o tédio, e uma trama que lentamente revelará segredos e personalidades de alguns dos personagens-chaves dessa “comitiva”. Ceylan segue com seu cinema contemplativo, com os takes entre céus e nuvens, mas aqui ele reencontra o cinema sólido que o destacou em Distante (Uzak), do escuro da noite o cineasta busca o fúnebre como quem precisa refletir seus personagens, não carecia dessa  metáfora, por mais que ele use os tempos mortos a seu favor, dando tempo a cada cena, a cada diálogo.

O poder de seu filme está neste desvendar lento, do crime em si (e os motivos, sempre de forma sutil), e principalmente da relação médico-promotor que revela segredos que atormentam (atormentavam e sempre atormentarão um deles), daqueles momentos em que o alívio do ouvido de um desconhecido pode revelar verdades icônicas.

A Pequena Cidade

Publicado: março 1, 2011 em Cinema
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O CCBB-SP está com uma mostra de filmes turcos como a Trilogia Yusuf e Três Macacos, enquanto tento acompanhar alguma coisa por lá aproveito para postar outro filme do Ceylan.

Kasaba (1997 – TUR) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Nuri Bilge Ceylan nos leva a uma pequena cidade (algo maior que uma aldeia) no interior da Turquia, filmando em p/b. Ele foca na visão de crianças com seus 10-11 anos, a fim de retratar o pacato dia-a-dia, as relações entre familiares, a forma de comunicação entre eles. Retratar o convívio social, num local distante das facilidades das grandes cidades.

Temos o convívio escolar, as pequenas dificuldades, as crianças treinando leitura como se participassem de uma maratona, mais tarde essas crianças descobrem a natureza e seus mistérios (mais precisamente uma tartaruga). No encontro com adultos, quietas, ouvem o despejar de reclamações entre parentes, as pequenas mágoas, a arrogância de uma educação melhor, e os “ensinamentos” sobre histórias de grandes conquistadores.

Esse choque entre a simplicidade do universo infantil e o intricado universo adulto, dentro de uma noite na floresta, não vai muito além da sensação de reflexos de um ranço de biografia, de algum quê de experiências passadas, longe da elaboração de um filme instigante.

tresmacacos

Three Monkeys (2008 – TUR) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Um político às vésperas da eleição oferece boa quantia em dinheiro para que seu motorista assuma a culpa de um acidente de trânsito. Desta situação nada impensável o cineasta Nuri Belgi Ceylan resgata a fábula dos três macacos que não falam, não ouvem e não vêem nada. O pai na cadeia, a mãe seduzida pelo político que recompensará os esforços do dedicado funcionário e o filho desleixado nos estudos que planeja trabalhar com transporte escolar aproveitando-se do dinheiro que o pai receberá.

Deste quadro de uma família dilacerada entre os segredos “velados”, Ceylan carrega na mão em seu estilo autoral, abusa do simbolismo climático para intensificar emoções dos personagens (as cores, a fotografia plastificada, tudo passa do ponto dessa vez); ainda assim ele domina enquadramentos, sabe extrair da imagem e principalmente o que enquadrar milimetricamente nela. Ceylan continua seu exercício de estilo, ele precisa é de um amigo que toque em seu ombro e diga: “menos, Ceylan, menos”. O que deveria tornar-se poderoso, não passa de um esboço de genial, renegado a um gosto de poderia ser melhor, e este gosto é amargo e pode contaminar seus próximos filmes. Infelizmente é comum que famílias evitem assuntos espinhosos, que tentem esconder ou calar-se para o bem comum, o conflito é desgastante, que só podem gerar situações limites, e aqui tudo está elevado a sua máxima potência.

 

climasIklimler / Climates (2006 – TUR/FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Além de dirigir, produzir e escrever o roteiro, Nuri Bilge Ceylan protagoniza o filme juntamente com sua esposa. Como seus trabalhos anteriores, há carga autobiográfica, além de ser difícil, narrativa lenta, planos longos com câmera fixa. Dessa vez repleto de uma violência aflitiva (não aquela sanguinária, uma de atos, olhares, sentimentos, sexo), e diálogos angustiados. Trata da incomunicabilidade, das pequenas coisas que fazem explodir ressentimentos acumulados em uma relação. Ceylan novamente nos apresenta enquadramentos de fazer inveja e um senso de utilização do silêncio fabuloso. O final é belo, demonstrando a impossibilidade de se manter uma relação mesmo havendo amor (porque amor não é a única razão a garantir a sustentabilidade de um relacionamento), enquanto o diretor brinca de estabelecer uma associação entre as estações do ano e a vida do relacionamento.

distanteUzak (2002 – TUR) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Um homem com seus quarenta anos passando por um momento crítico em sua vida. Seu casamento acabou, e ele vê sua ex-esposa partindo com outro. Sua vida de fotógrafo não vai além de fotos de pisos, azulejos e materiais para construção. Os amigos já não o satisfazem. Resta a Mahmut (Muzaffer Özdemir) a solidão de sua vida, trancafiado, em seu apartamento. Pela janela uma solitária Istambul (que poderia ser qualquer outra grande metrópole) de grandes diferenças e poucas oportunidades. A cidade engole e distancia seus habitantes.

O filme começa com a chegada de Yusuf (Emin Toprak) à casa do parente Mahmut. Yusuf vem do interior após perder seu emprego na fábrica (que está em dificuldades e demitindo todos os funcionários), procura trabalho como marinheiro e pretende auxiliar sua família desempregada no interior. Mahmut é um anfitrião calado, mais preocupado com suas manias de organização do apartamento. A falta de diálogo cria neles uma tensão explosiva, acentuada pela situação pessoal de cada um, o sapato fora do lugar ou uma luz acesa são lenha para um conflito.

As dificuldades econômicas assombram todos os países atualmente, a situação das populações nas grandes cidades parece chegar ao limite, com grandes taxas de desemprego, desequilíbrio social e outros fatores que atingem diretamente o emocional humano. Nuri Bilge Ceylan aproveita a ocasião para situar as crises existenciais humanas e demonstrar o distanciamento que cada um acaba buscando naturalmente.

De maneira vagarosa somos incorporados a vida maçante de Mahmut, compreendendo os porquês de sua melancolia. O trabalho primoroso de Muzaffer Özdemir contrasta com os cenários e a fotografia opaca, transmitindo ao público toda a complexidade de seu personagem. Yusuf não traz intensidade em sua busca por emprego ou por amor, aceita pacatamente sua situação com um pouco de vergonha e orgulho. Ceylan é profundo, contunde, seu retrato das mazelas no mundo contemporâneo são desgastantemente potentes.