Posts com Tag ‘Olivier Assayas’

festivaldecannes_2-650x400Em poucas horas começará a cerimônia de premiação da 67a edição do Festival de Cannes. Diferentemente dos últimos anos, este ano, este blog, não postou a repercussão diária das exibições, é muito trabalhoso e não deu tempo. Isso não quer dizer que o festival não tenha sido acompanhado, bem de pertinho. Agora que a imprensa já foi apresentada aos 18 filmes em competição e as mostras paralelas já conhecem seus premiados, podemos ter algumas expectivas, além dos favoritos que são apontados em diversas listas na internet.

Não parece ter sido uma edição de filmes que nos deixam ansiosos para conferir, mas há destaques bem interessantes entre monstros do cinema, ou novidades desconhecidas. Para quem gosta de quadro de cotações, vale uma olhada nesse link aqui, com críticos de muitos países, ou da revista francesa Le Film Français.

As frustrações começaram pelo filme de abertura, Grace de Monaco (Olivier Dahan) não agradou ninguém. The Search (Michel Hazanavicius) foi o mais vaiado com seu drama sobre a Chechenia, impressão de que o diretor de O Artista é realizador de um filme só. Captives (Atom Egoyan) foi outro que ninguém entendeu o que estava fazendo na competição (e eu não entendo porque ele sempre está lá), o filme é sobre sequestro infantil e pedofilia.

saint-laurent-cannes-2014No bloco dos que dividiram as opiniões estão: Saint Laurent (Bertrand Bonello) cinebiografia do estilista francês, com foco na relação com drogas e sexualidade. Jimmy Hall (Ken Loach) foi outro que passou quase batido, sobre um irlandês reabrindo um salão de dança, no meio de uma crise financeira-política, Loach e sua eterna visão socialista. A sensação é que erraram no argentino, Jauja (Lisando Alonso) acabou não premiado na Un Certain Regards, mas foi um dos filmes mais celebrados do festival, porém, na competição estava Relatos Salvajes (Damian Szifron), que até agradou, com suas 6 tramas cheia de atores argentinos conhecidos e humor negro.

Maps to the StarsAinda dividindo opiniões, mas já com alguns elogios que podem levar os filmes a serem lembrados na premiação ficaram: Foxcatcher (Bennet Miller), história real de um milionário e dois medalhistas olímpicos, e um assassinato. Os elogios as inesperadas grandes atuações de Channing Tatum e Steve Carrel foram entusiasmados (desde já um dos postulantes ao Oscar). Maps to the Star (David Cronenberg) ninguém aposta que a sátira sobre Hollywood será premiada, mas o filme agradou muita gente. The Homesman (Tommy Lee Jones) é outro western do diretor, dessa vez com foco em três mulheres cruzando o velho-oeste. O último dia de competição trouxe Clouds of Sils Maria (Olivier Assayas) e as reverências, inesperadas, a atuação de Kristen Stewart (crítico Guy Lodge acha que se ela ganhar a internet vai travar), e o filme também agradou, mas o último filme exibido é sempre carta fora do baralho.

Still-The-WaterAgora chegamos no pelotão da frente. Logo após a exibição, o japonês Still the Water (Naomi Kawase) parecia que ia passar em branco, mas vem crescendo no boca-a-boca, a história trata de dois irmãos numa pequena ilha no Japão. Há quem ame o cinema de Kawase, ela disse que este é seu melhor trabalho, mas muita gente questiona porque tanto ibope para seus filmes. Mommy (Xavier Dolan) é outro sempre questionado, aos 25 anos e com 5 filmes, Dolan é uma aposta dos festivais, muito prestigio (eu só vi o primeiro filme dele é gostaria de ficar bem longe). Se em seu primeiro trabalho ele queria matar sua mãe, este novo filme é uma espécie de vingança. A cinebiografia Mr. Turner (Mike Leigh) sobre o pintor e mulheres complexas a sua volta vem com força para uma possível premiação a Timothy Spall.

Nesse mesmo pelotão ainda estão: o italiano Le Meraviglie (Alice Rohrwacher), a segunda mulher em competição ganhou elogios crescentes com sua história de uma familia cuidando de uma fazenda de mel. A diretora, novamente, foca na adolescencia feminina. Timbutktu (Abderrahmane Sissako) foi exibido logo no começo, nunca foi considerado favorito, mas sempre elogiado por seu drama contudente sobre todas as mazelas religiosas que vive o norte da África, corre por fora em muitos prêmios.

Cannes2014DeuxjoursunenuitFavoritos, chegamos a eles. Pelo que tenho apurado são 4. Porém, um deles com chances nulas de tão reduzidas. Deux Jours, Une Nuit (Jean-Pierre e Luc Dardenne), os irmãos belgas já ganharam a Palma duas vezes. Nunca alguém ganhou uma terceira. A regularidade deles é impressionante, desde A Promessa que eles lançam um filme a cada 3 anos, e sempre estão entre os premiados. Não deve ser diferente, Marion Cotilard é a principal favorita (mas há muitas competidoras) ao premio de atriz. O filme é um fábula moral, um final de semana e uma mulher tentando mendigar seu emprego aos colegas de trabalho.

winter-sleep-cannes-2014-3Winter Sleep (Nuri Bilge Ceylan), o turco é um daqueles que está cada vez mais próximo da Palma, ontem ganhou melhor filme pela Fipresci (ano passado quebrou-se a maldição, mas normalmente quem ganha o Fipresci não leva a Palma). Desde que saiu o lineup eu já considerava ele, e o russo, como os favoritos, e os dois realmente encabeçam a lista. São 3 horas na Capadócia, ao estilo de Ceylan, poucos diálogos, tom poético, cavernas, pequenas tramas com um ator aposentado (Haluk Bilginer, outro com chances) no centro delas.

adieuAdieu au Langage (Jean-Luc Godard), seus filmes estão sempre em Cannes, em mostras paralelas, sua presença na competição significava alguma coisa. Desde os anos 80 que seu cinema chegou a um ponto de agradar a um seleto público (bota seleto nisso), cada vez mais resmungão e de narrativa fragmentada. Dessa vez ele vez com um 3D, e a crítica saiu estarrecida. A sensação que dá é que ele acertou no tom do que vem fazendo há anos, e se aproveitando da nova tecnologia. Seria uma decisão corajosa dar a Palma a Godard, ele nunca ganhou, é um ícone do cinema de autor e uma quebra com todo o cinema tradicional. Mesmo não gostando de seus filmes mais recentes (exceção ao belo Elogio ao Amor), gostaria de ver Godard ganhando para dar essa quebrada com o formalismo protocolar.

Leviathan 1Mas, se eu tivesse que colocar meu rico dinheirinho em alguma bolsa de aposta, ele iria para o russo Leviathan (Andrey Zvyagintsev). Muita gente torce o nariz, eu, particularmente, gosto de seus filmes. Começou com O Retorno (Leão de Ouro em Veneza), depois The Banishment passou batido, e o último, Elena foi premiado na Un Certain Regard (há quem reclame que devia ter passado na competição, naquele ano). Sua exibição de gala na quinta-feira é sinal de prestígio dentro da competição. E, se não é unanimidade, a proporção de admiradores é muito superior, não foram poucos os que pediram a Palma após sua primeira exibição. Poderia ganhar ator, roteiro, direção, mas a aposta é mesmo para ser a Palma de Ouro. Veremos. O filme é ambicioso, com um título desses não era para menos. O filme parece ser um contundente drama sobre a vida russa contemporanea, a corrupção política, a presença da igreja Ortodoxa, o poder, a polícia.

Fora da Competição, além de Jauja, destaques para Welcome to New York (Abel Ferrara) contando o escandaloso caso de Dominik-Strauss. Force Majeure (Ruben Ostlund) sobre o poder de avalanche. O polêmico, e eleito melhor filme na Un Certain Regard, White God (Kornél Mundruczó) e os ucranianos The Tribe (Myroslav Slaboshpytskiy) sem falas, personagens surdos-mudos, e o documentário Maidan (Sergei Loznitsa) sobre os recentes acontecimentos políticos na Ucrânia.

irmavepIrma Vep (1996 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Sensacional a transposição de Olivier Assayas do mundo atrás das câmeras. René Vidal (Jean-Pierre Léaud) é um daqueles cineastas que já viveu seus momentos, buscando reencontrar-se aceita dirigir o remake de Les Vampires (clássico mudo do cinema francês). Sua escolha para Irma Vep (anagrama da palavra Vampiro, em francês) é uma atriz chinesa (Maggie Cheung), que sob sua ótica é a perfeita tradução de Irma Vep: sensual e misteriosa.

O caos começa quando da chegada de Maggie a Paris, a equipe de produção está toda confusa, as brigas e disputas intermináveis no set. Assays se utiliza muito de planos-sequencia, seja dentro da produtora, ou do set, intensificando esse caos entre a equipe de produção. De outro lado, Maggie se vê fascinada pella cidade e por sua personagem. Assayas mistura bem esse conjunto de elementos, trazendo o enigmático ao rocambolesco do ritmo das gravações. Um pequeno deleite do mundo por trás do cinema, filmado de maneira vivida, simples e sofisticada.

Neste e no próximo sábado, infelizmente, não será possível o post regular com os links da semana. Estou em viagem, e por aqui o WordPress é bloqueado. Mas não ficaremos sem atualizações. E como o Festival de Cannes está chegando, e em breve saberemos quais filmes será escaladas para a Mostra Competitiva, e demais mostras paralelas. Resolvi realizar uma pequena pesquisa e postar links sobre alguns dos mais interessantes filmes que devem estar escalados para Cannes. Portanto, divirtam-se e ficaremos na expectativa.

Clouds of Sils Maria (de Olivier Assayas) dizem já estar confirmado em Cannes. [IonCinema] [Omelete] [Wikipedia]

Fairyland (de Sofia Coppola) [Variety] [Empire] [Ipsilon] [Deadline]

Maps to the Stars (de David Cronenberg) [Website do Filme] [Collider] [IndieWire]

Two Days, One Night (de Jean-Pierre e Luc Dardenne) [Pipoca Moderna] [Wild Bunch] [The Film Stage]

The Assassin (Hou Hsiao-Hsien) [David Bordwell] [Filmbiz.Asia] [Next Projection]

Horizontal Process (Abbas Kiarostami) [IndieWire][Variety]

Après Mai (2012 – FRA)

O ano é 1971, a geração estudantil que fervilhou em Maio de 1968 (ou os mais jovens que assistiram a tudo) tenta encontrar seu rumo, acredita que pode mudar o mundo enquanto experimenta o diferente (drogas, o Oriente). Olivier Assayas mergulha em suas lembranças, utiliza um alter-ego que se destaque entre tantos personagens. O diretor deixa seu filme vagando entre o nada e o lugar nenhum, as tendências políticas e artísticas, o ímpeto de fazer, mas sem nem saber como, os amores.

O que vem depois de um momento histórico nem sempre é algo grandioso, depois da tempestade vem a rotina e os próprios destinos, Assayas tira um pouco do brilho e do romantismo, restam jovens, se descobrindo ou ao mundo, dúvidas e separações, inseguranças e desejos.

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O dia foi todo de Olivier Assayas e a famosa efervescência oriunda de 1968. A chuva de elogios traz um novo candidato ao Leão de Ouro, que até então parecia certo para The Master. ‘Apres Mai’ traz algo das lembranças da época do próprio cineasta, o jovem protagonista cola cartazes, entrega jornais de protesto, vive e discute a política pelas ruas enquanto enfrenta a melancolia e os amores da juventude.

Críticas: Press PlayEl PaísScreen DailyHollywood Reporter

Termômetro: obrigatório

Takeshi Kitano volta com a continuação de Outrage, que agradou alguns depois de fracassos seguidos nos filmes anteriores. Com linguagem pop, ultra-violento, divertido e, dizem, despretensioso, Kitano apresenta ‘Outrage Beyond’, novamente envolto no mundo da Yakuza, e todos os clichês que o filme de gênero possa apresentar.

Críticas: Cine-VueScreen DailyÚltimo Segundo

Termômetro: morno

Na prestigiosa mostra Orrizonti, bons elogios ao britânico ‘Boxing Day’, terceira parte de uma trilogia de adaptações contemporâneas de obras de Tolstoi, adaptadas pelo diretor Bernard Rose e protagonizadas por Danny Huston. Um comerciante ambicioso, uma viagem pela neve,um denso conto moral.

Crítica: The GuardianHollywood Reporter Screen Daily

Termômetro: de olho

Amos Gitai conta a história de seu pai no documentário ‘Lullaby to My Father’, encena o julgamento dos Nazistas por traição e sua vida como arquiteto. Há um tempo que Gitai optou por um cinema minusculo, pessoal, misto de documentário e ficção (e tedioso para muitos), e, dessa vez, não parece diferente.

Críticas:  Hollywwod ReporterÚltimo Segundo

Termômetro: morno

Água Fria

Publicado: maio 2, 2011 em Uncategorized
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L’Eau Froide (1994 – FRA)

Talvez tenha sido o único a encontrar diálogo entre este filme e a obra-prima de François Truffaut, Os Incompreendidos. Talvez quisesse eu, um filme da saga Doinel, que explicasse a fase realmente adolescente do personagem, não ficando com esse hiato que foi o salto para a doce comédia Beijos Roubados. Olivier Assayas pega emprestado uma rebeldia jovem, uma inquietação irresistível, um sentido de movimento, de se manifestar, que muito me remete ao Doinel pueril. Aqui os personagens são um casal de adolescentes, o ato ilícito que abre o filme é determinante para o restante da história (roubo de vinis dos Stones e Deep Purple), uma separação anunciada, contra vontade. Utilização maciça e preciosa de uma trilha rock, a manifestação desse senso de liberdade reprimido, a festa rebelde determinante para esses jovens tão aflitos quanto pouco conseqüentes. Assayas nos oferece um filme de espírito, vivemos os anos setenta e toda uma necessidade aguçada de polemizar a si próprio, entre o balé das câmeras, uma demonstração concisa de uma juventude conflitante.

horasdeveraoL’Heure d’eté (2008 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Hélène (Edith Scob) dedicou grande parte de sua vida à preservação da memória de seu tio-avô. Com carinho e dedicação exemplar as obras do pintor foram conservadas pela sobrinha e decoram a requintada “casa de campo” da família. Ponto de encontro familiar onde os três filhos e netos encontram-se com assiduidade cada vez mais rara. Olivier Assayas filma com delicadeza e amplitude a discussão sobre o espólio, sobre o valor de cada objeto, a preocupação de Hélène com o fim que será dado a cada objeto, cada móvel. Preocupa-se também com convicções e diferenças entre os filhos, Frédéric (Charles Berling) o mais velho, não deseja que a família se desfaça dos bens, enquanto seus irmãos Adrienne (Juliette Binoche) e Jérémie (Jérémie Renier) não têm interesse algum nessa preocupação de resgate das memórias.

A trama gira de maneira sorrateira e pouco inspirada, sobre esses pontos de vista diferentes. Lembranças e revelações enquanto a família se reúne, provavelmente pela última vez, (a matriarca vive no alto de seus setenta e cinco anos). O trabalho do diretor de fotografia Eric Gautier mostra-se crucial, se Assayas narra seu filme de forma bonita e discreta, é o trabalho de Gautier, intensificando o clima bucólico e nostálgico em cada um dos ambientes, objetos, personagens e sentimentos, o verdadeiro alicerce da história. Partilhas sempre guardam momentos dolorosos, opiniões distintas, frustrações e necessidades (ainda mais com os proprietários em vida). As crianças brincam no jardim, os pais tratam de amenidades, e o filme trata do tempo e das coisas tão valiosas afetivamente a uns e meros objetos sem significado aos demais.